Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo: O presente artigo analisa a dinâmica das fases agudas do futebol de alto rendimento sob a ótica do materialismo histórico-dialético e da paralaxe classista. Investiga-se a contradição entre o modelo industrial-tecnocrático — que reduz o desporto ao vigor físico, à velocidade cega e ao pragmatismo burocrático — e a resistência da matriz operária, fundamentada na coesão, na acumulação de experiência tática e na solidariedade de classe. A partir da categoria do “jogo protocolar”, discute-se como a mercantilização absoluta do espetáculo captura e neutraliza a catarse coletiva, transformando o que deveria ser um território de emancipação e identidade popular em uma linha de montagem previsível voltada à reprodução do grande capital.
1. Introdução: O Futebol entre a Força de Trabalho e a Superestrutura
O fenômeno do futebol de alto rendimento na contemporaneidade constitui um campo de forças tensionado pela contradição fundamental entre o valor de uso — a expressão cultural, a plasticidade e a catarse coletiva das massas — e o valor de troca — a conversão do jogo em ativo financeiro global. A análise dos certames internacionais de seleções revela que as quatro linhas e o ambiente extra-campo não flutuam isolados das dinâmicas de acumulação capitalista. Pelo contrário, o gramado atua como um espelho da divisão social do trabalho e das disputas hegemônicas da superestrutura ideológica.
A crônica desportiva hegemônica tende a naturalizar a prevalência do vigor físico, da velocidade e da imposição mecânica como imperativos inevitáveis da modernidade. Contudo, a observação dialética desmanda essa redução tecnocrática, demonstrando que o sucesso das formações que preservam seus quadros históricos reside na acumulação de um saber-fazer que desafia a obsolescência programada do mercado.
2. A Acumulação de Capital Humano e a Dialética do “Jogo Protocolar”
A manutenção de elencos estáveis e experientes ao longo de sucessivos ciclos competitivos permite o desenvolvimento do que se pode denominar como memória histórica da práxis tática. Enquanto o capital exige a renovação constante de mercadorias-atletas para alimentar a especulação financeira e os fluxos de transferência, a realidade empírica do jogo demonstra que a maturidade e a coesão operam como forças de resistência à trituração física.
O Trabalho Morto e o Trabalho Vivo na Linha de Montagem Tática
A categoria do “jogo protocolar” — identificada historicamente na crônica desportiva quando potências industriais do futebol vencem seus adversários sem a necessidade do extraordinário — reflete a aplicação da lógica fabril ao desporto. A equipe burocraticamente consolidada opera a partir do trabalho morto, isto é, de automatismos, coberturas rígidas e simetrias espaciais que visam neutralizar o erro.
A PARALAXE DA PRODUÇÃO DESPORTIVA
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│ O MODELO INDUSTRIAL-BIOLÓGICO │ A MATRIZ OPERÁRIA COESIVA │
│ • Atleta como máquina descartável. │ • Preservação histórica dos quadros. │
│ • Velocidade cega e força de choque. │ • Ginga, desconcerto e malícia. │
│ • Minimização estatística do risco. │ • Solidariedade orgânica de classe. │
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A CONTRADIÇÃO DA CATARSE
O espetáculo protocolar securitiza o lucro das corporações,
mas esvazia a dimensão estética e a potência afetiva das massas.
Em oposição à velocidade cega imposta pelos laboratórios de preparação física centrais, as seleções que sustentam sua espinha dorsal resgatam a economia do movimento e a inteligência coletiva. O “desconcerto” — a finta, a ginga e a quebra inesperada do ritmo — constitui uma insurreição do trabalho vivo contra a rigidez do algoritmo defensivo. A ginga não é um adorno individualista burguês, mas a manifestação da malícia histórica das classes subalternizadas que aprenderam a utilizar o corpo como território de contrapoder.
3. A Solidariedade de Classe e a Captura da Catarse Coletiva
Em tese, a Copa do Mundo e os torneios de grande magnitude deveriam realizar a catarse coletiva: um momento de suspensão da alienação cotidiana onde a classe trabalhadora se reconhece na destreza, na superação estética e na identidade de seus iguais. O futebol nasceu como um espaço de solidariedade orgânica — o passe como doação, a cobertura como proteção mútua e o drible como libertação coletiva do trauma social.
No entanto, a racionalidade do capital financeiro opera uma barreira estrutural a essa realização:
- A Securitização do Espetáculo: Para garantir o retorno financeiro de mega-investidores, detentores de direitos de mídia e consórcios transnacionais, o risco da genialidade espontânea deve ser mitigado. A beleza é criminalizada pelo esquema tático porque a perda da posse de bola em uma zona de transição representa um prejuízo contábil potencial.
- O Futebol de Obstrução como Norma: A prevalência de partidas caracterizadas por faltas táticas, rasteiras burocráticas e interrupções sistemáticas legitima, na superestrutura cultural, a violência das relações de produção. O jogo limpo e criativo é substituído por uma guerra de desgaste onde vence quem melhor obstrui a capacidade de criação do adversário.
Essa dinâmica desidrata a potência revolucionária da catarse. As massas são alienadas de sua própria criatividade, convidadas a consumir um produto higienizado onde o espetáculo do atrito substitui o prazer da arte. Quando a vitória se torna estritamente protocolar, o esporte perde sua capacidade de emocionar genuinamente, convertendo-se em uma mercadoria de entretenimento passivo.
4. Considerações Finais: A Trincheira da Experiência
A sobrevivência e o sucesso de equipes que se apoiam na experiência, na maturidade e na coesão de seus quadros históricos demonstram que a essência do futebol resiste à sua completa mecanização. A força bruta, a velocidade e o vigor físico, embora dominantes na narrativa empresarial do desporto, esbarram no teto da inteligência coletiva e da solidariedade tática.
A análise em paralaxe revela que a reconquista da catarse coletiva e do futebol como espaço de emancipação popular não virá de reformas administrativas no seio das federações cartelizadas como a FIFA. Ela depende do reconhecimento, por parte dos produtores e consumidores do esporte — a classe trabalhadora —, de que o drible, a ginga e a coesão são patrimônios históricos de resistência cultural que não podem ser integralmente subsumidos pelas planilhas de lucro do capital monopolista.
Referências Bibliográficas
- BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica. In: Sociologia. São Paulo: Ática, 1985. (Discussão sobre a perda da aura e a estetização da política).
- CHOMSKY, Noam. Media Control: The Spectacular Achievements of Propaganda. New York: Seven Stories Press, 2002. (Análise do esporte de massas como mecanismo de distração social).
- GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere: Os Intelectuais. A Organização da Cultura. Vol. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. (Teoria dos aparelhos ideológicos e da hegemonia cultural).
- MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013. (Capítulos sobre a subsunção do trabalho e o fetiche da mercadoria).
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993. (Aplicação da análise situacional e vetores de macro-organizações).
- VAZ, Alexandre Fernandez. Treinamento, rendimento, festa: sobre a tecnicização do corpo no esporte contemporâneo. In: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 22, n. 3, 2001.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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