Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo: O presente artigo analisa, sob a lente do materialismo histórico-dialético e da paralaxe classista, as recentes manifestações de atletas de elite no cenário do futebol mundial em 2026 — especificamente Lamine Yamal e Kylian Mbappé. Investiga-se como a emergência da “consciência de classe de origem” tensiona a subsunção real do trabalho vivo ao capital nas estruturas transnacionais do esporte de alta performance. Por fim, o artigo articula essa práxis de autoafirmação periférica com os mecanismos jurídicos multilaterais e constitucionais chancelados pela Organização das Nações Unidas (ONU) no tocante à soberania cultural e autodeterminação dos povos.
1. Introdução: A Linha de Fratura no Espetáculo Mercantilizado
No estágio atual do capitalismo tardio, o esporte de alto rendimento — e de forma hipertrofiada o futebol gerido por federações transnacionais como a FIFA — opera como uma das mais eficientes indústrias de extração de mais-valia e reprodução ideológica da burguesia. O atleta de elite é transformado em um ativo financeiro complexo, cujos direitos de imagem, performance física e circulação geográfica são rigidamente ditados por fundos de investimento e conglomerados de mídia.
Contudo, a Copa do Mundo de 2026 expôs uma linha de fratura nessa superestrutura higienizada. As declarações do atacante espanhol Lamine Yamal sobre a natureza material da “pressão” e a recusa sistemática de Kylian Mbappé em monetizar sua atuação na seleção francesa não constituem meros desvios anedóticos ou arroubos de filantropia liberal. Sob a ótica da paralaxe classista, tais fenômenos representam o curto-circuito do trabalho vivo contra a reificação. Trata-se do irrompimento da memória histórica da classe trabalhadora periférica no coração do santuário do capital global.
2. A Ontologia da Pressão e a Desmonetização do Dever: Yamal e Mbappé sob a Lente Dialética
2.1 Lamine Yamal e o Resgate do Valor de Uso
A conceituação de “pressão” elaborada por Lamine Yamal opera uma inversão ontológica fundamental. Ao confrontar a narrativa da crônica burguesa — que vitimiza o atleta milionário sob o peso psicológico da competição —, Yamal reconecta o sofrimento às suas bases materiais: o trabalho precário, a maternidade na adolescência periférica e a luta diária pela reprodução da vida (o pai na coleta de recicláveis).
Do ponto de vista materialista, Yamal opera uma distinção viva entre o valor de troca (as métricas, as estatísticas de desempenho cobradas pelos analistas de mercado) e o valor de uso da atividade desportiva (o jogo como práxis criativa, lúdica e geradora de alegria popular). Ao neutralizar o fetiche da pressão mercadológica, o atleta desaliena o seu fazer e transforma o gramado em um espaço de afirmação de sua historicidade classista.
2.2 Kylian Mbappé e a Recusa da Mercantilização da Identidade
A práxis de Mbappé ao desmonetizar sua atuação no selecionado nacional ataca a premissa central do capitalismo contemporâneo: a de que todas as relações humanas e sentimentos de pertencimento devem ser mediados pela forma-mercadoria.
A CONTRADIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO DO ATLETA
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│ O ATLETA NO CLUBE (MERCADORIA) │ O ATLETA NA SELEÇÃO (DEVER) │
│ • Subsunção total ao capital privado. │ • Tentativa de resgate do valor de uso. │
│ • Extração intensiva de mais-valia. │ • Recusa da mediação do salário. │
│ • Circulação como capital constante. │ • Devolução do excedente à periferia. │
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Ao destinar os bônus milionários do espetáculo para as fundações que assistem a juventude proletária e PCD das banlieues, Mbappé opera uma expropriação marginal do capital financeiro da FIFA. Ele institui o “dever” como uma categoria transpatriótica e anticapitalista na medida em que retira a representação da comunidade do circuito da acumulação monetária.
3. Os Mecanismos Multilaterais da ONU e a Autoafirmação Soberana dos Povos
A resistência silenciosa ou discursiva desses corpos subalternizados nos gramados da Europa e do mundo espelha uma disputa macrofísica resguardada pelo Direito Internacional Público. A autoafirmação da identidade cultural de filhos e netos da diáspora colonial encontra guarida nos próprios termos constituintes dos mecanismos multilaterais da ONU.
A soberania dos povos sobre seus recursos materiais, humanos e culturais é salvaguardada por resoluções e pactos fundamentais que visam deter a espoliação imperialista — inclusive a espoliação da identidade que o esporte industrial tenta pasteurizar:
- O Princípio da Autodeterminação: Consagrado no Artigo 1º, parágrafo 2º da Carta das Nações Unidas (1945), que estabelece o respeito ao princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos como base para a paz mundial.
- Pactos Internacionais de 1966: O Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC) e o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (PIDCP) determinam textualmente em seus Artigos 1º que “Todos os povos têm o direito de autodeterminação. Em virtude desse direito, determinam livremente seu estatuto político e asseguram livremente seu desenvolvimento econômico, social e cultural”.
- Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento (Resolução 41/128 da ONU, 1986): Reafirma que o ser humano é o sujeito central do desenvolvimento e que a identidade cultural e a soberania popular sobre as capacidades nacionais são inalienáveis diante da globalização corporativa asfixiante.
Quando atletas oriundos de famílias espoliadas pelo neocolonialismo utilizam o megafone da Copa do Mundo para demarcar sua herança classista e periférica, eles estão exercendo o direito multilateral de soberania cultural contra o apagamento identitário promovido pelas corporações transnacionais.
4. Conclusão: A Paralaxe do Esporte-Mercadoria
A análise em paralaxe revela que o futebol de alta performance abriga duas realidades irreconciliáveis no mesmo espaço-tempo. Por um lado, é uma máquina capitalista unipolar de extração de valor, alinhada aos interesses do imperialismo e do entretenimento pasteurizado. Por outro, o futebol é o palco onde o trabalho vivo se recusa a morrer.
As figuras de Lamine Yamal e Kylian Mbappé demonstram que a alienação total do trabalhador do desporto é irrealizável. A memória da fome, do trabalho precário dos pais e da herança colonial atua como um antídoto dialético. Ao utilizarem a legitimação multilateral dos direitos de autodeterminação e soberania cultural para reafirmar suas origens, esses sujeitos históricos estilhaçam a vitrine da ordem burguesa e lembram ao mundo que a dignidade da classe trabalhadora não pode ser inteiramente comprada, tabelada ou contida pelo capital.
Referências Bibliográficas
- AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. (Para o debate ontológico sobre a natureza do lúdico e do lazer como repouso da alma operária).
- MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013. (Seção V: A Produção da Mais-Valia Absoluta e Relativa).
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Carta das Nações Unidas e Estatuto da Corte Internacional de Justiça. São Francisco, 1945.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC). Nova York, 1966.
- SAYAD, Abdelmalek. A Ilusão da Imigração. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
- VAZ, Alexandre Fernandez. Esporte, corpo e sociedade: notas sobre a tecnicização do rendimento esportivo. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 22, n. 3, 2001.
- ŽIŽEK, Slavoj. A Visão em Paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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