O Mito da Homogeneidade e a Biopolítica do Apagamento: Uma Análise Comparada do Racismo Estrutural no Futebol Argentino

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

Este artigo analisa o fenômeno da invisibilização da população negra na Argentina através de sua manifestação mais evidente na contemporaneidade: a composição demográfica de sua seleção nacional de futebol masculino. Utilizando o princípio epistemológico de que o critério da verdade de uma teoria é a sua verificação na prática concreta, confronta-se o discurso oficial da “identidade euro-argentina” com as dinâmicas de representação esportiva global. Em termos comparativos, enquanto nações europeias (França, Holanda, Espanha), asiáticas (Japão) e americanas (Brasil, Estados Unidos, Colômbia, Equador) refletem em seus elencos profissionais suas realidades migratórias, coloniais ou demográficas estruturais, a seleção argentina opera como um enclave de homogeneidade fenotípica. Conclui-se que a ausência de afrodescendentes no futebol de elite da Argentina não é um acidente estatístico, mas o resultado empírico de um projeto de Estado biopolítico assentado no embranquecimento populacional e no apagamento historiográfico.
Palavras-chave: Racismo Estrutural; Argentina; Futebol; Biopolítica; Análise Comparada.

Introdução

O axioma materialista de que a prática é o critério de verdade de qualquer formulação teórica exige que os fenômenos sociais sejam analisados a partir de suas manifestações concretas, e não das autojustificativas ideológicas das classes dominantes. No âmbito das relações étnico-raciais na América Latina, as narrativas nacionais oscilaram historicamente entre o mito da “democracia racial” assentada na mestiçagem (como no Brasil, Colômbia e Venezuela) e o mito da “excepcionalidade europeia” (como na Argentina).
Contudo, é no aparato superestrutural do esporte de massa — especificamente o futebol profissional e os torneios globais como a Copa do Mundo — que essas construções ideológicas são testadas pela realidade material. A Copa do Mundo funciona como uma vitrine geopolítica onde as dinâmicas demográficas, as heranças coloniais e os fluxos migratórios de cada Estado-nação são expostos publicamente.
Neste cenário, a seleção masculina de futebol da Argentina destaca-se globalmente por uma singularidade empírica: a virtual ausência de jogadores negros ou visivelmente afrodescendentes. O objetivo deste artigo é analisar as raízes históricas e biopolíticas dessa exclusão, utilizando o método comparativo para contrastar a práxis do futebol argentino com a de potências esportivas das Américas, Europa e Ásia.

1. O Projeto de Estado Argentino e a Biopolítica do Apagamento

Para compreender a ausência de representação negra na prática esportiva argentina atual, é necessário resgatar a transição demográfica operada pelo Estado no século XIX. Durante o período colonial e os primeiros anos da independência, a população de origem africana nas províncias do Rio da Prata era massiva, chegando a estimativas de até 50% em certas regiões e cerca de 30% a 40% na capital, Buenos Aires.
A redução drástica e a subsequente invisibilização dessa população decorreram de uma engenharia social deliberada, estruturada em três eixos materiais:

  1. Guerra e Conscrição: A utilização desproporcional de contingentes negros como “bucha de canhão” nas guerras de independência, nas guerras civis e, fundamentalmente, na Guerra do Paraguai (1864–1870), dizimando a população masculina em idade reprodutiva.
  2. Crises Sanitárias e Segregação: O abandono estatal da população negra em cortiços periféricos durante as epidemias de cólera e febre amarela (1871), resultando em taxas de mortalidade alarmantes.
  3. Imigração Alógena e Apagamento Censitário: A política explicitada no artigo 25 da Constituição Nacional de 1853, que ordenava o fomento estatal à imigração europeia. Intelectuais como Domingo F. Sarmiento e Juan Bautista Alberdi implementaram o paradigma da “Civilização ou Barbárie”, associando o progresso material à substituição étnica da população nativa (indígenas e negros) por imigrantes europeus.
    Nas estatísticas oficiais, o “embranquecimento” foi consolidado pela exclusão das categorias raciais nos censos demográficos subsequentes a 1895, operando o que a literatura sociológica classifica como “etnocídio estatístico”. Criou-se, assim, a superestrutura ideológica de uma nação puramente branca e europeia.

2. A Práxis Esportiva em Perspectiva Comparada

A validação de que a Argentina reproduz um racismo estrutural singular manifesta-se ao contrastar o seu elenco futebolístico com o de outros Estados-nação na arena internacional.

As Américas: Brasil, EUA, Colômbia e Equador

Nas Américas, onde a escravidão transatlântica foi a base do modo de produção colonial, a força de trabalho e a posterior inserção urbana das populações negras moldaram o esporte nacional.

  • No Brasil, a despeito das barreiras históricas do racismo institucional, os atletas negros e pardos tornaram-se a espinha dorsal da identidade do futebol e de suas conquistas mundiais.
  • Na Colômbia e no Equador, o futebol profissional serve como um dos principais vetores de mobilidade social e visibilidade para comunidades historicamente marginalizadas, como as do Pacífico colombiano e do Vale do Chota equatoriano.
  • Nos Estados Unidos, a diversidade do elenco reflete a composição de uma classe trabalhadora multirracial.
    Na Argentina, ao contrário, o racismo recreativo e institucionalizado nos estádios e a ausência de atletas negros nas categorias de base denunciam o bloqueio dessa via de inserção, perpetuando o mito de que “não há negros no país”.

A Europa: França, Holanda e Espanha

O contraste torna-se ainda mais agudo quando a Argentina é comparada às potências europeias que busca emular culturalmente.

  • As seleções da França e da Holanda são caracterizadas por uma composição majoritariamente multirracial e pluriétnica, reflexo direto do processo de descolonização tardia e da imigração de suas ex-colônias nas Antilhas, África e Suriname.
  • Mesmo a Espanha, historicamente mais homogênea, passou a incorporar filhos de fluxos migratórios contemporâneos em sua seleção principal.
    A Europa do futebol, portanto, expõe suas contradições coloniais e migratórias na formação de suas equipes. A Argentina, ao manter uma equipe fenotipicamente homogênea, revela que seu projeto de apagamento foi mais radical do que as realidades pós-coloniais das metrópoles europeias.

O Caso do Japão

A comparação com o Japão é metodologicamente pedagógica. Trata-se de uma nação que historicamente se estruturou sob o mito da homogeneidade étnica e isolamento cultural. Contudo, na prática contemporânea do esporte, o Japão passou a convocar e integrar atletas hafu (indivíduos com ascendência mista, incluindo afrodescendentes e ocidentais) tanto no futebol quanto no atletismo e basquetebol. Se mesmo um Estado culturalmente insular responde às dinâmicas da globalização e da diversificação demográfica no esporte, a imobilidade fenotípica da seleção argentina evidencia a rigidez de seu filtro racial interno.

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| MODELOS DE REPRESENTAÇÃO NO FUTEBOL GLOBAL |
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| PAÍS / REGIÃO | MATRIZ HISTÓRICO-DEMOGRÁFICA | REFLEXO NA SELEÇÃO |
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| Brasil, Colômbia, | Escravidão colonial e | Ampla presença e |
| Equador, EUA | segregação territorial | protagonismo negro |
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| França, Holanda, | Imperialismo, descolonização | Composição pluriétnica|
| Espanha | e fluxos migratórios modernos | e multicultural |
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| Japão | Insularidade histórica; | Abertura progressiva |
| | globalização contemporânea | a atletas multirraciais|
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| ARGENTINA | População negra expressiva | Homogeneidade branca; |
| | extirpada por projeto estatal | apagamento sistêmico |
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3. Conclusão

A aplicação do critério da prática demonstra que a seleção argentina de futebol funciona como o sintoma estético de uma patologia estrutural profunda. A homogeneidade do elenco não reflete uma “ausência natural” de populações negras no território, mas sim a eficácia de longo prazo de um projeto biopolítico de Estado que combinou a eliminação física, a exclusão estatística e o silenciamento cultural.
Enquanto o restante do mundo ocidental — e mesmo nações historicamente fechadas como o Japão — lida com suas contradições demográficas e raciais de forma aberta nos gramados, a Argentina permanece ancorada na reprodução de uma fantasia eurocêntrica do século XIX. A invisibilidade dos afro-argentinos no esporte de elite é a materialização da tese de que o racismo institucional naquele país opera não apenas pela segregação, mas pela negação absoluta da existência do Outro racializado.

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