Por José Evangelista Rios da Silva
Introdução: O Futebol como Campo de Disputa Superestrutural
O futebol contemporâneo, analisado sob a lente da economia política crítica e da paralaxe classista, constitui um dos mais nítidos palcos de tensionamento entre a infraestrutura econômica capitalista e as manifestações culturais da superestrutura. Longe de ser um mero epifenômeno do entretenimento burguês, o esporte das massas expressa uma contradição dialética viva: de um lado, o pragmatismo geométrico, ultra-racionalizado e financeirizado do capital imperialista estadunidense; de outro, a genialidade rústica, a imprevisibilidade tática e o engajamento orgânico das massas trabalhadoras globais.
Este artigo analisa a investida contemporânea das corporações norte-americanas sobre a governança e a estética do futebol global como um sintoma da crise de hegemonia do chamado “Império do Caos”. Na tentativa de recapturar sua unipolaridade perdida, o capital transnacional busca domesticar o jogo por meio de métricas abstratas e modelos de negócios cartelizados (franquias). Todavia, essa ofensiva esbarra nos limites materiais da própria práxis esportiva: a insubmissão do talento popular e a identidade comunitária indissociável do esporte de massas.
1. O Pragmatismo do Capital Imperialista e a Reificação do Espetáculo
A penetração de fundos de private equity, consórcios transnacionais e conglomerados de mídia dos Estados Unidos no futebol europeu e sul-americano obedece à lógica da acumulação flexível e da financeirização da cultura. O modelo esportivo historicamente desenvolvido nos EUA — estruturado em ligas fechadas, ausência de rebaixamento e primazia do sportainment (fusão entre esporte e entretenimento de massa) — busca a eliminação deliberada do risco econômico inerente à competição aberta.
Sob a égide do capital financeiro, o jogo sofre um processo de reificação (coisificação):
- A Abstração Estatística (Datafication): A transformação da agência do atleta em dados puros (data analytics) e métricas de rendimento comercializáveis. Busca-se prever e padronizar o comportamento no gramado para otimizar o retorno sobre o investimento, reduzindo o futebol a uma fórmula de engenharia financeira.
- A Desterritorialização das Identidades: A tentativa de desconectar os clubes de suas bases associativas operárias e territoriais originais para transformá-los em marcas globais abstratas, direcionadas ao consumo de uma classe média mundializada e despolitizada.
A CONTRADIÇÃO DIALÉTICA DO GRAMADO
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│ TESE: O Pragmatismo do Capital │ ANTÍTESE: A Práxis das Massas │
│ • Modelos de franquias fechadas. │ • Identidade comunitária e de classe.│
│ • Eliminação do risco econômico. │ • O imprevisto, o drible, a ginga. │
│ • Redução do atleta a dados e ativos.│ • Engajamento passional e coletivo. │
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SÍNTESE SITUACIONAL (2026)
O impasse material: o capital controla os direitos de difusão,
mas permanece dependente da genialidade popular irredutível.
2. A Genialidade Imprevisível como Negação da Norma Dialética
A falha estrutural do projeto imperialista de domesticação do futebol reside na natureza ontológica do jogo. O futebol é uma modalidade caracterizada pelo dinamismo contínuo e pela alta complexidade tática, onde o drible, a finta e a intuição criativa operam como a negação viva do pragmatismo corporativo.
A genialidade de atletas moldados nas periferias materiais do capitalismo (nos campos de terra do Sul Global) representa a irrupção do fator humano imprevisível contra a rigidez do algoritmo. O drible não é apenas um recurso estético; é uma solução dialética espontânea para um problema geométrico imposto pelo sistema defensivo adversário. Enquanto o manual do capital exige eficiência passiva, o toque de letra, a jogada improvisada e a ruptura do desenho tático restabelecem a soberania da criatividade popular sobre a máquina de acumulação.
Essa imprevisibilidade técnica sabota a previsibilidade financeira das transmissões e dos mercados de apostas, reafirmando que o valor de uso do esporte (o prazer estético e a catarse coletiva) resiste à subsunção total ao seu valor de troca.
3. O Envolvimento de Massas frente à Decadência Hegemônica Unipolar
A investida dos EUA sobre os ecossistemas da FIFA e das confederações continentais acelera-se no mesmo momento histórico em que o império experimenta o declínio de seu poder econômico e militar no cenário internacional. Diante do avanço da multipolaridade, o controle sobre os grandes fluxos de circulação cultural converte-se em uma prioridade de soft power.
Contudo, o engajamento das massas trabalhadoras com o futebol não se processa de forma passiva como o consumo de um produto industrial genérico. A relação das torcidas organizadas e das comunidades com seus pavilhões é de natureza afetiva, histórica e identitária. Quando o capital estadunidense tenta impor iniciativas como a elitização radical dos estádios, a mudança de escudos heráldicos para fins de marketing ou a criação de ligas exclusivas para os clubes mais ricos, a resposta das massas frequentemente assume contornos de contestação política direta.
A salvaguarda do futebol como patrimônio material e imaterial dos povos se assenta nessa resistência cotidiana, que se recusa a aceitar a transformação do torcedor em mero usuário de plataformas digitais ou cliente consumidor em arenas higienizadas.
Considerações Finais: O Limite da Colonização Cultural
A análise em paralaxe do atual estágio de desenvolvimento do futebol internacional revela que o pragmatismo do capital imperialista estadunidense e decadente encontra no gramado um limite material intransponível. Embora os fundos de investimento e as corporações transnacionais consigam adquirir o controle acionário das sociedades anônimas desportivas e monopolizar os canais de difusão via streaming, eles permanecem estruturalmente dependentes da matéria-prima que não podem fabricar em laboratório: a genialidade indomável do atleta e a paixão incondicional das massas.
O futebol, portanto, afirma-se como um território de insubmissão permanente. Cada vez que um atleta subverte a rigidez tática por meio de um lance genial ou que uma multidão ocupa as arquibancadas para cantar sua identidade de classe, desmorona a pretensão unipolar de controle absoluto sobre a cultura. A emancipação definitiva do esporte das amarras do capital continua sendo uma tarefa histórica ligada à emancipação geral das próprias massas trabalhadoras que o criaram.
Referências Bibliográficas
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- HARVEY, David. Condição Pós-Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 2008.
- MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
- MASCARENHAS, Gilmar. Entradas e bandeiras: a geografia do futebol brasileiro. Rio de Janeiro: UERJ, 2014.
- SOUZA, Denizar dos Santos. A economia política do esporte-espetáculo: financeirização e apropriação cultural na periferia do capital. Revista de Estudos Críticos do Esporte, v. 15, n. 3, p. 112-135, 2024.
- WALLERSTEIN, Immanuel. O declínio do poder americano: os EUA num mundo em transição. Contraponto: Rio de Janeiro, 2004.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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