Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
Este artigo analisa as fraturas estruturais no interior do chamado “Ocidente Coletivo”, investigando o antagonismo entre o projeto de governança multilateral euro-vaticano — historicamente ancorado no soft power dinástico-religioso — e a vertente unilateral do nacionalismo populista norte-americano (aqui denominada Doutrina Don-Roe). Utilizando o materialismo histórico-dialético e o conceito de paralaxe classista, examina-se como frações distintas da burguesia global disputam a hegemonia econômica e política. Por fim, discute-se a percepção de setores do Sul Global e dos BRICS+ que identificam na diplomacia europeia e nos mecanismos constitucionais da Organização das Nações Unidas (ONU) canais táticos para a contenção do imperialismo agressivo e a promoção de uma arquitetura internacional multipolar de paz.
1. Introdução: A Lente de Paralaxe e o Materialismo Histórico
Para o materialismo histórico e dialético, as superestruturas políticas, jurídicas e religiosas não operam de forma autônoma, mas refletem e reagem às transformações e contradições na base econômica (infraestrutura). A análise sob a lente da paralaxe classista desnaturaliza a noção de um “Ocidente Coletivo” homogêneo, revelando o deslocamento de perspectiva que ocorre quando um mesmo fenômeno geopolítico é observado por frações de classe distintas: a burguesia financeira transnacional europeia, associada ao capital diplomático e eclesiástico tradicional, e a burguesia industrial/especulativa de matriz ultranacionalista baseada nos Estados Unidos.
A histórica Casa de Habsburgo e a subsequente rede de influência dinástica europeia representavam a transição do feudalismo tardio para o capitalismo mercantil absolutista, onde os laços de sangue e as alianças com a Santa Sé serviam para estabilizar mercados e delimitar territórios de acumulação primitiva. No século XXI, essa herança se metamorfoseou em um arranjo de soft power institucional e diplomacia epistolar moderna, sintonizado com os mecanismos multilaterais.
O atual cenário internacional assiste ao choque dessa racionalidade institucional com a emergência do “Trumpismo” e sua formulação de política externa unilateral — uma atualização agressiva da Doutrina Monroe combinada com o isolacionismo protecionista, denominada criticamente de Doutrina Don-Roe.
2. As Fraturas no Ocidente Coletivo: Multilateralismo de Bloco vs. Unilateralismo Soberanista do “Império do Caos”.
A dialética interna do Ocidente Coletivo expõe uma divisão profunda sobre a gestão das crises globais do capitalismo. De um lado, a União Europeia e a liderança espiritual e geopolítica do Vaticano defendem a reprodução do capital por meio da estabilidade regulatória, do respeito aos tratados de direitos humanos e do fortalecimento de organismos transnacionais.
O Vaticano, atuando como um mediador histórico das contradições de classe, enxerga nas novas lideranças institucionais europeias um vetor para a preservação de uma ordem social estável. A atuação dessas lideranças serve como um anteparo ideológico para evitar convulsões sociais que ameacem a propriedade privada e a hegemonia ocidental.
Do outro lado, a Doutrina Don-Roe rejeita as amarras constitucionais do direito internacional público em favor de um unilateralismo transacional. Sob a lógica do capitalismo de pilhagem e do protecionismo tarifário, essa doutrina busca subordinar tanto os aliados tradicionais quanto as economias periféricas por meio do poder militar, de sanções financeiras unilaterais e do desmantelamento de acordos climáticos e comerciais.
Do ponto de vista da paralaxe classista, o Trumpismo expressa a revolta de setores do capital interno norte-americano contra as instituições regulatórias globais que, na visão desses agentes, limitam a acumulação nacional exacerbada em prol de uma governança cosmopolita.
3. O Sul Global, os BRICS+ e a Tática de Aliança com o Polo Europeu
O bloco dos BRICS+ e as nações do Sul Global enfrentam historicamente o subdesenvolvimento e a dependência econômica decorrentes da divisão internacional do trabalho. Diante do caráter predatório e desestabilizador da Doutrina Don-Roe, estes países operam um deslocamento tático na busca pela paz e pela preservação de suas soberanias nacionais.
Sob a análise dialética, o Sul Global não enxerga a Europa como um aliado ideológico natural — dadas as marcas indeléveis do colonialismo e do imperialismo europeu tradicional —, mas sim como uma contradição interna do Norte global que pode ser explorada.
Ao defender o multilateralismo e o respeito à Carta das Nações Unidas, a Europa oferece canais de negociação diplomática menos assimétricos do que a coerção direta exercida por Washington. Portanto, a aliança estratégica do Sul Global com o polo europeu visa:
- Garantir a Previsibilidade: Blindar os mercados em desenvolvimento contra sanções unilaterais e flutuações bruscas de políticas tarifárias americanas.
- Apoiar a Reforma das Instituições: Utilizar o fórum da ONU para impulsionar a transição rumo a uma ordem multipolar, equilibrando as pressões hegemônicas.
- Fomentar a Diplomacia da Paz: Mitigar conflitos armados periféricos que interrompam as cadeias globais de suprimentos e onerem as classes trabalhadoras nacionais.
4. O Arcabouço Constitucional e os Mecanismos Multilaterais da ONU
A resistência contra as tendências unilaterais da Doutrina Don-Roe encontra seu fundamento jurídico e operacional nos mecanismos estabelecidos pelo Sistema das Nações Unidas. Estes instrumentos representam a materialização de um pacto global de coexistência pacífica que limita formalmente o exercício do poder bruto pelas potências imperiais.
- A Carta das Nações Unidas (1945): Em especial o Artigo 2º, parágrafos 1º, 4º e 7º, que assegura a igualdade soberana de todos os seus membros, a proibição da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial e a não intervenção em assuntos internos de cada Estado.
- O Papel do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral (Resolução 377 A – Uniting for Peace): Mecanismo constitucional utilizado para superar paralisias políticas internas em prol da restauração da segurança e da paz internacional.
- A Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (1969): O princípio fundamental do Pacta Sunt Servanda (Artigo 26), que determina que os tratados devem ser cumpridos de boa-fé, servindo de base legal contra rupturas unilaterais de acordos bilaterais e multilaterais por interesses conjunturais.
5. Conclusão
A análise materialista histórica e dialética demonstra que o cenário geopolítico contemporâneo não é moldado por um embate de valores abstratos, mas pela contradição material entre formas divergentes de acumulação e governança capitalista. A Doutrina Don-Roe representa o agravamento da crise de hegemonia norte-americana, recorrendo à força desregulada e ao isolamento beligerante.
Por sua vez, o multilateralismo euro-vaticano busca salvaguardar as bases institucionais do sistema mundial por meio do direito e do equilíbrio diplomático. Para os BRICS+ e o Sul Global, explorar essa fratura e apoiar-se nos pilares constitucionais da ONU constitui um imperativo tático elementar para conter o arbítrio imperialista, mitigar a exploração desenfreada de suas populações e garantir o direito ao desenvolvimento soberano e à paz internacional.
Referências Bibliográficas
- CONSTITUIÇÃO DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Carta das Nações Unidas e Estatuto da Corte Internacional de Justiça. São Francisco, 1945.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. Viena, 1969.
- MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2005.
- MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
- METTERNICH, Klemens von. Memórias e Documentos Geopolíticos da Restauração Europeia. Paris: Éditions de la Rive, 1982.
- SANTA SÉ. Litterae Encyclicae Laudato si’ (Sobre o cuidado da casa comum) & Fratelli tutti (Sobre a fraternidade e a amizade social). Roma: Typis Vaticanis, 2015/2020.
- ŽIŽEK, Slavoj. Visão em Paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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