O Sindicalismo Classista na Encruzilhada Histórica de 2026: Soberania, Frente Ampla e a Luta Antifascista

Por José Evangelista Rios da Silva

Introdução: A Paralaxe Histórica e o Momento Político

A conjuntura brasileira de 2026, revelada pelo retrato demoscópico da pesquisa Futura/Apex (mostrando a polarização entre o projeto de reconstrução nacional encabeçado por Lula e a ofensiva da extrema direita representada pelo clã Bolsonaro), não constitui um mero embate eleitoral conjuntural. Sob a ótica da paralaxe classista, o que se observa é o reflexo superestrutural de uma aguda crise orgânica do capital em nível global e nacional.
Para o sindicalismo classista, a participação nesta quadra histórica exige superar tanto o economicismo corporativo quanto o sectarismo estéril. À luz do materialismo histórico-dialético, a classe trabalhadora não pode ser neutra diante da ameaça de barbárie representada pelo fascismo dependente e pelo imperialismo. A construção de frentes amplas no campo popular e progressista — unindo forças heterogêneas na defesa da democracia formal e do Estado de Direito — é o tática indispensável para acumular forças, salvaguardar os marcos democráticos que permitem a organização operária e, simultaneamente, elevar a consciência de classe para a disputa estratégica da soberania nacional.

I. Os Desafios Imediatos e Estratégicos para o Sindicalismo Classista nas Eleições de 2026

  1. A Batalha contra o Fascismo Dependente e a Defesa das Liberdades Democráticas:
    Marx, em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, e Lênin, em O Estado e a Revolução, demonstram que as formas de dominação burguesa oscilam entre a democracia burguesa e a ditadura aberta (fascismo). Para o proletariado, a democracia burguesa, embora limitada pela ditadura do capital, oferece o terreno indispensável de legalidade para a organização sindical, a propaganda e a mobilização. A vitória da extrema direita em 2026 representaria a consolidação de um Estado policial a serviço do capital rentista e do imperialismo, voltado para a liquidação total dos direitos trabalhistas e sindicais remanescentes. O sindicato classista tem o dever histórico de atuar como eixo de mobilização antifascista nas bases.
  2. Superar o Sindicalismo de Gabinete e Assumir a Agitação Política de Massas:
    O sindicalismo não pode se confinar aos limites estreitos das negociações de convenções coletivas. Nas eleições de 2026, os sindicatos classistas devem transformar cada fábrica, canteiro de obras, escola, escritório e bairro operário em trincheiras de debate político, desmascarando o discurso demagógico da ultradireita (que explora a miséria social gerada pelas próprias políticas neoliberais) e apontando para a necessidade de um programa de reformas estruturais populares.
  3. Autonomia e Independência de Classe na Frente Ampla:
    Participar da frente ampla contra a extrema direita não significa submeter os interesses históricos da classe trabalhadora aos ditames da conciliação de classes ou à tutela governamental. A aliança tática com setores burgueses democráticos e progressistas é necessária para derrotar o bloco fascista nas urnas e nas ruas, mas o sindicalismo classista deve manter sua independência programática, exigindo revogação das contrarreformas trabalhistas e previdenciárias, valorização real dos salários e defesa intransigente dos bens públicos.

II. O Impacto Geopolítico: América Latina, Estados Unidos e o “Império do Caos”

  1. O Brasil como Eixo de Gravidade na América Latina:
    Sob a liderança de uma nação continental e soberana, o Brasil exerce um papel indutor fundamental na geopolítica regional. A derrota da extrema direita no Brasil freia o eixo reacionário continental, fortalecendo os processos de integração soberana (como o fortalecimento do BRICS, do Mercosul e da CELAC). Caso a extrema direita triunfe, o Brasil converter-se-á em cabeça de ponte para a desestabilização de governos populares na América Latina, aprofundando a balkanização da região sob os interesses do imperialismo norte-americano.
  2. As Eleições nos EUA e a Estratégia do “Império do Caos”:
    O imperialismo estadunidense, operando através da desestabilização sistêmica e de guerras híbridas — o verdadeiro Império do Caos teorizado por analistas geopolíticos críticos —, busca conter a multipolaridade liderada pelo bloco do BRICS. As movimentações políticas internas nos EUA e sua interferência direta na periferia global visam a impor sanções, bloqueios e golpes brandos (lawfare) contra qualquer nação que ouse exercer sua soberania econômica. Um Brasil soberano e democrático constitui um obstáculo a essa hegemonia unipolar em decadência.
  3. A Geopolítica Mundial e a Transição Hegemônica:
    A classe trabalhadora brasileira e seu movimento sindical precisam compreender que a luta contra o fascismo interno está indissoluvelmente ligada à luta anti-imperialista global. A defesa de um mundo multipolar, da desdolarização das trocas comerciais e da soberania alimentar e tecnológica é condição estrutural para que o Brasil possa implementar políticas de desenvolvimento nacional com distribuição de renda, blindando-se contra os ataques especulativos do capital financeiro internacional.

III. Referências Bibliográficas e Documentais Relevantes

  • MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011. (Para a análise clássica da relação entre as lutas de classes, o Estado e as formas de dominação política).
  • LÊNIN, Vladimir Ilitch. O Estado e a Revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2007. (Para a compreensão marxista sobre a natureza do Estado burguês e a necessidade de destruição do aparelho de dominação capitalista).
  • LÊNIN, Vladimir Ilitch. O Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo. São Paulo: Centauro, 2008. (Para a análise estrutural do imperialismo como fase de exportação de capitais, partilha do mundo e guerras sistêmicas).
  • GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere (Edição Crítica, 6 volumes). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. (Especialmente os volumes dedicados ao estudo do Estado, da hegemonia, do bloco histórico e dos intelectuais orgânicos).
  • SANTOS, Theotonio dos. Imperialismo e Dependência. Brasília: Editora UnB, 2000. (Para a interpretação da dinâmica do capitalismo dependente na periferia latino-americana e suas crises políticas).
  • CONGRESSO EM FOCO. 59,3% dos eleitores já têm candidato definido, aponta pesquisa Futura/Apex. Publicado em 14 de julho de 2026. Disponível nas bases de dados jornalísticas especializadas.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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