Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo: Este artigo analisa a decisão da Copa do Mundo sob a ótica da geopolítica crítica e da sociologia do esporte. Examina-se a transição do “futebol-arte” para o “futebol de contenção” como reflexo da racionalização de mercado apoiada pela FIFA. Adicionalmente, correlaciona-se o alinhamento político-institucional de Espanha e Argentina com as suas respectivas posturas em campo, debruçando-se sobre as tensões entre o multilateralismo democrático e as correntes populistas de extrema-direita no cenário internacional contemporâneo.
Introdução: O Futebol como Espaço de Disputa Hegemônica
O esporte de massas, e em particular o futebol, há muito deixou de ser apenas uma manifestação cultural lúdica para se consolidar como um complexo território de projeção geopolítica e reprodução ideológica. A final do torneio mundial entre as seleções da Espanha e da Argentina desenha um cenário que extrapola as quatro linhas do gramado. Esta partida coloca em oposição não apenas dois sistemas de jogo, mas duas visões de mundo, de organização social e de inserção no sistema internacional.
A ausência de um futebol criativo e de catarse coletiva nesta fase decisiva sinaliza o triunfo de um modelo pragmático e mercantilizado, frequentemente chamado de “futebol de contenção”. Esse fenômeno reflete a lógica de mercado aplicada ao esporte, onde a previsibilidade e a minimização do risco financeiro sobrepõem-se à genialidade e à imprevisibilidade estética. Neste ensaio, analisa-se essa decisão em paralaxe, cruzando a análise tática esportiva com as dinâmicas de poder global que tensionam o multilateralismo e a soberania das nações.
1. O Futebol de Contenção e a Racionalização do Mercado Esportivo
O espetáculo esportivo contemporâneo é profundamente regulado por federações internacionais cuja atuação se assemelha à de corporações transnacionais. O processo de esportivização, descrito por Norbert Elias, que historicamente buscava a canalização da violência e a criação de regras civilizatórias, parece ter atingido um ápice de burocratização e controle sob a égide da FIFA.
O “futebol-arte”, caracterizado pela criatividade improvisada e pela liberdade tática, vem sendo progressivamente substituído por esquemas rígidos de contenção física e ocupação de espaços. Essa transição atende diretamente às demandas do capital financeiro:
- Minimização do Acaso: O mercado exige resultados previsíveis para garantir o retorno de investimentos bilionários em patrocínios, direitos de transmissão e apostas esportivas.
- O Atleta como Ativo: Jogadores são moldados como engrenagens físicas de alta performance e baixa margem de erro criativo, transformando-se em garotos-propaganda de um sistema altamente mercantilizado.
- A “Paz de Mercado” vs. a Catarse Popular: A contenção tática atua de forma homóloga à contenção social. O esvaziamento da rebeldia criativa em campo espelha o controle e a repressão dos sentimentos coletivos nas arquibancadas e nas ruas, transformando o torcedor ativo em consumidor passivo.
2. As Duas Margens da Final: Análise Geopolítica e Ideológica dos Finalistas
As seleções finalistas personificam, em seus estilos de jogo e nos contextos de seus países de origem, o embate civilizacional que caracteriza o início do século XXI.
Espanha: A Coesão Democrática e a Defesa do Multilaterismo
Geopoliticamente, a Espanha de meados da década de 2020 adota uma postura de firme alinhamento com a defesa das instituições multilaterais, dos direitos humanos e da sustentabilidade, em consonância com as diretrizes da Organização das Nações Unidas (ONU). Sob a liderança do presidente de governo Pedro Sánchez, e em estreita articulação diplomática com lideranças progressistas globais — como o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil —, o país se apresenta como um bastião de resistência ao avanço do trumpismo e da extrema-direita na Europa.
No plano esportivo, a seleção espanhola reflete essa postura por meio de uma identidade de jogo coesa e coletiva:
- Jogo de Posição: Um estilo baseado na solidariedade entre os setores, na manutenção da posse de bola como mecanismo de controle defensivo e ofensivo, e no respeito às regras do jogo.
- Identidade sem Centralismo: A equipe busca uma representação de diversidade que contesta discursos xenófobos, embora enfrente o pragmatismo moderno com uma postura por vezes considerada “morna” pela crítica de arte esportiva. Ela se sustenta na força de seu planejamento coletivo.
Argentina: O Pragmatismo da Força e a Aliança com o “Império do Caos”
Em contrapartida, a Argentina contemporânea atravessa uma profunda reconfiguração política e econômica sob uma gestão marcadamente ultra-liberal e populista de direita. Alinhada ideológica e diplomaticamente às forças do “trumpismo” e à vertente mais radical da direita global, a atual liderança argentina promove o desmonte de estruturas públicas e a desregulamentação radical sob um discurso de ruptura agressiva.
No campo esportivo, essa conjuntura reverbera em uma seleção que historicamente flerta com o pragmatismo e o jogo de forte imposição física, por vezes ultrapassando os limites da desportividade tolerada:
- Cultura de Contenção pela Força: Um estilo focado no confronto direto, na intimidação psicológica e na contenção do adversário por vias que testam a elasticidade das regras impostas pelas arbitragens.
- Conflito Ético e Racismo no Esporte: Episódios recentes de manifestações discriminatórias por parte de atletas e torcedores expõem como a cultura esportiva nacional tem sido instrumentalizada por discursos de exclusão e intolerância, legitimados de forma velada ou explícita pela nova atmosfera política do país.
- Alinhamento Institucional com a FIFA: A presença de figuras de grande apelo comercial na seleção argentina serve aos interesses de expansão de mercado da entidade máxima do futebol, unindo o pragmatismo político de um Estado submisso aos interesses do capital global à engrenagem de relações públicas da própria federação.
3. A Decisão em Paralaxe: Quem Vencerá o Embate das Narrativas?
A resposta à pergunta sobre quem se sagrará vencedor não reside apenas no placar final do jogo, mas na consolidação de qual narrativa histórica sairá vitoriosa deste embate cultural.
| Dimensão de Análise | Seleção da Espanha (Modelo Democrático/Coeso) | Seleção da Argentina (Modelo de Contenção/Mercado) |
|---|---|---|
| Doutrina Política Correlata | Social-democracia europeia, multilateralismo (ONU) e transição ecológica justa. | Ultraliberalismo radical, soberanismo excludente e alinhamento ao trumpismo. |
| Estilo Tático Predominante | Jogo de posição, posse de bola compartilhada, coesão sistêmica e inteligência coletiva. | Contenção física direta, transição vertical rápida e dependência de individualidades comerciais. |
| Relação com o Ecossistema FIFA | Relação institucional pautada pela observância normativa clássica. | Instrumentalização mútua entre o apelo comercial de “estrelas” e as novas regras de mercado. |
| O triunfo da seleção espanhola representaria, sob o prisma analítico da paralaxe geopolítica, a vitória da resiliência coletiva e da coesão institucional frente às adversidades de um sistema esportivo global moldado por interesses oligárquicos. Seria a demonstração de que a sobriedade democrática e a organização solidária ainda podem prevalecer sobre as estruturas de força e facilitação mercadológica. | ||
| Por outro lado, uma vitória da seleção argentina consolidaria a hegemonia do modelo de “contenção e espetáculo controlado”, onde o pragmatismo político e esportivo legitima-se por meio do resultado final. Esse desfecho reforça a lógica de que, no império do caos, o ordenamento das regras de controle serve primariamente à manutenção do status quo financeiro, mesmo que ao custo do empobrecimento do patrimônio cultural intangível que é o futebol enquanto arte popular. |
Conclusão
A final da Copa do Mundo de futebol reflete, em escala reduzida, as grandes fraturas do nosso tempo. O dilema entre o “futebol-arte” e o “futebol de contenção de mercado” espelha a disputa global entre a emancipação popular e a tecnocracia burocrática das finanças. Independentemente do apito final, este torneio deixa claro que o futebol não é um território neutro; ele permanece como um dos palcos mais vibrantes e disputados da política da representação mundial, onde cada passe, falta e celebração carrega consigo o peso das decisões geopolíticas que moldam as nossas sociedades.
Referências Bibliográficas
- ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A Busca do Excitamento: Esporte e Lazer no Processo Civilizador. Lisboa: Difel, 1992.
- GALEANO, Eduardo. O Futebol de Sol e Sombra. Porto Alegre: L&PM Editores, 2004.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Resolução 73/24: O Esporte como Facilitador do Desenvolvimento Sustentável. Nova York: Assembleia Geral da ONU, 2018.
- FEDERATION INTERNATIONALE DE FOOTBALL ASSOCIATION (FIFA). Estatutos da FIFA (Edição 2024): Disposições sobre Neutralidade Política e Direitos Humanos. Zurique: FIFA, 2024.
- SÁNCHEZ, Pedro. Manual de Resistencia. Madri: Peninsula, 2019.
- SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017. (Reflexões aplicadas à análise de classes e submissão colonial no contexto latino-americano).
- WALLERSTEIN, Immanuel. Geopolítica e Geocultura: Ensaios sobre o Moderno Sistema-Mundo. Brasília: CNPq, 1991.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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