A Monarquia do Afeto: Por Que os Tiranos Não Se Criam em Pindorama

Por José Evangelista Rios da Silva

Existe uma beleza profunda e rebelde no modo como o brasileiro enxerga o mundo. Enquanto o Velho Mundo construiu impérios sobre coroas de ouro, linhagens de sangue e guerras de dominação, o povo de Pindorama operou uma das maiores subversões culturais da história: nós sequestramos o conceito de realeza e o batizamos nas águas do afeto.

Aqui, a nobreza não se herda no DNA; ela é conquistada na ginga, na poesia, no suor do trabalho e na generosidade do abraço.

A Subversão dos Símbolos: Do Padrão Colonial ao Valor Concreto

Quando o Estado e o capital financeiro tentam nos impor suas regras de cima para baixo, o povo responde desarmando o monumento pela linguagem.

Veja o caso do Real. Em 1994, a moeda resgatou a denominação do antigo réis colonial para tentar evocar a autoridade da antiga realeza e a estabilidade do Estado. Mas como a gente consome a vida no chão da fábrica e nas feiras livres, o povo fez o que sabe de melhor: rebaixou o conceito abstrato para a realidade concreta.

Hoje, dizer que algo “é de real” ou “é a real” virou sinônimo de verdade, de justiça, de autenticidade. O valor “real” para nós não é a abstração dos bancos, mas o pão garantido na mesa e a dignidade do fruto da nossa força de trabalho.

A Geografia do Pertencimento: O Rebatismo das Nossas Capitais

Essa mesma disputa acontece no chão onde pisamos. A classe dominante sempre tentou imortalizar seus generais, ditadores e governantes gravando seus nomes nos mapas. Mas o povo recusa a memória da violência e rebatiza o território pelo afeto:

  • Florianópolis, batizada para imortalizar a violência do marechal Floriano Peixoto, é carinhosamente adotada como Floripa ou Ilha da Magia.
  • Salvador, sob o rigor colonial devocional, reafirma sua força ancestral e cultural como a Roma Negra ou Soterópolis.
  • Rio de Janeiro e São Paulo desarmam o peso da metrópole virando Cidade Maravilhosa e Sampa.

Ao encurtar, apelidar ou poeticamente redefinir o nome de uma cidade, a gente desaloja o fantasma da dominação e toma posse do espaço pela via do amor e do pertencimento.

A Nossa Coroa dos Afetos e a Incompatibilidade com a Tirania

A nossa “Monarquia do Afeto” é profundamente democrática. Nós coroamos o Rei Pelé pela arte nos pés, a Rainha do Axé pelo canto que arrasta multidões, o Rei do Baião Luiz Gonzaga pela sanfona que traduz a seca e a esperança, e a Rainha do Rock Rita Lee pela liberdade irrestrita.

Nas nossas casas, o abraço mais protetor transforma filhas e filhos nas princesas e príncipes de um lar que resiste às intempéries do cotidiano.

E essa nobreza tem regras claríssimas:

  1. A genialidade não se transmite por herança: O título de rei ou rainha do povo não passa para o filho; morre com o artista ou fica guardado na memória coletiva.
  2. A autoridade vem da alegria: Não se governa pela força ou pela coerção, mas pelo encantamento.
  3. Sem protocolos nem estamentos: Essa realeza se abraça, tira selfie, pede autógrafo e celebra junta.

É por isso que, nesta terra de Pindorama/Brasilis, os tiranos não se criam.

A tirania exige solo fértil de medo, tristeza, rigidez e protocolos frios. Ela pode até ocupar provisoriamente as cadeiras burocráticas do poder institucional, mas é ontologicamente incapaz de fincar raízes no tecido cultural do povo brasileiro. O autoritarismo não combina com o ritmo, com a diversidade, com a garra e com os nossos braços e alegres corações.

Um Povo em Permanente Invenção

O Brasil não é uma estrutura pronta; é um processo aberto, uma utopia em constante construção. Entre as dores da nossa formação e as lutas diárias por justiça social, a nossa maior tecnologia de sobrevivência continua sendo a capacidade de transformar a escassez em festa, o rigor em afeto e a dominação em rebeldia.

Na nossa monarquia, a verdadeira soberania pertence a quem sabe cuidar, encantar e libertar. E contra a força do afeto popular, não há ditador que consiga se manter de pé.

Sobre o Autor

José Evangelista Rios da Silva é um profissional com vasta experiência nas esferas política, sindical e educacional. Sua formação acadêmica inclui graduações em Geografia pela Universidade Católica de Salvador (UCSal) e Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Evangelista possui especialização em Planejamento Estratégico e Situacional pelo Centro de Estudos Sociais e Sindicais (CES-Nacional) e em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois.

​Sua trajetória é guiada pela práxis militante, com o objetivo de servir à sua categoria e classe. Como um “sonhador apaixonado”, dedica-se a construir pontes e soluções, sempre pautando suas relações pelo princípio do respeito e da consideração mútua, independentemente de posições ideológicas. Atua como formador popular classista e desempenha um papel ativo no sindicato através da Federação dos Empregados no Comércio do Estado da Bahia (FEC).

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