O PÁRIA DAS AMÉRICAS: A DISSOLUÇÃO DO PROJETO HISTÓRICO ARGENTINO E A PARALAXE DA AMEAÇA FASCISTA NO BRASIL

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

Este artigo analisa a transformação da Argentina contemporânea no que a crítica geopolítica classifica como “o novo pária das Américas” sob o regime ultraliberal-autoritário de Javier Milei. Sob a lente do materialismo histórico-dialético e da paralaxe classista, denunciamos a tentativa de cooptação do capital simbólico da nação (da cultura ao futebol) e o alinhamento vassalo do regime ao imperialism e a agendas reacionárias globais. Por meio de uma reflexão contrafeita e em paralaxe com o histórico político brasileiro recente (2016–2022), demonstra-se que o isolamento e o rebaixamento institucional sofridos pela Argentina contemporânea seriam o destino reservado ao Brasil caso o projeto bolsonarista e as tentativas de ruptura de janeiro de 2023 tivessem triunfado.

1. A Redução Ideológica e a Disputa da Memória Histórica

A narrativa hegemônica promovida pelo capital financeiro e pelas corporações de mídia tenta circunscrever a identidade de uma nação aos seus símbolos de consumo espetacularizado, como o futebol hipermercantilizado da FIFA e da AFA. Todavia, a paralaxe classista exige separar a essência histórica do povo argentino — forjada por referências universais como Che Guevara, Mercedes Sosa, o Papa Francisco, Cristina Kirchner, as Mães da Praça de Maio e Diego Maradona — da superestrutura ideológica que se assenta hoje no Casa Rosada.

                  [ A Contradição Histórico-Cultural da Argentina ]
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    │    A Argentina Popular    │                   │   A Superestrutura Milei  │
    │  - Che Guevara / Maradona │                   │  - Alinhamento a Washington│
    │  - Mercedes Sosa / Luta   │                   │  - Entreguismo e Abuso    │
    │  - Mães da Praça de Maio  │                   │  - Isolamento Regional    │
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A mercantilização da cultura e o uso do esporte como ópio desmobilizador buscam neutralizar a tradição de luta e a genialidade artística de um país que já foi farol de emancipação para a América Latina. O silêncio omisso e a instrumentalização da seleção de futebol por frações políticas reacionárias funcionam como cortina de fumaça para cobrir a destruição dos direitos sociais e a desestruturação do tecido produtivo nacional.

2. A Construção do “Pária Global”: A Política Externa do Governo Milei

A política externa executada por Javier Milei abriu mão da tradição de soberania e não-intervenção da diplomacia platina. O alinhamento incondicional e automático às pautas imperialistas de Washington, o apoio a políticas belicistas internacionais e os sucessivos atritos com governos soberanos do Sul Global — em especial o Brasil e o México — converteram o país em uma pária diplomático.

O uso de decretos repressivos, a destruição das políticas ambientais e o ataque sistemático aos blocos de integração regional, como a UNASUL e o Mercosul, evidenciam um regime em profunda contradição com os interesses de seu próprio povo.

3. A Paralaxe do Projeto Bolsonarista no Brasil (2016–2022)

Para compreender a extensão da crise argentina, faz-se necessário lançar mão do método da paralaxe histórica e observar a trajetória recente do Brasil. O período compreendido entre o golpe parlamentar-jurídico de 2016, a ascensão do bolsonarismo em 2018 e a tentativa de golpe militar promovida por setores fascistas e neofascistas em 8 de janeiro de 2023 representou a mesma engrenagem de alinhamento compradora e destruição das capacidades estatais.

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│    O Espelho de Paralaxe: Brasil (2019-2022) vs. Argentina │
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│ BRASIL (Projeto Derrotado)   │       │ ARGENTINA (Atraso)   │
│ - Isolamento no G20/COP      │       │ - Ruptura com Mercosul│
│ - Destruição Ambiental       │       │ - Submissão Financeira│
│ - Ataque às Instituições     │       │ - Pobreza e Repressão │
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A vitória do projeto popular e democrático nas urnas em 2022 e a resistência das instituições brasileiras no início de 2023 impediram que o Brasil ocupasse hoje o lugar de “pária do mundo”. Caso a quartelada fascista do 8 de janeiro tivesse obtido êxito, o Brasil estaria submetido ao mesmo isolamento diplomático, à privatização predatória de suas riquezas estratégicas e à degradação social que hoje assolam a Argentina sob o jugo de Milei.

4. Tabela Comparativa: As Etapas do Fascismo Comprador na América Latina

Dimensão de AnáliseBrasil Bolsonarista (2019–2022)Argentina Mileísta (Presente)
Política ExternaAlinhamento automático aos EUA de Trump e isolamento no G20/ONU.Rejeição dos BRICS, vassalagem geopolítica e atrito com vizinhos regionais.
Economia MaterialTeto de gastos, desarmamento de políticas públicas e privatizações.Austeridade extrema, arrocho salarial e liquidação de ativos nacionais.
Superestrutura IdeológicaDiscurso “antipolítica”, aparelhamento religioso e negacionismo.Misticismo de mercado, retórica libertária e espetacularização.
Resistência PopularMobilização democrática e vitória eleitoral nas urnas em 2022.Reorganização das centrais sindicais e movimentos sociais em curso.

5. Conclusão: A Luta pela Soberania do Sul Global

A análise em paralaxe demonstra que a degradação institucional e o isolamento internacional vividos hoje pela Argentina não constituem uma fatalidade cultural ou a expressão do povo argentino, mas sim o resultado transitório da imposição de um projeto neofascista e comprador.

O Brasil, ao derrotar nas urnas e nas ruas a intentona fascista, esquivou-se temporariamente da condição de pária global. A solidariedade histórica entre a classe trabalhadora brasileira e argentina impõe a denúncia desse projeto político predatório, resgatando a memória emancipatória de Che Guevara, Mercedes Sosa e das Mães da Praça de Maio como bússola para a reconstrução da soberania latino-americana.

Referências Bibliográficas

  • ALMEIDA, Paulo Roberto de. O isolamento internacional do Brasil: retrocessos na diplomacia. Boletim de Conjuntura (BOCA), v. 7, n. 19, 2021. Disponível em: Boletim de Conjuntura.
  • BRAZIL JOURNAL. Lula vs. Milei: Quando a política toma o lugar da diplomacia, publicado em Brazil Journal.
  • BRASIL DE FATO. “Nosso isolamento é consequência das escolhas políticas do governo”, diz pesquisador, publicado em Brasil de Fato.
  • FGV/CPDOC. Governo Milei: o que muda nas relações diplomáticas com o Brasil?, publicado no Portal FGV.
  • HARVEY, David. O Novo Imperialismo. São Paulo: Edições Loyola, 2005.
  • LOSURDO, Domenico. Fascismo e Neofascismo: Repensando o conceito. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2004.
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. Cidade do México: Serie El Libro de Bolsillo, 1973.
  • PARTIDO DOS TRABALHADORES. Isolamento de Bolsonaro no Brasil deve se repetir no exterior, publicado em PT.org.br.
  • ŽIŽEK, Slavoj. A Visão em Paralaxe. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008.

Sobre o Autor

José Evangelista Rios da Silva é um profissional com vasta experiência nas esferas política, sindical e educacional. Sua formação acadêmica inclui graduações em Geografia pela Universidade Católica de Salvador (UCSal) e Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Evangelista possui especialização em Planejamento Estratégico e Situacional pelo Centro de Estudos Sociais e Sindicais (CES-Nacional) e em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois.

​Sua trajetória é guiada pela práxis militante, com o objetivo de servir à sua categoria e classe. Como um “sonhador apaixonado”, dedica-se a construir pontes e soluções, sempre pautando suas relações pelo princípio do respeito e da consideração mútua, independentemente de posições ideológicas. Atua como formador popular classista e desempenha um papel ativo no sindicato através da Federação dos Empregados no Comércio do Estado da Bahia (FEC).

Para entender analiticamente as implicações institucionais dos recentes atritos diplomáticos na Bacia do Prata, assista à matéria Qual é o novo status da relação entre Brasil e Argentina? Veja análise da CNN Brasil, que detalha as decisões da diplomacia brasileira e as consequências geopolíticas do rebaixamento relacional no continente.

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