Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
Este artigo analisa a crise estrutural da eficiência na gestão corporativa contemporânea a partir da lente do materialismo histórico-dialético e da paralaxe classista. Confronta-se a narrativa de produtividade do capital — marcada pela ostentação, pela obsolescência programada e pela competição predatória — com a eficácia do Planejamento Estratégico Situacional (PES/PESC) e do Método de Altas Direções / Método de Análise e Solução de Problemas (MAPP/PAID-MAPE). Demonstra-se que o modelo burguês padece de uma ineficiência sistêmica decorrente da alienação do trabalho, enquanto o método popular classista oferece rigor analítico, viabilidade política e efetividade transformadora.
Palavras-chave: Materialismo Histórico-Dialético. Paralaxe Classista. Gestão Corporativa. PES. MAPP.
1. Introdução
A narrativa hegemônica do capitalismo tardio apresenta a empresa privada como o bastião Supremo da racionalidade, da eficiência e da inovação. No entanto, o contraste entre o discurso ideológico e a realidade empírica revela um cenário oposto: corporações sufocadas por burocracias estéreis, aparente sofisticação tecnológica desprovida de eficácia real e uma cultura organizacional ancorada na competitividade predatória.
Enquanto a literatura de administração de empresas naturaliza o desperdício sob eufemismos como “custos operacionais” ou “riscos de mercado”, a análise sob a lente do materialismo histórico-dialético exige enxergar esse fenômeno em paralaxe classista. A mudança no ponto de observação — deslocando o olhar do centro de custo do capital para o processo de trabalho — evidencia que a ineficiência corporativa não é um desvio conjuntural, mas uma limitação estrutural da acumulação burguesa.
Nesse horizonte, os métodos de Planejamento Estratégico Situacional (PES/PESC) e o Método de Análise de Planos Populares (MAPP / PAID-MAPE) emergem não apenas como ferramentas organizacionais, mas como tecnologias de libertação da classe trabalhadora, capazes de opor ao fetiche corporativo uma práxis pautada na viabilidade política, na eficácia social e no rigor científico.
2. A Ilusão da Eficiência Burguesa: Ostentação, Obsolescência e Burocracia Estéril
A gestão burguesa apoia-se historicamente no positivismo e no Taylorismo-Fordismo para impor o controle sobre o processo de trabalho. Contudo, o estágio atual do capital financeirizado exacerbou dinâmicas de desperdício e disfunção que contradizem a promessa de maximização de resultados:
- O “Reunionismo” e a Captura do Tempo de Trabalho: Dados do próprio mercado corporativo indicam desperdícios milionários em agendas estéreis que não produzem deliberações reais. Sob a perspectiva marxista, essas reuniões funcionam frequentemente como rituais de vigilância e alinhamento ideológico. O valor da força de trabalho qualificada é queimado no altar do controle burocrático, onde a aparência de ocupação substitui a produção efetiva de utilidade.
- A Racionalidade da Obsolescência: A busca por lucros no curto prazo submete a inovação técnica ao imperativo da destruição criativa predatória e da obsolescência programada (seja de produtos, seja de ferramentas digitais). A tecnologia deixa de servir à emancipação do trabalho humano para converter-se em instrumento de aceleração da rotação do capital.
- Malandragem e “Faz de Conta” Corporativo: A competição no ambiente de trabalho corporativo fomenta condutas individuais focadas no marketing pessoal e na simulação de desempenho em detrimento da cooperação. Cria-se um ambiente de concorrência selvagem e hostilidade, no qual a competência técnica é preterida em favor da adequação ideológica e da obediência hierárquica.
A contradição fundamental reside no fato de que o capital não busca a eficiência social (a satisfação real das necessidades humanas com o menor desgaste de trabalho vivo), mas estritamente a eficiência de valorização (a extração e apropriação de mais-valia).
┌─────────────────────────────────────────────────────────┐ │ CONTRADIÇÃO METODOLÓGICA │ ├────────────────────────────┬────────────────────────────┤ │ GESTÃO BURGUESA │ PLANEJAMENTO CLASSISTA │ ├────────────────────────────┼────────────────────────────┤ │ • Lógica: Valorização │ • Lógica: Emancipação │ │ • Foco: Marketing e Imagem │ • Foco: Transformação Real │ │ • Relação: Alienação │ • Relação: Práxis Crítica │ │ • Meio: Competição Tóxica │ • Meio: Solidariedade/Método│ └────────────────────────────┴────────────────────────────┘
3. O Método Popular Classista: A Dialética do PES/PESC e do MAPP/PAID-MAPE
Em contraposição à volatilidade e ao formalismo do planejamento corporativo normativo, os métodos fundamentados na tradição do planejamento estratégico situacional e popular resgatam o rigor analítico através da leitura dialética da realidade.
3.1. O Planejamento Estratégico Situacional (PES) e a Recusa do Determinismo
Desenvolvido por Carlos Matus e apropriado pela práxis socialista e popular, o PES rompe com a ilusão de que o planejador está “fora” da realidade planejada.
- Conceito de Situação: Reconhece-se que a realidade é explicada a partir de diferentes atores em conflito. A eficiência burguesa falha porque pressupõe um ambiente harmônico sob seu comando; o PES triunfa porque parte do conflito de classes e da assimetria de poder.
- Processo Processual e Triângulo de Matus: Ao integrar o Plano, a Gerência e a Operação, o método impede que a formulação se estruture separada da execução, eliminando o “faz de conta” típico dos relatórios executivos desvinculados da base produtiva.
3.2. O MAPP / PAID-MAPE: Eficácia Operacional e Direção Coletiva
O Método de Análise e Processamento de Problemas (MAPP) e as metodologias de Análise de Problemas e Planejamento Estratégico (PAID-MAPE) estruturam o combate à incompetência gerencial burguesa por meio do rigor lógico-causal:
- Vetor de Problemas (VOP): Substitui os diagnósticos corporativos genéricos pela identificação precisa dos nós críticos sobre os quais a classe trabalhadora deve atuar.
- Processamento da Árvore de Causas: Exige a busca pelas raízes estruturais dos problemas, impedindo respostas paliativas baseadas em apelos de marketing.
- Mapeamento de Atores e Operações: Define com clareza a governabilidade, os recursos necessários e as alianças políticas indispensáveis para viabilizar qualquer ação concreta.
4. Eficiência Efetiva versus Eficiência Fetichizada
A comparação entre as duas abordagens revela escolhas epistemológicas e de classe irreconciliáveis:
| Dimensão | Gestão Burguesa e Corporativa | Planejamento Popular Classista (PES/MAPP) |
|---|---|---|
| Matriz Epistemológica | Positivismo, Pragmatismo, Neoliberalismo | Materialismo Histórico-Dialético |
| Critério de Sucesso | Lucro financeiro, indicadores formais (KPIs), imagem | Resolução de problemas concretos da classe trabalhadora |
| Estrutura Organizacional | Hierárquica, autoritária, competição interpessoal | Democrática, centralismo democrático, cooperação |
| Tratamento do Conflito | Negado, suprimido ou mascarado por RH | Reconhecido como motor da mudança social e do plano |
| Sustentabilidade | Obsolescência programada e desgaste humano | Economia de forças, soberania e emancipação |
O método burguês necessita da ostentação e do vocabulário rebuscado para ocultar sua incapacidade crônica de resolver contradições estruturais. Por outro lado, o método popular classista expressa a sua superioridade justamente na capacidade de transformar diagnósticos em intervenções políticas precisas, de baixo custo e de alto impacto social.
5. Considerações Finais
A suposta superioridade da gestão privada desmorona quando confrontada com o volume de forças produtivas e horas de trabalho desperdiçadas na manutenção do aparato de dominação do capital. O “faz de conta”, as reuniões improdutivas e o fetiche pelas novidades tecnológicas revelam um modelo que consome enormes quantidades de recursos sociais para entregar resultados humanos e operacionais medíocres.
A classe trabalhadora não deve absorver acriticamente os manuais de administração executiva. Pelo contrário, cabe à práxis militante e aos formadores popular-classistas dominar e aplicar metodologias rigorosas como o PESC, o MAPP e o PAID-MAPE. É por meio do planejamento científico situado, da análise rigorosa das correlações de força e da ação organizada que se constrói uma verdadeira eficiência: aquela colocada a serviço da libertação humana, da justiça social e da superação da ordem do capital.
Referências Bibliográficas
- BRIDLE, James. A nova idade das trevas: a tecnologia e o fim do futuro. São Paulo: Todavia, 2019.
- HARNECKER, Marta. Estratégia e Tática. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
- LÊNIN, Vladimir Ilich. Que Fazer? As questões escaldantes do nosso movimento. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
- MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I: O processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
- MATUS, Carlos. Adeus, Senhor Presidente: Planejamento Estratégico Situacional. São Paulo: Fundap, 1996.
- MATUS, Carlos. Teoria da Produção Social. Brasília: Fundap, 1997.
- PITHON, José Antonio. Planejamento e Gestão Situacional: MAPP e PES nas organizações populares. Salvador: Editora Crítica Social, 2018.
- ZIZEK, Slavoj. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia. São Paulo: Boitempo, 2008.
Sobre o Autor
José Evangelista Rios da Silva é um profissional com vasta experiência nas esferas política, sindical e educacional. Sua formação acadêmica inclui graduações em Geografia pela Universidade Católica de Salvador (UCSal) e Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Evangelista possui especialização em Planejamento Estratégico e Situacional pelo Centro de Estudos Sociais e Sindicais (CES-Nacional) e em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois.
Sua trajetória é guiada pela práxis militante, com o objetivo de servir à sua categoria e classe. Como um “sonhador apaixonado”, dedica-se a construir pontes e soluções, sempre pautando suas relações pelo princípio do respeito e da consideração mútua, independentemente de posições ideológicas. Atua como formador popular classista e desempenha um papel ativo no sindicato através da Federação dos Empregados no Comércio do Estado da Bahia (FEC).
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