A Dialética do Soft Power no Futebol Multipolar: Cenários Estratégicos da Seleção Brasileira sob o Método MAPP

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo: O presente artigo analisa a Seleção Brasileira de Futebol como ator geopolítico estratégico e principal instrumento de soft power do Brasil no âmbito dos BRICS+. Sob a ótica do materialismo dialético e histórico, e utilizando o instrumental metodológico do Planejamento Estratégico Situacional (PES) e do Método de Alta Direção para o Planejamento Popular (MAPP), examina-se a contradição entre a essência cultural-identitária (o hino, o povo e o futebol habilidoso) e a lógica de acumulação do capital que transnacionaliza o esporte. Por fim, estruturam-se os cenários lineares (provável pessimista e provável otimista) e as rupturas dialéticas (as surpresas) que condicionam o destino dessa força de projeção global.

1. Introdução: O Futebol como Superestrutura e Instrumento Geopolítico

Na formulação clássica do materialismo histórico, as manifestações culturais, esportivas e ideológicas integram a superestrutura, condicionada em última instância pela infraestrutura econômica e pelas relações de produção. Contudo, a superestrutura não é um mero reflexo passivo; ela exerce uma retroalimentação dialética sobre a realidade material. No século XXI, o futebol consolidou-se como uma das arenas centrais da geopolítica do soft power (Nye, 2004).
Para o Brasil, membro fundador e núcleo identitário dos BRICS+, a Seleção Brasileira atua como um vetor de projeção de prestígio global que transcende a capacidade econômica ou militar estrita do Estado. Este artigo recorre ao Método MAPP e ao PES, formulados por Carlos Matus (1993), para decodificar o jogo de forças que envolve a Seleção no cenário contemporâneo, avaliando as suas vulnerabilidades, potencialidades e tendências.

2. A Tríade da Identidade como Força Produtiva Humana

O MAPP exige o mapeamento dos macroproblemas e dos recursos críticos do ator governante ou institucional. No caso do futebol brasileiro, a “tecnologia de produção” do jogo e a sua mística ancoram-se em três pilares dialeticamente interligados:

  • O Hino Nacional e o Sentimento de Pertença: O momento da execução do hino nacional deixou de ser um mero protocolo estatal para se transformar em um ritual de coesão social e afirmação soberana. Representa a manifestação ideológica da nacionalidade, unificando temporariamente uma formação social historicamente cindida por contradições de classe.
  • O Povo como Matriz Formadora: A base material do futebol habilidoso reside na criatividade popular, gestada nas periferias e nos espaços de lazer informal (o “futebol de várzea”). Diante da escassez material, o trabalhador brasileiro historicamente desenvolveu a resiliência e a plasticidade corporal expressas no drible. O povo é, simultaneamente, o produtor da força de trabalho futebolística e o principal consumidor afetivo desse produto.
  • O Futebol Hábil (O Jogo de Posição e de Ginga): A plasticidade estética e a eficiência técnica do atleta brasileiro operam como uma assinatura cultural diferenciada na divisão internacional do trabalho esportivo. No entanto, há uma contradição latente: a exportação precoce dessa força de trabalho para os centros hegemônicos do capital (Europa) tensiona a identidade original do jogo, submetendo o “futebol arte” à rigidez tática e burocrática do mercado europeu.

3. Análise Situacional de Cenários: O PESC-MAPP Aplicado

A aplicação do Planejamento Estratégico Situacional nos permite rejeitar o determinismo mecânico e abraçar a incerteza ativa através da construção de cenários. Diante dos desafios da Seleção Brasileira no ciclo atual, identificam-se três trajetórias situacionais:

3.1. O Cenário Provável Pessimista: A Alienação e a Subordinação Cultural

Neste cenário, a tendência de mercantilização total e a financeirização dos clubes e atletas aprofundam o distanciamento entre a Seleção e o seu povo. O alinhamento automático de dirigentes e atletas com as lógicas exclusivas do capital internacional esvazia o caráter de bem público do futebol. A perda do protagonismo tático e a incapacidade de renovar o futebol hábil face ao avanço do cientificismo europeu resultam no fracasso esportivo e na obsolescência do soft power brasileiro, convertendo a Seleção em uma engrenagem periférica e sem identidade no mercado globalizada.

3.2. O Cenário Provável Otimista: A Síntese Dialética e a Hegemonia Renovada

Aqui, opera-se uma síntese positiva entre a preservação da essência — o drible, a ginga e a paixão popular simbolizada na vibração do hino — e a modernização científica da preparação atlética. A Seleção Brasileira consegue absorver o rigor tático internacional sem extirpar a criatividade crioula de seu povo. Sob a liderança de novos expoentes técnicos, o Brasil reafirma a sua soberania nos gramados mundiais, utilizando as vitórias como um catalisador de orgulho nacional e como uma vitrine diplomática de um Sul Global vibrante, consolidando o prestígio do país no arranjo multipolar dos BRICS+.

3.3. As Surpresas (Dyrpresas): As Rupturas do Fluxo Linear

As surpresas no PES representam os eventos de baixa previsibilidade, mas de altíssimo impacto, capazes de reconfigurar o vetor de forças de forma abrupta:

  • Fracassos ou Sucessos Inesperados ante Novas Potências: A ascensão meteórica e surpreendente de seleções do Sul Global e do continente africano (como o Marrocos, que avança firmemente no cenário internacional da Copa do Mundo) reconfigura a geopolítica do futebol. Uma eliminação precoce do Brasil diante de um ator emergente altera o balanço tradicional de forças.
  • Boicotes e Tensionamentos Geopolíticos: A instrumentalização do esporte como arma de guerra híbrida ou sanção ideológica entre blocos ocidentais e os BRICS+ pode isolar atletas ou criar juízos de valor assimétricos na arbitragem e na governança da FIFA.
  • A Eclosão de Lutas Sociais internas no Esporte: Movimentos de base de atletas e torcedores que passem a exigir a democratização do acesso ao futebol, o combate estrutural ao racismo e a repatriação cultural do esporte, quebrando a passividade institucional da cartolagem.

4. Conclusão

A Seleção Brasileira não pode ser compreendida de forma isolada de suas condições materiais de existência. Ela representa um terreno de disputa ideológica e econômica vivo. O soft power gerado pelo futebol hábil, pelo hino e pelo povo é um recurso estratégico essencial para a inserção soberana do Brasil na ordem multipolar contemporânea. A aplicação do método PES-MAPP demonstra que o futuro do futebol brasileiro não está escrito: ele dependerá da capacidade do ator social e esportivo de superar as contradições do mercado e reencontrar as suas raízes históricas e populares.

Referências Bibliográficas

  • MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993.
  • MATUS, Carlos. O Método MAPP: Método de Alta Direção para o Planejamento Popular. São Paulo: Fundap, 1996.
  • MARX, Karl. Contribuição para a Crítica da Economia Política. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
  • NYE, Joseph S. Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: PublicAffairs, 2004.
  • SOUZA, Denaldo Alchorne de. O Brasil no Campo de Futebol: Institucionalização e a Dialética do Estilo. São Paulo: FFLCH/USP, 2010.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

Deixe um comentário