Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo: O presente artigo analisa o encerramento da fase de afunilamento da Copa do Mundo de 2026 sob a ótica do materialismo dialético e histórico e da paralaxe classista. Examina-se o desnudamento da superestrutura ideológica do esporte, historicamente vendida como um espaço “inocente” de ascensão, sonhos e visibilidade para os historicamente invisibilizados do Sul Global. Investiga-se a contradição entre a empolgação das massas por seleções disruptivas e as barreiras concretas impostas pelo capital financeiro transnacional, representado pela governança da FIFA e pelos conglomerados de investimento. Por fim, o artigo articula o fenômeno com os mecanismos multilaterais da Organização das Nações Unidas (ONU) e a ordem constitucional que salvaguardam o direito ao desenvolvimento e a soberania cultural.
1. Introdução: A Estetização do Espetáculo e a Realidade Material
O esporte de massas, no estágio contemporâneo de acumulação capitalista, opera como um dos mais potentes aparelhos ideológicos de reprodução social. A Copa do Mundo de 2026, ao encerrar a sua fase de afunilamento tático e burocrático, expõe uma clivagem radical entre a narrativa mística do espetáculo — o futebol como território de neutralidade política, superação individual e democratização do sucesso — e a rigidez de sua infraestrutura econômica.
A eliminação sistemática de seleções que catalisaram a empolgação popular global e que representavam a irrupção do “futebol arte” ou de franjas periféricas do sistema internacional não constitui um acidente puramente desportivo. Sob a lente da paralaxe classista, o encerramento desta fase representa a intervenção cirúrgica das dinâmicas do capital para conter a imprevisibilidade do lúdico e assegurar a estabilidade dos fluxos de investimento.
2. A Ilusão Inocente de Classe e a Subsunção da Magia
A crença de que o talento puro, a destreza técnica ou a entrega mística das nações subalternas seriam suficientes para subverter a hierarquia do futebol mundial constitui o que o materialismo dialético conceitua como ilusão inocente de classe. A superestrutura burguesa permite, incentiva e lucra com a espetacularização inicial das surpresas (como as históricas campanhas de seleções africanas, asiáticas ou latino-americanas), utilizando-as como prova retórica de que o sistema é aberto e meritocrático.
Contudo, à medida que o torneio ruma para o seu núcleo decisivo, a racionalidade do “futebol lucro” opera a subsunção real da atividade. O jogo é desnudado de sua capa de magia:
- O Pragmatismo como Força de Contenção: Fica evidente o triunfo de um futebol industrializado, baseado na obstrução sistemática, no esgotamento físico, na neutralização tecnológica do erro e na eliminação do drible criativo. A beleza e a solidariedade orgânica do futebol de várzea ou das periferias mundiais são tratadas pelo complexo desportivo como “regras de alto risco” que devem ser extirpadas em nome da previsibilidade estatística.
- A Racionalidade dos “Negócios” da Copa: O prolongamento da permanência de seleções disruptivas no topo da competição tensionaria as cadeias de valor montadas pelos grandes fundos de investimento, detentores de direitos de transmissão globais, consórcios imobiliários e corporações transnacionais de apostas. O “império do caos” gerido pela governança privada da FIFA necessita de mercados consumidores previsíveis e de alta liquidez no centro do capitalismo global (Eixo Euro-Atlântico) para garantir o retorno dos mega-investimentos. A imprevisibilidade da genialidade popular é uma ameaça ao cálculo econômico.
A CONTRADIÇÃO DIALÉTICA DO AFUNILAMENTO
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│ SUPERESTRUTURA IDEOLÓGICA │ INFRAESTRUTURA MATERIAL │
│ • "Futebol como espaço de sonhos". │ • Maximização do valor de troca. │
│ • Visibilidade dos invisíveis. │ • Racionalidade estatística e risco0.│
│ • O drible como emancipação mística. │ • Eliminação da plasticidade popular.│
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SÍNTESE DA CONJUNTURA
A eliminação da magia garante a reprodução segura do capital,
evitando que a imprevisibilidade periférica ameace os negócios.
3. Mecanismos Multilaterais da ONU, Soberania Cultural e a Ordem Constitucional
A mercantilização absoluta de um patrimônio cultural imaterial da humanidade — como o futebol e o direito ao lazer das massas — entra em rota de colisão direta com os marcos normativos do Direito Internacional Público e com as salvaguardas da Organização das Nações Unidas contra o monopólio e a espoliação cultural.
Marcos Instrumentais Internacionais
- Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC – 1966) – Artigo 15º: Garante o direito de cada indivíduo de participar da vida cultural e de desfrutar dos benefícios do progresso científico e de suas aplicações. A apropriação privada e a padronização industrial das manifestações desportivas por cartéis transnacionais violam o direito dos povos de preservar e desenvolver suas identidades lúdicas e expressivas originais.
- Carta das Nações Unidas (1945) – Artigo 55º: Estabelece que a ONU promoverá soluções para os problemas internacionais econômicos, sociais, de saúde e conexos, bem como a cooperação internacional, cultural e educacional, visando à estabilidade e ao bem-estar, necessários para as relações pacíficas e amistosas entre as nações, baseadas no respeito ao princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos. A subordinação da representação nacional esportiva aos ditames financeiros de entidades privadas fere a simetria soberana preconizada pelo multilateralismo.
- Declaração sobre os Direitos dos Povos à Autodeterminação e ao Desenvolvimento (Resolução 41/128 da Assembleia Geral da ONU): Reafirma que o desenvolvimento cultural é um direito inalienável. O sufocamento do futebol hábil pela via do estrangulamento econômico ou de regulamentos que favorecem assimetricamente as ligas centrais e os impérios de mídia configura uma forma de dominação que impede a emancipação cultural do Sul Global.
O Anteparo Constitucional
No ordenamento jurídico brasileiro, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 estabelece princípios claros que colidem com a lógica do esporte puramente financeirizado:
- Artigo 217º: Determina que é dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-formais, como direito de cada um, priorizando a destinação de recursos públicos para a promoção do desporto educacional e, em casos específicos, do desporto de alto rendimento, resguardando a autonomia das entidades desportivas dirigentes e associações, mas sob o império da valorização social.
- Artigo 170º: Subordina a ordem econômica nacional aos ditames da justiça social, da defesa do consumidor e da função social da propriedade, princípios que são frontalmente agredidos quando o espetáculo consumido pelas grandes massas é convertido em um mecanismo predatório de extração de mais-valia e endividamento (através do mercado de apostas e pacotes de transmissão exclusivos).
4. Conclusão: O Despertar da Consciência Situacional
O encerramento da fase de afunilamento da Copa de 2026 funciona como uma densa lição de anatomia política para as grandes massas. A fumaça da empolgação patriótica ou do encantamento ingênuo dissipa-se diante da crueza de um torneio operado como linha de montagem fabril, onde os vencedores são os que melhor executam a tarefa de contenção, destruição e minimização do risco mercantil.
A resposta ao questionamento sobre “o que seria do império dos negócios se os invisíveis vencessem até o fim” reside na compreensão de que o capitalismo contemporâneo possui mecanismos de autocorreção estrutural. Ele não permite que a superestrutura cultural escape ao controle da base material. Caberá à práxis organizada das classes populares, no Brasil e no mundo, resgatar o esporte como território de emancipação, solidariedade e afirmação soberana, recusando-se a aceitar que os rumos de sua paixão coletiva continuem sendo ditados pelas planilhas de lucro dos mega-investidores transnacionais.
Referências Bibliográficas
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988.
- CHOMSKY, Noam. O Lucro ou as Pessoas? Neoliberalismo e Ordem Global. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. (Discussão sobre o complexo industrial e o controle das massas).
- MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013. (Análise sobre a subsunção do trabalho e a reificação).
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Carta das Nações Unidas. São Francisco, 1945.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Nova York, 1966.
- VAZ, Alexandre Fernandez. Esporte, Cultura e Sociedade. Florianópolis: Editora da UFSC, 2004. (Análise da mercantilização e alienação no fenômeno desportivo).
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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