Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
O presente artigo analisa a apropriação contemporânea da tese da Antropofagia Modernista no ecossistema da cultura digital brasileira sob o prisma do Materialismo Histórico-Dialético e da paralaxe classista. Examina-se como a conversão do cotidiano precário da classe trabalhadora em conteúdos humorísticos e memes, frequentemente celebrada como manifestação de vigor cultural ou desdobramento direto do manifesto de 1928, opera, na realidade, como mecanismo de subsunção do afeto e da linguagem popular à lógica do trabalho imaterial. Argumenta-se que a contradição central da “antropofagia algorítmica” reside no descompasso entre a apropriação simbólica realizada pelos trabalhadores e a extração real de mais-valia levada a cabo pelas corporações de tecnologia.
Palavras-chave: Paralaxe classista. Antropofagia. Capitalismo de plataforma. Luta de classes. Trabalho imaterial.
1. Introdução
A narrativa sobre a “genialidade da internet brasileira” recorre com frequência ao Manifesto Antropófago (1928), assinado por Oswald de Andrade, para fundamentar teórica e historicamente a capacidade de o país digerir mercadorias culturais do Norte Global e reconfigurá-las em manifestações ímpares. Seja no uso de beats de funk sobre áudios virais estrangeiros ou na sátira das deficiências de infraestrutura pública — como o transporte coletivo precarizado —, a práxis digital do usuário brasileiro é comumente interpretada sob uma lente de exaltação ufanista e espontaneísmo cultural.
Contudo, ao adotar a metodologia do Materialismo Histórico-Dialético e aplicar o conceito de paralaxe classista — compreendida aqui como o reposicionamento do olhar analítico a partir do antagonismo estrutural entre Capital e Trabalho —, revela-se o ponto cego dessa formulação. A analogia mecânica entre a vanguarda paulista dos anos 1920, a Tropicália da década de 1960 e a produção algorítmica de memes do século XXI desconsidera as transformações nas bases materiais e nas relações de produção que condicionam o fazer cultural em cada período.
2. Da Antropofagia das Elites à Subsunção no Capitalismo de Plataforma
Para apreender a dinâmica do meme contemporâneo, faz-se necessário desmistificar o ponto de partida do projeto antropofágico original. O movimento de 1928 emergiu no seio da burguesia agrária paulista. O ato de “devorar o inimigo sagrado” e assimilar a cultura europeia pressupunha a condição material de uma elite intelectual com acesso direto aos centros hegemônicos do capital cultural europeu.
+-----------------------------------------------------------------------+ | PARALAXE CLASSISTA | +-----------------------------------------------------------------------+ | Vanguarda de 1928: Burguesia agrária / Acesso ao capital | | cultural hegemônico. | | | | Proletariado Digital: Trabalhador precarizado / Mediação das | | Big Techs e extração de dados. | +-----------------------------------------------------------------------+
Por outro lado, o trabalhador imerso no ecossistema das plataformas digitais contemporâneas (Meta, ByteDance, X) opera sob condições diametralmente opostas:
- Apropriação como Válvula de Escape: A elaboração simbólica do cotidiano (o “BRT lotado”, a jornada exaustiva, a inflação) sob a forma de humor serve como mediação psico-social de descompressão diante da superexploração da força de trabalho.
- Trabalho Imaterial Não Pago: A produção do “meme de 5 milhões de likes” constitui a geração de dados, tempo de tela e engajamento que alimentam o modelo de negócios das Big Techs. A criatividade popular é capturada e transformada em commodity.
- Falsa Autonomia: O consumo e a recriação da cultura de massa não se dão em espaço público autônomo, mas no interior do cercado algorítmico do capital financeirizado.
3. A Dimensão Dialética da Cultura Popular Digital
O olhar materialista evita tanto a celebração acrítica quanto o pessimismo cultural elitista. O meme brasileiro carrega uma dimensão dialética fundamental:\text{Práxis Digital} = \text{Resistência Simbólica} \iff \text{Extração de Mais-Valia}
- Dimensão de Resistência e Linguagem: A gargalhada coletiva denota a vitalidade da linguagem popular e a recusa do trabalhador em ser reduzido à sua mera função produtiva. A ironia e a sátira litúrgica ou política desvelam o caráter terreno e falível do poder.
- Dimensão de Alienação Estrutural: O humor, ao reificar e naturalizar a precariedade como traço folclórico do “ser brasileiro”, pode atuar como amortecedor da fricção de classe. O problema concreto da infraestrutura urbana sucateada converte-se em mercadoria estética passível de consumo rápido, sem desdobramento na organização política de classe.
4. Considerações Finais
A leitura da produção cultural digital sob a lente da paralaxe classista evidencia que a dita “antropofagia do TikTok” não representa a superação da dependência cultural, mas sua reorganização dentro da divisão internacional do trabalho imaterial. O trabalhador periférico devora a mercadoria cultural hegemônica, porém o produto de sua digestão simbólica retorna ao Capital sob a forma de mais-valia de dados.
Superar a ilusão antropofágica exige ir além da apreciação da linguagem do meme como mero artefato estético: impõe-se a necessidade de construir a soberania digital e canalizar a potência criativa e comunicativa da classe trabalhadora para a organização política concreta.
Referências Bibliográficas
- ANDRADE, Oswald de. Manifesto Antropófago. Revista de Antropofagia, Ano 1, n. 1, São Paulo, maio 1928.
- ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.
- BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reproductibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987.
- HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1992.
- LUKÁCS, György. História e Consciência de Classe: estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
- MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro 1: O processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
- SNEIDER, Nick. Capitalismo de Plataforma. São Paulo: Autonomia Literária, 2018.
- ŽIŽEK, Slavoj. A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
Deixe um comentário