A Ilusão Epistemológica Decolonial Face à Práxis Anti-Imperialista: Uma Análise Estrutural e Situacional da Luta de Classes Global

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

O presente artigo analisa as limitações teóricas e práticas do pensamento decolonial contemporâneo a partir da paralaxe materialista histórica e dialética, utilizando as ferramentas do Planejamento Estratégico Situacional (PES) e do Método Alta Direção de Planejamento Popular (MAPP). Argumenta-se que, ao priorizar a superestrutura discursiva e cultural em detrimento das relações sociais de produção e da exploração do trabalho, o decolonialismo acadêmico esvazia a práxis revolucionária e a dinâmica das lutas de libertação nacional. Adicionalmente, examina-se a instrumentalização do racismo estrutural global e o papel dos mecanismos multilaterais da Organização das Nações Unidas (ONU) na denúncia de agressões imperialistas e sionistas, demonstrando como a superação das opressões exige a centralidade da contradição capital-trabalho e a identificação precisa dos atores no jogo político internacional.

1. Introdução e a Paralaxe Materialista: O Equívoco Decolonial

O pensamento decolonial, consolidado a partir do Grupo Modernidade/Colonialidade (M/C), legou às ciências sociais uma robusta descrição das permanências subjetivas e culturais do período colonial. Conceitos como “colonialidade do poder”, “do saber” e “do ser”, cunhados por teóricos como Aníbal Quijano e Walter Mignolo, apontam corretamente que a independência formal das nações do Sul Global não encerrou a subalternização de seus povos e saberes diante do Eurocentrismo.
Contudo, sob a ótica da paralaxe classista e do materialismo histórico-dialético, revela-se um deslocamento idealista no âmago da teoria decolonial. Ao converter a “raça” e a “colonialidade” em categorias ontológicas primárias — anteriores ou independentes do desenvolvimento do modo de produção — tal corrente promove uma inversão idealista. A raça não é um traço transhistórico da mente ocidental, mas sim uma especificação histórica da divisão do trabalho, uma ferramenta de dominação moldada e reificada pela acumulação primitiva e pela expansão do capital.
Ao isolar a opressão cultural de sua determinação material, a academia decolonial esvazia a história e a luta de classes. Substitui-se o confronto contra o capital e a extração da mais-valia global por disputas puramente discursivas e acadêmicas (como a “decolonização de currículos”). O resultado prático é a desmobilização da práxis e a incapacidade de explicar por que as regiões que mais adotam a retórica decolonial continuam submetidas aos mais degradantes índices de miséria absoluta.

2. Análise Situacional (PES/MAPP) das Lutas de Libertação Nacional

Para compreender a eficácia histórica e os limites das frentes de libertação nacional no século XX (na Ásia, África e Américas), faz-se necessária a aplicação do Planejamento Estratégico Situacional (PES) e do Método MAPP. Essas ferramentas concebidas por Carlos Matus permitem decifrar a realidade não como uma sucessão linear de fatos, mas como um jogo de forças dinâmico entre atores sociais com intencionalidades distintas.
Na ótica do PES, os processos de independência conduzidos sob a bandeira do marxismo-leninismo (como no Vietnã, em Angola, Moçambique e Cuba) não trataram o materialismo como um dogma europeu implantado mecanicamente. Pelo contrário, operaram um rigoroso processamento do Momento Explicativo e do Momento Estratégico:

  • Identificação do Vetor de Macroproblemas: Os movimentos revolucionários compreenderam que o colonialismo e o imperialismo eram os nós críticos que bloqueavam o desenvolvimento de suas forças produtivas.
  • Flutuação da Fronteira de Governabilidade: A aliança tática e estratégica com o bloco socialista internacional (URSS/China) foi o mecanismo encontrado para alterar a correlação de forças global, viabilizando recursos militares e logísticos impossíveis de obter por vias puramente endógenas.
    A tragédia histórica subsequente a muitas dessas libertações — que desaguou na manutenção da miséria absoluta de suas populações — reside no fato de que o fim do colonialismo formal não alterou a Divisão Internacional do Trabalho. Sob a ótica do MAPP, a operação política posterior à independência limitou-se, muitas vezes, a substituir a burocracia metropolitana por uma burguesia compradora ou burocrática local. Como o fluxo do grande capital e a espoliação de commodities e da força de trabalho periférica mantiveram-se intactos, a estrutura do Estado moderno capturado pelo capital continuou a reproduzir a miséria, provando que a emancipação cultural sem a transformação radical das forças produtivas e das relações de produção é uma quimera.

3. O Imperialismo, o Sionismo e o Racismo Institucionalizado no Tabuleiro Multilateral

O racismo, quando examinado materialmente, constitui a justificativa ideológica para a espoliação territorial, a pilhagem de recursos e o aniquilamento de populações inconvenientes ao desenvolvimento geoestratégico do imperialismo hegemonizado pelos Estados Unidos e operado por seus enclaves regionais, notadamente o Estado de Israel.
No plano internacional, o reconhecimento do racismo e do colonialismo como violações estruturais do direito das gentes encontra amparo na arquitetura jurídica e política da Organização das Nações Unidas (ONU). Historicamente, a Assembleia Geral da ONU serviu de palco para o enfrentamento entre o bloco imperialista ocidental e a maioria automática composta por países não alinhados, nações socialistas e recém-independentes da África e Ásia.
Um marco central desse tensionamento geopolítico e jurídico foi a aprovação da Resolução 3379 da Assembleia Geral da ONU (1975), que determinou de forma categórica que “o sionismo é uma forma de racismo e discriminação racial”. Embora revogada em 1991 sob intensa pressão diplomática e chantagem econômica dos EUA após a derrocada do bloco soviético, a essência material daquela resolução reflete-se na persistência das práticas de apartheid, colonização de assentamentos e agressão sistemática perpetradas contra o povo palestino.
Na perspectiva do materialismo histórico, a simbiose entre os EUA e o Estado sionista de Israel ultrapassa afinidades ideológicas: trata-se de um imperativo de controle militar e de fluxo de valor na região do Oriente Médio, onde a desumanização racial do povo palestino opera como justificativa para o terrorismo de Estado e para a perenidade da dominação imperialista. Os mecanismos da ONU, embora frequentemente paralisados pelo poder de veto norte-americano no Conselho de Segurança, registram na história a denúncia jurídica dessas opressões como crimes contra a humanidade, ecoando o acúmulo da Declaração e Programa de Ação de Durban (2001), que equiparou o racismo e a xenofobia às formas contemporâneas de escravização e segregação estatal.

4. Conclusão

A superação das assimetrias globais e das feridas abertas pelo racismo e pela miséria absoluta exige o resgate da centralidade do trabalho e da teoria do valor na análise conjuntural. A decolonialidade idealista, ao converter problemas estruturais de exploração econômica em dilemas morais, identitários e semânticos, funciona involuntariamente como uma linha de desvios que preserva as bases materiais do capitalismo global.
A libertação das nações periféricas e o fim do terrorismo imperialista exigem mais do que o deslocamento epistêmico: demandam o resgate da práxis classista, a organização popular metodologicamente amparada (como propõe o PES-MAPP) e o enfrentamento direto contra as estruturas de poder que convertem a raça e a geografia em vetores de extração de mais-valia e opressão humana.

Referências Bibliográficas

  • BRAGA, Ruy. O problema da leitura decolonial. Podcast Prelúdio, 2026.
  • CABRAL, Amílcar. Arma da Teoria: Unidade e Luta. Lisboa: Seara Nova, 1976.
  • LOSURDO, Domenico. A Luta de Classes: Uma história política e filosófica. São Paulo: Boitempo, 2015.
  • MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
  • MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993.
  • MATUS, Carlos. O Método MAPP: Método Alta Direção de Planejamento Popular. São Paulo: Fundap, 1996.
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Assembleia Geral. Resolução nº 3379 (XXX): Eliminate all forms of racial discrimination. Nova York, 10 de novembro de 1975.
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Declaração e Programa de Ação da III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância. Durban, 2001.
  • QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, E. (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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