A Paralaxe do Desperdício: Superprodução Capitalista, Hegemonia Militar e a Geopolítica da Insegurança Alimentar Global

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo O presente artigo analisa a contradição entre a capacidade produtiva do agronegócio global e a persistência da fome endêmica, que atinge cerca de 735 a 800 milhões de pessoas no mundo, com destaque para populações vulneráveis como crianças e idosos. Sob a ótica da análise em paralaxe, examina-se como o desperdício sistêmico de alimentos nas maiores potências econômicas — sob liderança dos Estados Unidos — não constitui uma falha operacional, mas um desdobramento direto das crises de superprodução inerentes ao modo de produção capitalista. Adicionalmente, aborda-se a intersecção entre complexo militar-industrial, militarização de recursos e instabilidade geopolítica em zonas de conflito, como a Faixa de Gaza, contextualizada a partir de denúncias institucionais e mecanismos multilaterais do sistema ONU e do bloco BRICS+.

1. Introdução: O Paradoxo da Abundância e a Métrica do Descarte

A produção agrícola contemporânea possui capacidade técnica para alimentar aproximadamente 1,5 vez a população mundial atual. No entanto, relatórios do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA / UNEP) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontam que mais de 1,05 bilhão de toneladas de alimentos são descartadas anualmente — o equivalente a cerca de um terço de tudo o que é produzido para consumo humano.

A assimetria entre a capacidade tecnológica de produção e o acesso efetivo ao alimento revela uma divisão geopolítica marcada por dois perfis estruturais:

  • Países do Sul Global / Economias Emergentes: As perdas concentram-se nas fases de pré-consumo (colheita, armazenamento, transporte e infraestrutura de refrigeração).
  • Economias Centrais do Norte Global: O desperdício ocorre predominantemente na ponta final do consumo (varejo, serviços de alimentação e domicílios), sustentado por padrões irresponsáveis de consumismo e estratégias corporativas de manutenção de preços.

2. A Crise de Superprodução no Agronegócio Global

Na teoria econômica crítica, a crise de superprodução ocorre quando a busca constante pela ampliação das margens de lucro leva à geração de mercadorias em volume superior à capacidade de absorção pagante do mercado. No agronegócio corporativo, a produção não visa prioritariamente ao valor de uso (nutrição humana), mas ao valor de troca (comercialização e especulação em bolsas de mercadorias como a Chicago Board of Trade – CBOT).

A Lógica do Mercado: Para evitar o colapso dos preços (commodities crash), o sistema prefere descartar o excesso de alimentos, queimar safras ou deixá-las apodrecer no campo a redistribuí-las gratuitamente, o que reduziria as margens de lucro corporativas.

Nas maiores potências econômicas, a superprodução é incentivada por subsídios estatais massivos que financiam insumos químicos, monoculturas e combustíveis fósseis, criando um modelo estruturalmente insustentável.

3. Matriz Comparativa: Concentração Econômica, Consumo e Desperdício

A tabela abaixo sintetiza a relação entre o peso econômico (PIB nominal), a escala do desperdício doméstico e os gargalos predominantes na cadeia alimentar entre as principais economias globais:

País / BlocoPerfil EconômicoVolume do Desperdício Doméstico (Ton/ano)*Ponto Crítico da Cadeia
Estados UnidosMaior PIB nominal; liderança militar e tecnológica~19,3 milhões (158 kg/hab/ano)Varejo e consumo doméstico (Superprodução)
China2ª maior economia; alta escala populacional~108,6 milhões (76 kg/hab/ano)Varejo e setor de serviços urbanos
ÍndiaEconomia em rápida expansão; grande base agrícola~78,1 milhões (55 kg/hab/ano)Pós-colheita, armazenamento e transporte
AlemanhaMaior economia da União Europeia~6,5 milhões (78 kg/hab/ano)Setor de serviços e residências
BrasilLiderança do agronegócio no Sul Global~20,5 milhões (94 kg/hab/ano)Logística, transporte e manuseio inicial

*Dados de referência baseados no Food Waste Index Report (PNUMA/UNEP).

4. Geopolítica da Fome, Hegemonia Militar e o “Eixo do Caos”

A fome contemporânea não decorre da escassez de recursos naturais ou do esgotamento da capacidade técnica agrícola; ela é fruto de decisões políticas e bloqueios econômico-militares. A conversão do alimento em arma geopolítica (food weaponization) manifesta-se em cenários de guerras prolongadas e cercos militares.

4.1. O Uso da Fome como Instrumento de Guerra

Conforme estipulado pelo Direito Internacional Humanitário e pela Resolução 2417 (2018) do Conselho de Segurança da ONU, o uso da fome de civis como método de guerra é expressamente proibido e classificado como crime de guerra. Contudo, em cenários de conflito assimétrico — como a crise humanitária na Faixa de Gaza —, restrições sistemáticas ao ingresso de ajuda humanitária, destruição de terras aráveis e bloqueio de comboios de alimentos resultam em níveis críticos de insegurança alimentar aguda, atingindo desproporcionalmente crianças, gestantes e idosos.

4.2. Dissidência Interna e Denúncias de Cúmplice Estrutural

Denúncias emanadas de setores do próprio aparato militar e diplomático dos Estados Unidos — incluindo manifestações formais de veteranos e ex-oficiais da Força Aérea e do Exército — criticam o envio continuado de apoio militar e financeiro a operações que violam o Direito Internacional. Sob o prisma de relatórios do Conselho de Direitos Humanos da ONU, o financiamento incondicional de ações de cerco transfere recursos públicos que poderiam mitigar vulnerabilidades sociais globais para a manutenção do complexo militar-industrial.

5. Mecanismos Multilaterais e Alternativas de Governança (ONU e BRICS+)

Para mitigar a assimetria entre a superprodução predatória e a fome estrutural, arcabouços normativos multilaterais vêm sendo propostos em diferentes fóruns globais:

  1. Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS 12.3 – ONU): Estabelece a meta de reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita mundial nos níveis de varejo e do consumidor até 2030, além de reduzir as perdas ao longo das cadeias de produção e suprimento.
  2. Declaração do BRICS+ sobre Segurança Alimentar Global: O bloco dos BRICS+ (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e novos membros) tem enfatizado o fortalecimento de redes de suprimento agrícolas descentralizadas, o comércio em moedas locais para insumos agrícolas e a criação de estoques reguladores públicos para contrarrestar a especulação financeira nas bolsas ocidentais.
  3. Pacto Global Contra a Fome e a Pobreza: Proposta impulsionada no âmbito do G20 e das Nações Unidas para focar no financiamento público de agricultura familiar e na implementação de legislações nacionais que proíbam o descarte de alimentos próprios para consumo por redes de supermercados (modelo pioneiro na França e em expansão no Sul Global).

6. Conclusão

A paralaxe do desperdício de alimentos expõe a contradição central do sistema econômico global: a coexistência entre a superprodução orientada ao lucro e a privação extrema orientada por conflitos geopolíticos e assimetrias de poder. A superação da fome global exige desmantelar a lógica que trata o alimento como mercadoria financeira ou instrumento de coerção militar, reafirmando-o como direito humano fundamental respaldado pelo direito internacional e pela cooperação multilateral soberana.

Referências Bibliográficas

  • FAO, IFAD, UNICEF, WFP, WHO. The State of Food Security and Nutrition in the World 2023: Urbanization, agrifood systems transformation and healthy diets across the rural-urban continuum. Rome: FAO, 2023.
  • UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). Food Waste Index Report 2024: Think.Eat.Save – Tracking Progress to Halve Global Food Waste. Nairobi: UNEP, 2024.
  • UNITED NATIONS SECURITY COUNCIL. Resolution 2417 (2018) / Adopted by the Security Council at its 8269th meeting, on 24 May 2018 [Protection of civilians in armed conflict – Hunger and conflict]. New York: UN, 2018.
  • MARX, Karl. O Capital: Critica da Economia Politica (Livro III: O processo global da produção capitalista). São Paulo: Boitempo, 2017.
  • ZIEGLER, Jean. Destruição Massiva: Geopolítica da Fome. São Paulo: Cortez Editora, 2013.
  • WORLD RESOURCES INSTITUTE (WRI). Reducing Food Loss and Waste: Setting a Global Action Agenda. Washington, DC: WRI, 2019.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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