Por José Evangelista Rios da
Autor: Assistente de Análise Estratégica e Teoria Geopolítica Área do Conhecimento: Economia Política Internacional, Relações Internacionais e Sociologia Política Data: Agosto de 2026
Resumo
Este artigo analisa a transição estrutural do sistema-mundo contemporâneo a partir da lente analítica da paralaxe, contrastando a narrativa oficial de preservação do “ordamento internacional baseado em regras” com a realidade material da fragmentação hegemônica. A investigação examina o ponto de inflexão gerado pelo sobreatravamento estratégico (imperial overstretch) das potências atlantistas, o desgaste dos Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE) no Norte Global e a consolidação de uma arquitetura multipolar liderada pelo Sul Global e pelo bloco BRICS+. Por fim, projetam-se as tendências de médio prazo e os impactos dessa mudança de quadra para a política, a economia e as dinâmicas sociais contemporâneas.
Palavras-chave: Paralaxe Estratégica; Multipolaridade; Aparelhos Ideológicos de Estado; Sobreatravamento Estratégico; BRICS+; Economia Política Internacional.
1. Introdução: O Conceito de Paralaxe Aplicado à Conjuntura Global
A análise de conjuntura exige mais do que a simples observação dos fatos empíricos imediatos; requer o deslocamento da posição do observador para que as fraturas estruturais do objeto fiquem visíveis. O conceito epistemológico de paralaxe — a alteração aparente da posição de um objeto quando observado de duas linhas de visão distintas — serve aqui como ferramenta metodológica central.
A linha de visão dominante, veiculada pelos AIEs centrais das potências ocidentais, interpreta a instabilidade geopolítica contemporânea como um desvio temporário provocado por “atores revisionistas” ou “regimes iliberais”. Contudo, quando o ponto de observação é deslocado para a perspectiva da paralaxe classista e do Sul Global, a conjuntura revela-se sob outra essência: trata-se da crise de exaustão do capitalismo financeirizado e do modelo unipolar de hegemonia liderado pelos Estados Unidos e seus aliados da OTAN.
2. A Anatomia da Crise: Tensão entre Força Coercitiva e Capacidade Material
2.1. O Sobreatravamento Estratégico e a Lei das Contradições
Inspirando-se nos princípios teóricos de Sun Tzu e Vo Nguyen Giap, observa-se que a tentativa do centro hegemônico de abrir e gerenciar frentes simultâneas de contenção — no Leste Europeu, no Estreito de Taiwan, no Oriente Médio e na periferia africana — resulta no fenômeno clássico da superextensão militar e econômica.
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│ A DIALÉTICA DA CRISE DE SOBREATRAVAMENTO │
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[CENTRO UNIPOLAR] │ [SUL GLOBAL / MULTIPOLAR]
• Hipertrofia militar/coercitiva │ • Expansão da capacidade industrial
• Emissão de dívida e inflação │ • Liquidação em moedas locais
• Desindustrialização interna │ • Autonomia em recursos e energia
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[FRATURA HEGEMÔNICA E CONTRADIÇÃO]
O uso desmedido de sanções e guerras tarifárias acelera a busca
por alternativas operacionais no sistema financeiro internacional.
À medida que os meios normais de competição econômica perdem eficácia frente ao avanço das forças produtivas e tecnológicas no Leste Asiático, o centro hegemonizado recorre precipuamente ao Aparelho Repressivo de Estado (ARE) internacional (sanções unilaterais, bloqueios de ativos, tarifas coercitivas e projeção naval). No entanto, o custo financeiro e logístico para manter esse dispositivo torna-se proibitivo perante o déficit público e a deterioração industrial interna das metrópoles ocidentais.
3. A Fragilização dos AIEs e a Crise Politico-Social no Ocidente
A dimensão sociointerna dessa transição é marcada pela derrocada dos Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE) descritos por Louis Althusser. O “consenso de centro” que sustentou o neoliberalismo na Europa e nos EUA encontra-se estilhaçado:
- AIE Mídia/Comunicação: A perda do monopólio da informação devido à proliferação de canais alternativos e redes independentes fragmentou a narrativa hegemônica. A tentativa estatal de regulação rígida e controle de discurso é percebida socialmente como perda de legitimidade democrática.
- AIE Político-Partidário: O esvaziamento das propostas do “extremo centro” abriu margem para uma intensa polarização social, caracterizada pela ascensão do nacional-populismo à direita e de movimentos soberanistas ou anti-sistêmicos à esquerda.
- Fratura Social Interna: A transferência de recursos públicos do bem-estar social para o orçamento de defesa e subsídios militares alimenta a insatisfação popular, aumentando o fosso entre as elites burocráticas de Bruxelas/Washington e a classe trabalhadora.
4. Repercussões para Política, Economia e Sociedade: Tendências de Médio Prazo
A. Política: Consolidação da Arquitetura Multipolar
O eixo de gravidade decisório da geopolítica mundial desloca-se irrefreavelmente para o Sul Global. A consolidação do bloco BRICS+ deixa de ser uma aliança conjuntural para se tornar uma plataforma institucional alternativa de cooperação soberana, baseada na não ingerência e no respeito às especificidades nacionais.
B. Economia: Desdolarização e Fragmentação das Cadeias de Valor
- Desdolarização Progressiva: A utilização abusiva do dólar como ferramenta de sanção coercitiva acelerou a transição para sistemas de pagamentos bilaterais em moedas locais e a criação de moedas de reserva baseadas em ativos reais (commodities e ouro).
- Regionalização do Comércio: O modelo da globalização neoliberal desregulada dá lugar ao protecionismo estratégico, à reindustrialização soberana e ao fortalecimento de corredores logísticos continentais (ex.: Rota da Seda, Corredor Norte-Sul).
C. Sociedade: Batalha Ideológica e Busca por Nova Coesão
Em termos sociais, a crise de representatividade exige dos povos a articulação de novos projetos de cidadania e de organização popular. A resistência contra a austeridade e o militarismo passa pela construção de alternativas educacionais, comunitárias e de integração regional autônoma.
5. Considerações Finais
A leitura em paralaxe da quadra histórica atual permite inferir que a instabilidade internacional não é um evento episódico, mas o sintoma da transição entre duas eras históricas. O modelo unipolar fundado na supremacia coercitiva e financeira atinge seus limites estruturais. A construção de um sistema internacional multipolar, ainda que atravessada por incertezas e riscos de escalada de conflitos, surge como a condição de possibilidade para a restauração do equilíbrio global, da soberania dos povos e do desenvolvimento compartilhado.
Referências Bibliográficas
- ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
- GIAP, Vo Nguyen. Guerra do Povo, Exército do Povo. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2004.
- LÊNIN, V. I. O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. São Paulo: Expressão Popular, 2012.
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993.
- SUN TZU. A Arte da Guerra. Tradução e comentários. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
- ŽIŽEK, Slavoj. The Parallax View. Cambridge, MA: MIT Press, 2006.
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