Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
O presente artigo analisa a transição estrutural e o avanço da computação inteligente na República Popular da China entre os anos de 2025 e 2026 sob a categoria teórica de Economia de Projetamento. Estabelece-se um contraponto analítico entre o modelo chinês de indução estatal e a trajetória histórica das economias ocidentais. Argumenta-se que a capacidade de coordenar o desenvolvimento tecnológico de ponta com metas ecológicas vinculantes confere à formação econômico-social chinesa uma racionalidade de planejamento superior à anarquia de mercado que caracteriza o capitalismo ocidental financeirizado.
Palavras-chave: Economia de Projetamento; Transição Ecológica; Computação Inteligente; Desenvolvimento Comparado.
1. Introdução
A análise do desenvolvimento econômico contemporâneo exige a superação de categorias dicotômicas rígidas. A inserção da China na vanguarda da quarta revolução industrial e da transição energética global não pode ser satisfatoriamente explicada pela lente da economia de mercado pura. Adota-se, neste estudo, o conceito de Economia de Projetamento para definir a atual fase da formação social chinesa, na qual o Estado subordina a lógica mercantil a projetos deliberados de longo prazo, transformando a ciência e a tecnologia em forças produtivas diretamente planejadas. O objetivo deste artigo é examinar como a fusão entre a manufatura avançada, as metas de neutralidade carbônica e o salto na computação inteligente configura um novo modelo de soberania material, contraposto ao histórico de desindustrialização e financeirização do Ocidente.
2. O Histórico Ocidental: Externalização e Anarquia de Mercado
As economias capitalistas centrais (Estados Unidos e Europa Ocidental) historicamente fundamentaram sua industrialização na queima massiva de combustíveis fósseis, transferindo os custos ambientais para a periferia global. Com o advento do neoliberalismo a partir da década de 1980, essas nações promoveram a desindustrialização de suas economias, transferindo as etapas poluentes da cadeia produtiva para o Sul Global e concentrando-se no setor de serviços financeiros.
Na atual transição tecnológica, o modelo ocidental de desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) e da supercomputação replica essa lógica de mercado. A expansão de grandes centros de processamento de dados (datacenters) por corporações privadas ocorre de maneira anárquica, colidindo com a infraestrutura energética privatizada e envelhecida de seus países de origem, o que resulta em um aumento indesejado na queima de fontes fósseis para sustentar operações majoritariamente voltadas à especulação algorítmica e à monetização de dados de consumo.
3. A Economia de Projetamento Industrial, Ecológica e Computacional
A República Popular da China, em contrapartida, demonstra a viabilidade de internalizar os limites ecológicos do crescimento por meio da planificação. A produção industrial de valor agregado manteve expansão contínua em 2025 (5,9%), operando uma substituição qualitativa de plantas fabris tradicionais por indústrias automatizadas de alta tecnologia.
+-----------------------------------------------------------------------+| ECONOMIA DE PROJETAMENTO || || [Planejamento de Estado] -> Coordenador Central || │ || ├─► Alta Tecnologia Industrial (Indústria 4.0) || ├─► Transição Energética (Meta de Carbono Neutro 2060) || └─► Infraestrutura Informacional (Supercomputação Verde) |+-----------------------------------------------------------------------+
A sustentabilidade do parque manufatureiro chinês apoia-se em dois eixos coordenados pelo Estado:
- Matriz de Energia Limpa e Economia Circular: A substituição planejada do carvão por fontes renováveis e a implantação de complexos de transformação de resíduos sólidos em energia a 850°C evidenciam a conversão material da indústria.
- Soberania Computacional Verde: A implantação do macroprojeto estratégico de transferência de recursos de computação do leste para o oeste (East-to-West Computing Resource Transfer) descentralizou espacialmente a infraestrutura de dados. Polos de supercomputação em larga escala, como o de Guizhou, utilizam fontes renováveis regionais para alimentar capacidades computacionais que atingiram marcas históricas de exaflopps, destinadas prioritariamente ao avanço científico, à simulação climática, ao controle de poluição de águas subterrâneas e ao desenvolvimento de semicondutores endógenos.
4. Análise de Paralaxe das Forças Produtivas Contemporâneas
Ao observar o fenômeno em paralaxe, constata-se uma inversão histórica nas posições globais de soberania produtiva. O Ocidente, refém do curto-prazismo de suas estruturas acionárias, perdeu o controle sobre elos fundamentais da cadeia de suprimentos de tecnologia limpa e semicondutores.
A China, utilizando a infraestrutura da economia de projetamento, logrou neutralizar o cerco tecnológico ocidental. A computação inteligente atua não como um fim financeiro em si, mas como o meio de produção regulador de toda a atividade econômica e ecológica do país. A capacidade do Estado de processar zettabytes de dados industriais em tempo real mitiga o problema clássico da escassez de informações para o planejamento econômico, aproximando a planificação central de uma eficiência preditiva sem precedentes.
5. Conclusão
O avanço multidimensional da China consolida a transição das forças produtivas globais em direção a um novo paradigma. A comparação histórica demonstra que, enquanto o modelo econômico ocidental exibe sinais de exaustão estrutural devido à incapacidade de coordenar o desenvolvimento tecnológico com a estabilidade climática e a soberania material, a economia de projetamento oferece uma alternativa empírica de governança econômica. A subordinação do progresso técnico (IA, supercomputação e energia fotovoltaica) ao controle público de longo prazo constitui a premissa necessária para a superação das contradições ecológicas e industriais da modernidade.
Referências Bibliográficas
- JABOUR, Elias; GABRIELE, Alberto. China: O socialismo do século XXI. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2021.
- JABOUR, Elias; DANTAS, Alexis; GABRIELE, Alberto. A Economia de Projetamento: notas sobre uma categoria teórica em construção. Revista de Economia Contemporânea, v. 26, 2022.
- LOSURDO, Domenico. A luta de classes: uma história política e filosófica. São Paulo: Boitempo, 2015.
- MAZZUCATO, Mariana. O Estado Empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado. Rio de Janeiro: Portfolio-Penguin, 2014.
- REVISTA FÓRUM. O impressionante recorde da China em computação inteligente, segundo dados oficiais. Seção Economia e Geopolítica, 2026.
- XINHUA. White Paper on China’s Digital Economy Development and Computing Power Infrastructure. Beijing: State Council Information Office, 2025/2026.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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