O Tablado da Barbárie e o Escudo da Coesão: O Futebol na Encruzilhada entre o Racismo Estrutural e a Resistência Democrática

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo: Este artigo analisa a decisão da Copa do Mundo sob a ótica da geopolítica crítica, da teoria social e da sociologia do esporte. Investiga-se como a final entre Espanha e Argentina traduz a tensão civilizacional contemporânea, contrapondo um modelo de sociabilidade pautado pela diversidade, pelo multilateralismo democrático e pela coesão tática, a um ecossistema esportivo-mercantil que tolera o racismo estrutural e a violência física como ferramentas de contenção sob a égide do “capitalismo do caos”.

Introdução: A Superestrutura Esportiva como Espelho da Crise Civilizacional

O futebol, enquanto fenômeno sociocultural de massa, opera como uma caixa de ressonância das contradições estruturais que atravessam o sistema-mundo contemporâneo. A iminência da final do torneio mundial coloca em oposição direta duas seleções que corporificam projetos políticos, éticos e civilizacionais antagônicos. Longe de ser um mero embate esportivo, a partida revela-se um território de disputa de narrativas onde se chocam a barbárie excludente e a resistência democrática multilateral.
O debate central não repousa apenas sobre os esquemas táticos desenhados nos gramados, mas sobre as condições de possibilidade sociais e ideológicas que legitimam cada uma dessas escolas. De um lado, a ascensão de discursos xenófobos e racistas, normalizados como folclore esportivo e amparados por uma governança nacional ultraliberal e autoritária; do outro, o esforço de coesão democrática e respeito à diversidade plurinacional, inserido em um contexto de cooperação e defesa das instituições internacionais.

1. O Racismo Estrutural como Práxis Esportiva e a Conivência do Mercado

A normalização de condutas racistas e discriminatórias no ambiente esportivo não constitui um fenômeno isolado ou meramente comportamental, mas sim uma manifestação da colonialidade do poder que estrutura as relações sociais. A recorrência de comemorações e cantos de teor xenófobo e racista por parte de setores da cultura esportiva argentina evidencia como o preconceito é instrumentalizado como uma tecnologia de poder e humilhação do outro:

  • A Naturalização da Violência Simbólica: Sob o pretexto da “paixão” ou do “folclore do futebol”, discursos que desumanizam atletas racializados são tolerados e replicados, transformando o espaço da catarse coletiva em um laboratório de exclusão social.
  • A Cumplicidade do Capital Transnacional: A Federação Internacional de Futebol (FIFA) e as corporações que financiam o espetáculo frequentemente adotam uma postura de neutralidade burocrática. Essa omissão deliberada serve para preservar o valor de mercado de seus principais ativos (os jogadores-corporação), demonstrando que a ética antirracista é subordinada à rentabilidade do espetáculo.
  • O Alinhamento com a Extrema-Direita: Esse caldo de cultura desportivo encontra perfeita simetria com a gestão política do país de origem, cuja liderança adota uma retórica de hostilidade contra as minorias, de negação das injustiças históricas e de submissão ideológica aos preceitos do populismo reacionário global.

2. A Espanha e a Trincheira do Multilateralismo Coeso

Em oposição a esse modelo de agressão e exclusão, a Espanha se apresenta nesta conjuntura histórica como um bastião de resistência democrática. No plano político, a articulação do governo de Pedro Sánchez com lideranças do progressismo global — como o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil — visa construir salvaguardas institucionais contra o avanço das forças neofascistas e do negacionismo climático e social.
No plano esportivo, essa postura traduz-se em uma identidade que recusa o individualismo predatório e a violência como método de contenção:

  • Coesão e Pluralidade: A seleção espanhola apoia-se em um modelo de jogo baseado no coletivismo, na solidariedade interna e na valorização de jovens talentos de origens diversas (como Lamine Yamal), tensionando de forma positiva o debate sobre a identidade nacional plurinacional e inclusiva.
  • A Resistência contra a Assimetria: Frente ao desenho institucional hostil e à mercantilização que favorece o pragmatismo da força bruta, a Espanha representa a possibilidade de sobrevivência de um futebol que se organiza coletivamente, provando que a coesão democrática é viável mesmo sob as condições de asfixia impostas pelas corporações globais.

3. O Julgamento da História nas Quatro Linhas

A decisão que se avizinha coloca o sistema-mundo diante de um dilema civilizacional expresso no esporte. A análise em paralaxe revela que o resultado esportivo selará a hegemonia temporária de uma das seguintes cosmovisões:

[Decisão da Copa do Mundo 2026]
├─► Argentina (Modelo de Contenção de Mercado / Normalização da Barbárie)
│ └─► Alinhamento ao populismo extremista, força física e conivência com o racismo.
└─► Espanha (Modelo Democrático / Coesão Multilateral)
└─► Cooperação tática, representatividade multicultural e defesa institucional.

O triunfo da seleção espanhola operaria como uma importante barreira simbólica. Demonstraria que a racionalidade democrática, o respeito mútuo e a solidariedade de um grupo diverso são capazes de superar a violência sistemática e as estruturas de facilitação mercadológica. Seria, em última análise, a vitória da civilidade sobre a barbárie no principal palco da cultura popular global.

Conclusão

A final da Copa do Mundo não se encerra na entrega do troféu. Ela se projeta como um documento histórico sobre o estado da sensibilidade humana e das disputas geopolíticas de nossa era. O enfrentamento da Espanha contra a Argentina constitui um marco pedagógico: ou o esporte se consolida definitivamente como um apêndice do mercado que tolera o racismo e a violência para a manutenção do lucro, ou se afirma como um espaço de resistência plurinacional, onde o respeito à dignidade humana e a inteligência coletiva erguem-se contra o império do caos.

Referências Bibliográficas

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  • ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A Busca do Excitamento: Esporte e Lazer no Processo Civilizador. Lisboa: Difel, 1992.
  • FEDERATION INTERNATIONALE DE FOOTBALL ASSOCIATION (FIFA). Estatutos da FIFA (Edição 2024): Disposições sobre Neutralidade Política e Direitos Humanos. Zurique: FIFA, 2024.
  • GALEANO, Eduardo. O Futebol de Sol e Sombra. Porto Alegre: L&PM Editores, 2004.
  • MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018. (Reflexões aplicadas à lógica de contenção e exclusão violenta no esporte moderno).
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Resolução 78/142: Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. Nova York: Assembleia Geral da ONU, 2023.
  • SÁNCHEZ, Pedro. Manual de Resistencia. Madri: Peninsula, 2019.
  • WALLERSTEIN, Immanuel. Geopolítica e Geocultura: Ensaios sobre o Moderno Sistema-Mundo. Brasília: CNPq, 1991.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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