Por Analista de Conjuntura e Geopolítica Internacional
A escalada de tensão entre a Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) e a cúpula da FIFA liderada por Gianni Infantino ultrapassou definitivamente as fronteiras das quatro linhas. O estopim — a ameaça da Espanha de abandonar a organização da Copa do Mundo de 2030 caso a partida final seja concedida a Marrocos — expõe as entranhas de um jogo geopolítico denso, onde a diplomacia do esporte atua como mera correia de transmissão de interesses geestratégicos costurados no coração do “futebol de negócio”.
Para além da discussão estritamente desportiva sobre capacidade de infraestrutura e estádios, a tentativa da FIFA de deslocar o centro de gravidade do Mundial do Centenário para Casablanca esbarra em uma fratura exposta: a nova arquitetura do Oriente Médio e do Norte da África desenhada pelos Acordos de Abraão, que se transformou em uma verdadeira “espinha atravessada na garganta” do Estado espanhol.
1. O Acordo de Abraão e o Triângulo de Washington-Tel Aviv-Rabat
Para compreender a resistência de Madri, é necessário aplicar uma análise em paralaxe sobre a cartografia política da região. Os chamados Acordos de Abraão — patrocinados pela diplomacia norte-americana durante a gestão de Donald Trump e mantidos como pilar estratégico de Washington — promoveram a normalização das relações diplomáticas entre o Estado de Israel e nações árabes, tendo em Marrocos um de seus pilares mais ativos no Norte da África.
Em troca do alinhamento geopolítico com o eixo Washington-Tel Aviv, o Reino de Marrocos obteve o reconhecimento formal dos Estados Unidos sobre a sua soberania no território contestado do Saara Ocidental. Esse movimento alterou radicalmente a correlação de forças no Magreb:
- O Fortalecimento Militar e Financeiro de Rabat: Amparado pelo fluxo de capitais, acordos de cooperação tecnológica em segurança e investimentos diretos procedentes do Golfo e dos EUA, o governo marroquino passou a projetar um papel de liderança regional agressiva.
- O Constrangimento Geopolítico Espanhol: A Espanha assiste à consolidação de um vizinho hipertrofiado às suas portas do Sul, fortalecido por garantias imperiais e imune a sanções multilaterais. A proximidade de Marrocos com os enclave espanhóis de Ceuta e Melilla, associada ao uso da pressão migratória como ferramenta de barganha diplomática, torna qualquer concessão de prestígio internacional a Rabat um tema de alta sensibilidade para a segurança nacional espanhola.
2. A FIFA como Braço de Sportswashing do Eixo Geopolítico
A tentativa da cúpula da FIFA de contemplar Marrocos com a coroação máxima do torneio de 2030 — a partida final — não é um gesto isolado de cortesia desportiva. Trata-se da convergência entre a necessidade de liquidez da entidade de Zurique e a estratégia de sportswashing alimentada pelo capital financeiro do Oriente Médio e do Norte da África.
Ao tentar instrumentalizar o caderno de encargos da Copa de 2030 para favorecer o projeto de projeção marroquino, Gianni Infantino atua em sintonia com os interesses dos grandes fundos de investimento que orbitam a região do Golfo e os EUA. É nesse ponto que a paralaxe classista revela a contradição central:
A DISPUTA PELA FINAL DA COPA DE 2030 ┌──────────────────────────────────────┐──────────────────────────────────────┐ │ A POSIÇÃO DE ESPANHA │ O EIXO DE PRESSÃO (FIFA/MARROCOS)│ ├──────────────────────────────────────┼──────────────────────────────────────┤ │ • Aporte do grosso do custeio de │ • Projetar Marrocos como vitrine da │ │ infraestrutura e mobilidade. │ normalização dos Acordos de Abraão.│ │ • Defesa do retorno do investimento │ • Capitalizar investimentos do Golfo │ │ público com a final no Bernabéu. │ e agradar fundos de private equity.│ │ • Recusa em ser "comparsa" logística │ • Centralização das decisões nos │ │ de um arranjo de gabinetes. │ gabinetes opacos de Zurique. │ └──────────────────────────────────────┘──────────────────────────────────────┘
A reação espanhola, sintetizada na ameaça de abandono da sede conjunta e no manifesto contundente do ex-jogador Luís Figo exigindo a queda de Infantino, é a demonstração prática de que os Estados soberanos da Europa começam a impor limites à utilização de seus recursos públicos para financiar a consolidação de eixos geopolíticos rivais.
3. A Espinha na Garganta: Por que a Espanha Rejeita o Diktat de Zurique?
A recusa de Madri em aceitar a perda da final para o estádio em construção nos arredores de Casablanca apoia-se em razões materiais e estratégicas profundas:
- A Assimetria dos Custos vs. Benefícios: A Espanha assumirá a maior parcela das garantias estatais, reforma de arenas e logística de transporte para o torneio de 2030. Aceitar que o principal evento simbólico e econômico da competição seja transferido para Marrocos significaria subsidiar a propaganda política de um governo que tensiona sistematicamente suas fronteiras marítimas e terrestres.
- A Rejeição à Subserviência Diplomática: Ver a FIFA atuar como facilitadora das pretensões de projeção de Rabat — chanceladas pelo eixo Washington-Tel Aviv — é percebido pelas elites políticas e pela opinião pública espanhola como uma afronta à sua soberania desportiva e territorial.
- O Esgotamento do Modelo Infantino: A denúncia das práticas opacas da FIFA, exposta após o colapso do projeto de privatização da FIFA Forward Enterprise (FFE), retirou do presidente da entidade a autoridade moral para impor redistribuições de sedes ao arrepio da equidade institucional.
Conclusão: O Limite da Instrumentalização do Futebol
O impasse em torno da Copa do Mundo de 2030 prova que o futebol não existe em um vácuo imune às febres geopolíticas da era contemporânea. Os Acordos de Abraão e a subseqüente reorganização de alianças no Norte da África projetaram uma sombra longa sobre o planejamento da competição de centenário.
Ao ameaçar romper com a organização do torneio, a Espanha não apenas defende o investimento de seus cidadãos, mas coloca uma barreira contra o avanço irrestrito do “futebol de negócio”. A espinha atravessada na garganta de Madri só será removida se a FIFA abdicar de sua postura de balcão de negócios para fundos de risco e eixos imperiais, submetendo-se ao respeito à soberania dos Estados, ao Direito Internacional e ao controle democrático das populações que sustentam o espetáculo.
Referências Bibliográficas
- ALTMAN, Breno. A Geopolítica do Esporte e o Novo Reacionarismo Internacional. São Paulo: Debate Público, 2026.
- FIGO, Luís. Carta Abierta sobre la Gobernanza de la FIFA y el Futuro del Fútbol Mundial. Published in Daily Mail / Distributed Internationally, 1 de agosto de 2026.
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção. Resolução 58/4 da Assembleia Geral, de 31 de outubro de 2003.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Resolução 70/1: Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Nova Iorque, 2015.
- VOZ PÓPULI. La Federación amaga con abandonar la organización del Mundial 2030 si la FIFA da la final a Marruecos. Edición de 1 de agosto de 2026. Madrid: Economía e Empresas.
Sobre o Autor
José Evangelista Rios da Silva é um profissional com vasta experiência nas esferas política, sindical e educacional. Sua formação acadêmica inclui graduações em Geografia pela Universidade Católica de Salvador (UCSal) e Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Evangelista possui especialização em Planejamento Estratégico e Situacional pelo Centro de Estudos Sociais e Sindicais (CES-Nacional) e em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois.
Sua trajetória é guiada pela práxis militante, com o objetivo de servir à sua categoria e classe. Como um “sonhador apaixonado”, dedica-se a construir pontes e soluções, sempre pautando suas relações pelo princípio do respeito e da consideração mútua, independentemente de posições ideológicas. Atua como formador popular classista e desempenha um papel ativo no sindicato através da Federação dos Empregados no Comércio do Estado da Bahia (FEC).
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