Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo: O presente estudo analisa as transformações geopolíticas e jurídico-institucionais operadas no continente americano ao longo de 2026, com foco na consolidação da tutelaridade exercida pelos Estados Unidos sobre a República Bolivariana da Venezuela e suas repercussões para a arquitetura de defesa da América Latina. Sob o instrumental do materialismo histórico-dialético, da paralaxe classista e do Planejamento Estratégico Situacional (PES/MAPP), o artigo examina a transição da soberania estatal para um regime de “Junta de Administração Colonial”, a expropriação direta de recursos hidrocarbonetos pelo Tesouro norte-americano, os desdobramentos operacionais velados das forças de elite e a vulnerabilidade doutrinária do aparato de defesa no Cone Sul.
1. A Confissão Extrajudicial da Expropriação e o Vampirismo Financeiro
A evolução dos acontecimentos no primeiro semestre de 2026 desvelou a dimensão essencialmente predatória das operações levadas a cabo na América Latina. O desvio das receitas de exportação da Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) diretamente para contas sob custódia e controle do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos constitui a materialização da expropriação colonial sob trajes jurídicos de transição.
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│ SISTEMA DE EXTRAÇÃO DE DIVISAS (2026) │
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│ PDVSA: Produção e Operação de Campo │
│ (Instalações e infraestrutura em solo venezuelano) │
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▼ [Retenção Obrigatória Externa]
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│ DEPARTAMENTO DO TESOURO DOS ESTADOS UNIDOS │
│ (Centralização de fluxos / Repasse condicionado: 15%) │
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│ JUNTA DE ADMINISTRAÇÃO LOCAL (CARACAS) │
│ (Gerência de passivos e custeio do aparato mínimo) │
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A declaração pública celebrando o afluxo de divisas provenientes do subsolo alheio expõe a natureza do conflito: a transformação de um país soberano em uma zona de expropriação direta sem os custos burocráticos de uma anexação formal. A redução legislativa dos royalties devidos ao Estado de 30% para 15% consolida o que a economia política define como “vampirismo financeiro”, no qual a soberania territorial é mantida como ficção jurídica, enquanto a substância econômica é drenada para garantir a estabilidade do capital transnacional.
2. A Dialética do Colaboracionismo e o Aparelho de Estado sob Tutela
A análise da entrevista concedida pela liderança interina em julho de 2026 revela as fraturas internas do bloco histórico venezuelano. O fenômeno do colaboracionismo surge quando a cúpula remanescente, buscando preservar a sobrevivência burocrática e evitar a destruição total da infraestrutura física do país, assume a gestão das diretrizes traçadas pela potência ocupante.
- O Silêncio Seletivo como Instrumento Político: O apagamento sistemático da figura de Cília Flores nas declarações oficiais e o silêncio quanto aos combatentes e assessores internacionalistas vitimados durante a incursão de 3 de janeiro cumprem uma função estrutural: eliminar da memória institucional os elementos que inviabilizam o “reencontro” comercial com Washington.
- A Contradição da Legitimação: A tentativa de defender a inocência do presidente deposto e, simultaneamente, assinar decretos de cooperação militar e comercial com a autoridade que ordenou sua captura expõe a paralisia do aparato estatal. Como formulara Frantz Fanon ao analisar as elites compradoras do período de descolonização, o discurso de continuidade serve apenas para amortecer a resistência da base social enquanto a infraestrutura produtiva é alienada.
3. Guerra Assimétrica, Bajas Ocultas e a Narrativa da Invinvibilidade
Os relatos convergentes sobre a evacuação emergencial de pessoal militar a partir de Porto Rico para instalações hospitalares na Flórida põem em xeque a narrativa da invulnerabilidade das forças de operações especiais imperialistas. A resistência travada em solo venezuelano por contingentes locais e internacionalistas demonstrou que a disparidade tecnológica não anula o fator humano e a determinação defensiva na guerra assimétrica.
A necessidade política de ocultar o número real de baixas sofridas por unidades como a Delta Force responde ao imperativo de manter a dissuasão psicológica sobre os demais países do Sul Global. O apagamento das perdas humanas na frente de combate e a posterior desmobilização ou reorganização das posições do Comando Sul indicam que o custo da intervenção direta sobrepassou o orçamento planejado, forçando a potência ocupante a migrar da presença ostensiva para a tutela indireta por meio da intermediação de governos locais cooptados.
4. O Colapso Doutrinário da Defesa no Cone Sul e a Paralisia Estratégica
A postura de neutralidade passiva ou de submissão antecipada demonstrada por altas autoridades de defesa na região — exemplificada pela metáfora de “abrir os portões” diante de uma eventual agressão externa — reflete o estágio avançado de desarmamento ideológico e dependência doutrinária da América Latina.
Tabela Comparativa: Doutrinas de Defesa na América Latina (2026)
| Dimensão Operacional | Modelo de Resistência Assimétrica | Modelo de Tutela / Apaziguamento |
|---|---|---|
| Doutrina Militar | Defesa territorial popular, guerra de desgaste e descentralização. | Alinhamento passivo, interoperabilidade subordinada e entrega do controle aéreo/marítimo. |
| Concepção de Soberania | Inviolabilidade dos recursos naturais e da integridade do solo como valor absoluto. | Entendimento da soberania como moeda de troca negociável para evitar custos de conflito. |
| Postura ante Agressões | Mobilização imediata, guerra de posição e recuo tático de longa duração. | Capitulação preventiva sob a justificativa de preservação da infraestrutura civil. |
| Relação com o Capital Transnacional | Subordinação do mercado às necessidades da defesa e do desenvolvimento nacional. | Abertura irrestrita de ativos estratégicos ao controle do mercado financeiro externo. |
Essa paralisia doutrinária decorre da hegemonia da formação militar orientada pelos centros de inteligência do Norte, que incutiram nas elites Forças Armadas periféricas a percepção de que a resistência armada ao imperialismo é inviável. Ao interpretar o poder de agressão como inevitável, tais lideranças renunciam ao papel constitucional de salvaguarda da pátria, aceitando a transição do status de República para o de zona de influência tutelada.
5. Conclusão: A Falsa Normalização e os Limites do Império
A conjuntura do segundo semestre de 2026 indica que a pretensa pacificação da Venezuela e a reaproximação diplomática sob a égide da Doutrina Donroe não resolveram a crise estrutural do país. A pacificação imposta através da supressão do poder de compra dos trabalhadores, da alienação das reservas petrolíferas e do silenciamento dos conflitos históricos constitui um equilíbrio instável.
A vulnerabilidade manifestada pela proliferação de declarações triunfalistas sobre o roubo das riquezas do Sul Global revela, em última instância, a dependência vital que as economias centrais possuem em relação aos recursos primários da periferia. A reconstrução da autonomia regional exigirá que os povos e as forças populares da América Latina superem a ilusão do apaziguamento diplomático, compreendendo que a defesa da soberania nacional é inseparável da independência tecnológica, da reorganização classista e da recusa radical a aceitar o papel de colônia do capital transnacional.
Referências Bibliográficas
- ASSEMBLEIA GERAL DA ONU. Resolução 1803 (XVII): Soberania Permanente sobre os Recursos Naturais. Nova York, 14 de dezembro de 1962.
- FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
- FERNANDES, Florestan. Capitalismo Dependente e Classes Sociais na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.
- GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere (Volume 3: Machiavelli, Política e o Estado Moderno). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo: Teoria do Planejamento Estratégico Situacional (PES). Brasília: IPEA, 1993.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Carta das Nações Unidas. Adotada em São Francisco, 1945. Particularmente o Artigo 2º, Parágrafo 4 (Proibição do Uso da Força).
- PRADO JR., Caio. A Revolução Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1966.
- SPUTNIK BRASIL. 150 dias depois: o sequestro de Maduro e as perguntas que seguem sem resposta. Cobertura especial de conjuntura, junho de 2026.
Sobre o Autor
José Evangelista Rios da Silva é um profissional com vasta experiência nas esferas política, sindical e educacional. Sua formação acadêmica inclui graduações em Geografia pela Universidade Católica de Salvador (UCSal) e Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Evangelista possui especialização em Planejamento Estratégico e Situacional pelo Centro de Estudos Sociais e Sindicais (CES-Nacional) e em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois.
Sua trajetória é guiada pela práxis militante, com o objetivo de servir à sua categoria e classe. Como um “sonhador apaixonado”, dedica-se a construir pontes e soluções, sempre pautando suas relações pelo princípio do respeito e da consideração mútua, independentemente de posições ideológicas. Atua como formador popular classista e desempenha um papel ativo no sindicato através da Federação dos Empregados no Comércio do Estado da Bahia (FEC).
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