Símbolos Abstratos vs. Práxis Popular: A Tríplice Conjuntura (Copa, Eleições e o Dois de Julho) sob a Ótica do Materialismo Dialético

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo: O presente ensaio analisa o agendamento concomitante de três marcos de mobilização de massa — a Copa do Mundo da FIFA de 2026, as celebrações do Dois de Julho na Bahia e o período de transição para as eleições gerais — sob as lentes teóricas da paralaxe de classe e do materialismo histórico-dialético. Investiga-se como a apropriação dos símbolos nacionais tensiona a clivagem histórica entre a “ideologia de coesão” formulada pelas elites do atraso e a “práxis de sobrevivência e emancipação” executada pela classe trabalhadora. Sob o suporte metodológico do Planejamento Estratégico Situacional (PES) e do Método de Alta Direção (MAPP), identificam-se as assimetrias cognitivas e as operações de resistência passiva que as massas populares exercem frente a um aparato simbólico estatal estruturado sob a lógica do “inimigo interno”.

Introdução: O Objeto em Paralaxe e a Tríplice Conjuntura

No cenário contemporâneo, a sobreposição temporal entre a Copa do Mundo de Futebol de 2026, o ciclo cívico da Independência Popular da Bahia (o Dois de Julho) e as preliminares das eleições gerais recoloca no centro do debate sociológico e político a disputa pela hegemonia dos símbolos nacionais. Longe de constituir uma coincidência fenomênica ou meramente festiva, este nó de eventos atua como um acelerador de contradições sociais estruturais.
Para compreender o que de fato mobiliza os corações e mentes da diversificada e historicamente precarizada população brasileira, faz-se indispensável o exercício da paralaxe de classe: o ato epistemológico de deslocar a observação do ponto cego burguês para a perspectiva material da classe trabalhadora. Enquanto a elite agroexportadora, financeira e burocrática — aqui designada em termos sociológicos contemporâneos como a “elite do atraso” (SOUZA, 2017) — enxerga os símbolos nacionais como ferramentas monolíticas de pacificação social e contenção de classes, a massa trabalhadora processa esses mesmos símbolos a partir de suas carências materiais e de suas experiências concretas de subalternidade e insurgência.

1. A Genealogia da Exclusão: O “Inimigo Interno” e os Símbolos Oligárquicos

A análise materialista histórica demonstra que os símbolos oficiais do Estado brasileiro (a bandeira nacional positivista e o hino nacional) foram gestados não como sínteses de um pacto social democrático, mas como marcas heráldicas e ideológicas de transições pelo topo. O pavilhão nacional, cujas raízes remetem às cores dinásticas das casas de Bragança e Habsburgo-Lorena, foi ressignificado pela oligarquia cafeeira da República Velha por meio do lema comtiano “Ordem e Progresso”. Trata-se de uma formulação conceitual cuja finalidade primordial era subordinar a classe trabalhadora fabril incipiente e a massa de negros recém-saídos da escravidão a um projeto de modernização capitalista conservadora.
Historicamente, o desenho institucional de Defesa e Segurança Pública no Brasil consolidou a doutrina do inimigo interno. Na incapacidade de construir uma coesão nacional baseada na distribuição material da riqueza e na universalização de direitos constitucionais, as elites governantes elegeram a própria população trabalhadora e as suas manifestações de descontentamento como alvos a serem vigiados, enquadrados e, no limite, eliminados. Consequentemente, para a maioria do povo, os símbolos cívicos oficiais operaram historicamente mais como insígnias de coerção estatal (associadas à burocracia, ao aparato policial e à conscrição militar compulsória) do que como mantos de proteção social.
Quando pesquisas ou enquetes de rua revelam o desconhecimento ou o alheamento do cidadão comum em relação aos dísticos da bandeira, a sociologia liberal apressadamente qualifica o fenômeno como “déficit educacional” ou “alienação cívica”. Trata-se de um erro de diagnóstico. Sob o materialismo dialético, esse aparente esquecimento configura uma resistência passiva e um distanciamento orgânico: o trabalhador recusa-se a internalizar cognitivamente abstrações que não possuem correspondência em sua práxis de sobrevivência econômica cotidiana.

2. A Dialética do Esporte: A Copa do Mundo e a Mercantilização do Sentimento Nacional

A Copa do Mundo de Futebol introduz um elemento de forte apelo psicossocial na conjuntura. O futebol, historicamente apropriado pelas classes subalternas como espaço de afirmação estética e cultural, sofreu profundos processos de gentrificação e mercantilização ao longo das últimas décadas. A substituição da identidade comunitária pelo fetiche da mercadoria esportiva transformou a camisa da seleção e o pavilhão nacional em produtos de consumo ou em marcas associadas a entidades privadas corporativas, como a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Dialeticamente, o sentimento de unidade gerado pelo torneio esportivo opera em duas bandas:

[Símbolo Nacional na Copa do Mundo]
├─► Visão das Elites / Mercado: Coesão Abstrata, Consumo e Apaziguamento de Conflitos
└─► Vivência Popular: Catarse Coletiva, Orgulho de Origem e Identificação Comunitária

Durante o certame internacional, a população trabalhadora transborda uma alegria genuína e uma coesão que não decorrem da submissão à ordem estatal ou ao ideário burguês, mas sim da catarse coletiva e do orgulho de suas potencialidades criativas. Contudo, essa unidade é efêmera e flutuante; ela não possui base material permanente. Ao término do evento esportivo, as contradições de classe reemergem de forma crua, dissolvendo a ilusão de harmonia interclassista projetada pelas redes de comunicação e pelo capital comercial.

3. O Dois de Julho na Bahia: A Práxis Histórica da Identidade Viva

Em antítese radical aos monumentos heráldicos de bronze — que servem de paisagem inerte nas capitais e de receptáculo para dejetos urbanos, por estarem desprovidos de sentido para as massas —, o cortejo do Dois de Julho na Bahia emerge como exemplo paradigmático de memória histórica viva e de apropriação de classe.
A historiografia crítica (REIS, 1989; PIMENTA, 2009) atesta que a consolidação da Independência do Brasil na Bahia em 1823 não se operou por meio de arranjos palacianos, mas sim pela via do conflito armado popular, protagonizado por negros escravizados, libertos, indígenas, sertanejos e segmentos pauperizados da província. A figura icônica do Carro da Cabocla e do Caboclo centraliza o sentimento de coesão nacional de baixo para cima.
Diferente das estátuas frias que consagram as lideranças oligárquicas, os heróis do Dois de Julho são aclamados com devoção sincrética e orações. Há aqui uma fusão entre a memória da opressão derrotada e a espiritualidade popular. Esse fenômeno demonstra que o povo trabalhador possui, sim, capacidade de coesão e reverência cívica, desde que o símbolo examine e dialogue com o seu próprio flanco de vulnerabilidade histórica. O Dois de Julho “coça onde deve coçar”: ele evoca a ruptura com a subalternidade e celebra a agência histórica do próprio povo oprimido.

4. Diagnóstico Situacional sob as Matrizes PES/MAPP e PAID/MAPE

A transição para as eleições gerais exige que as forças populares realizem um diagnóstico situacional preciso a partir das metodologias de Planejamento Estratégico Situacional (PES) de Carlos Matus e suas derivações operacionais, como o MAPP (Método de Alta Direção de Planejamento Popular).
Sob a análise de macroproblemas, o distanciamento do povo em relação aos símbolos pátrios e o ódio manifestado pelas classes dominantes contra as formas populares de expressão configuram um Vetor de Macroproblema (VMP) que pode ser decomposto em nós críticos estruturais:

Dimensão Metodológica (PES/MAPP)Análise da Conjuntura Atual (Copa / Eleições / Civismo Popular)
Nó Crítico EstruturalMonopólio burguês dos meios de produção simbólica e esvaziamento da cidadania material real.
Flanco de Vulnerabilidade da EliteIncapacidade crônica de gerar coesão social sem o uso da força ou da alienação mercantil, gerando fobia social do próprio povo (aporofobia).
Operação Estratégica NecessáriaTerritorialização do debate político, substituindo o nacionalismo abstrato pela valorização das agendas históricas locais e populares (ex: modelo do Dois de Julho).
Atores em DisputaElite do atraso (controle financeiro/midiático) vs. Massa heterogênea e complexa da classe trabalhadora (organizações de base/militância).
A partir do instrumental PAID/MAPE (Planejamento Aberto e Interativo para o Desenvolvimento / Método de Apoio ao Planejamento Estratégico), o cenário eleitoral que se aproxima explicita a fragilidade da articulação hegemônica das elites. Ao classificarem historicamente o povo como ignorante ou desprovido de patriotismo, as classes dominantes revelam o seu próprio isolamento situacional. A tática da elite consiste em tentar confinar o debate político à pureza das formas institucionais abstratas e ao espetáculo esportivo.
A contraestratégia classista, portanto, exige a repolitização dos símbolos a partir da materialidade. Capturar o coração e a mente da população trabalhadora no atual contexto eleitoral não se dará pela via da reprodução da estética cívica tradicional, mas pela vinculação direta dos direitos constitucionais e da soberania nacional às demandas concretas de subsistência, trabalho, salário e dignidade histórica.

Conclusão

A tríplice conjuntura composta pela Copa do Mundo, pelas comemorações do Dois de Julho e pelo processo eleitoral de 2026 expõe a fratura exposta da formação social brasileira. Os símbolos nacionais abstratos, criados pelas oligarquias para legitimar o controle do Estado e a contenção do “inimigo interno”, mostram-se incapazes de forjar uma unidade nacional genuína e duradoura. O aparente alheamento das massas diante desses fetiches institucionais não é fruto de incapacidade cognitiva, mas sim o reflexo da distância material entre as promessas da Pátria burguesa e a realidade da exclusão socioeconômica.
Inversamente, a experiência histórica do Dois de Julho baiano aponta o caminho para a emancipação: a coesão social autêntica só se constrói quando o símbolo é gerado na luta, quando reflete o rosto da diversidade popular e quando se traduz em conquista concreta de direitos. Para a formação classista, a tarefa central no horizonte eleitoral não reside na disputa idealista pela pureza das bandeiras, mas na organização da práxis popular capaz de transformar a estrutura do poder, fazendo com que a soberania nacional deixe de ser um lema de dominação oligárquica e passe a ser a expressão material da libertação do povo trabalhador.

Referências Bibliográficas

  • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Senado Federal, 1988. (Artigos 1º, 3º e 13º – Dos Princípios Fundamentais e dos Símbolos Nacionais).
  • MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993.
  • MATUS, Carlos. Teoria do Jogo Social. São Paulo: FUNDAP, 2005.
  • PIMENTA, João Paulo. A Independência do Brasil e a experiência histórica baiana. São Paulo: Hucitec, 2009.
  • REIS, João José. “O jogo duro do Dois de Julho: o ‘Partido Negro’ na independência da Bahia”. In: REIS, João José; SILVA, Eduardo (Orgs.). Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 79-98.
  • SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: da escravidão a Bolsonaro. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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