Entre o Campo e a Trincheira: A Dialética de Vertières, a Batalha de Narrativas e a Geopolítica do Entretenimento na Copa do Mundo

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

O presente artigo analisa as tensões decorrentes da tentativa de inserção da iconografia da Batalha de Vertières (1803) no uniforme da seleção haitiana de futebol e o subsequente veto imposto pela Federação Internacional de Futebol (FIFA). Sob a lente do materialismo histórico e da teoria da paralaxe, o trabalho examina como os processos de colonização e descolonização das Américas permanecem como fraturas abertas na contemporaneidade. Discute-se o papel dos grandes eventos globais, como a Copa do Mundo, como palcos de uma guerra de narrativas em que a superestrutura corporativa mercantiliza e, simultaneamente, neutraliza a memória histórica dos povos oprimidos, confrontando as diretrizes de soberania cultural respaldadas pelos mecanismos multilaterais da Organização das Nações Unidas (ONU).

Introdução

A história das Américas é marcada pela violência fundacional do colonialismo de exploração e de povoamento, um processo que buscou não apenas a extração de mais-valia e riquezas naturais, mas a destituição ontológica e cultural dos povos originários e das populações escravizadas trazidas pelo tráfico transatlântico. No epicentro dessa engrenagem, a Revolução Haitiana (1791–1804) representou a contradição mais radical do sistema-mundo moderno-colonial: a insurgência dos escravizados que, ao tomarem para si os pressupostos iluministas de liberdade, implodiram a base econômica e racial da dominação francesa.
Recentemente, a tentativa da fornecedora de material esportivo da seleção de futebol do Haiti de estampar no uniforme uma ilustração da Batalha de Vertières (1803) — o confronto decisivo que selou a independência da primeira república negra do mundo — gerou um tensionamento geopolítico e estético. O subsequente veto da FIFA, sob a alegação de infração às normas contra manifestações políticas, expõe uma persistente guerra de narrativas. Este artigo propõe analisar esse fenômeno a partir da perspectiva da paralaxe — o deslocamento aparente de um objeto quando observado de duas linhas de visão diferentes —, demonstrando como o esporte de massas opera como um aparato ideológico que oscila entre a mercantilização da identidade e o apagamento da memória histórica revolucionária.

1. A Paralaxe Histórica de Vertières: O Encontro das Opressões Periféricas

A Batalha de Vertières não é um evento isolado, mas o ponto de inflexão onde as contradições do expansionismo napoleônico ruíram diante da organização popular. O envio de legiões polonesas por Napoleão Bonaparte, em 1802, para sufocar a revolução em São Domingos (atual Haiti) introduz um elemento de profunda complexidade dialética.
A Polônia, à época, havia sido partilhada e apagada como Estado soberano pelas potências absolutistas europeias (Rússia, Prússia e Áustria). Os soldados poloneses alistaram-se no exército napoleônico sob a promessa de que o apoio à França resultaria na restauração de sua própria pátria. Instaurou-se, assim, uma paralaxe histórica: um contingente de indivíduos pertencentes a uma nação oprimida na Europa foi mobilizado transoceanicamente para atuar como braço armado do opressor colonial contra outro povo em luta por libertação.
O deslocamento de perspectiva ocorre no terreno concreto da práxis. Ao testemunharem a brutalidade do regime colonial francês e a legitimidade da resistência haitiana, setores significativos das tropas polonesas desertaram. Rompeu-se a falsa simetria institucional e emergiu uma solidariedade baseada na condição partilhada de submissão ao imperialismo. O reconhecimento desse alinhamento foi consolidado na Carta Constitucional do Haiti de 1805, promulgada por Jean-Jacques Dessalines, que concedeu cidadania e estatuto de igualdade jurídica aos poloneses remanescentes. O “erro de design” no uniforme contemporâneo, que fundiu visualmente as cores e símbolos da independência haitiana com a bandeira polonesa, atualiza essa contradição, unindo graficamente duas trajetórias históricas que o eurocentrismo relegou às margens.

2. A Copa do Mundo como Aparelho Ideológico e a Neutralização da Memória

Os eventos esportivos globais, capitaneados por corporações transnacionais como a FIFA, constituem plataformas centrais da indústria do entretenimento contemporânea. Longe de serem espaços neutros de confraternização universal, funcionam como palcos onde se reproduz a lógica de acumulação capitalista e a hegemonia cultural.
A categoria de “neutralidade política”, acionada pela burocracia do futebol para vetar a iconografia da Batalha de Vertières, cumpre uma função ideológica precisa de ocultamento. Sob o pretexto de preservar o esporte de conflitos partidários ou ideológicos, as instâncias de governança despolitizam a história dos povos colonizados. Permite-se a manifestação de um nacionalismo abstrato e mercantilizado — traduzido em logomarcas, patrocinadores e estéticas padronizadas —, mas veta-se a representação concreta da violência colonial e da ruptura revolucionária.
A imagem de escravizados rebeldes derrotando uma potência imperial europeia é portadora de uma perigosidade inerente para a narrativa de conciliação global promovida pelo capital financeiro. A imposição do veto demonstra que o esporte de massas tolera a identidade cultural como commodity (mercadoria), mas a rejeita como fator de conscientização histórica e soberania política. A neutralidade corporativa revela-se, portanto, como uma tomada de posição: a manutenção do status quo e o apagamento do trauma e do triunfo anticolonial.

3. O Mecanismo Multilateral e o Direito à Memória Histórica

A tensão entre as diretrizes de uma entidade privada internacional (FIFA) e o direito do Haiti de estampar sua memória fundacional ecoa debates normativos no âmbito do direito internacional público e dos mecanismos multilaterais da Organização das Nações Unidas (ONU).
A proteção da identidade cultural, da memória histórica e do patrimônio imaterial dos povos que sofreram os processos de colonização encontra amparo em diversos instrumentos constitutivos internacionais. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), por meio da Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural (2001) e da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (2003), estabelece que a memória histórica é um direito inalienável dos povos e base para a sua dignidade e soberania.
Ademais, as resoluções da Assembleia Geral da ONU sobre a descolonização e o combate ao racismo estrutural (como as decorrentes da Declaração e Programa de Ação de Durban, 2001) preconizam que o reconhecimento do passado colonial e a reparação simbólica são fundamentais para a justiça internacional. Quando uma organização transnacional bloqueia a exibição de símbolos de libertação nacional em um evento de visibilidade global, ela opera em desconformidade com o espírito dos pactos multilaterais que visam garantir aos povos outrora colonizados o direito de narrar a sua própria história sem a tutela ou a censura do capital globalizado.

Conclusão

O episódio do veto ao uniforme da seleção haitiana de futebol condensa, na esfera da cultura de massas, as contradições não resolvidas da modernidade colonial. A Batalha de Vertières, vista sob a lente da paralaxe classista e histórica, desvela o caráter inacabado e doloroso dos processos de descolonização nas Américas. O Haiti, que historicamente pagou um preço desproporcional por sua ousadia pioneira — através de bloqueios econômicos, endividamentos forçados e intervenções —, continua a enfrentar o apagamento de sua memória nas arenas da globalização.
A guerra de narrativas travada em torno de uma camisa de futebol demonstra que o campo de jogo é também um território de disputa geopolítica. O resgate crítico desses episódios, amparado pelas estruturas normativas internacionais de direitos culturais e descolonização, faz-se indispensável para contrariar a tentativa de converter a história dos povos oprimidos em uma superfície lisa, apolítica e puramente comercializável.

Referências Bibliográficas

  • DURBAN. Declaração e Programa de Ação da Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. Durban: ONU, 2001.
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  • MIGNOLO, Walter D. Histórias Locais/Projetos Globais: Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
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  • UNESCO. Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural. Paris: UNESCO, 2001.
  • UNESCO. Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Paris: UNESCO, 2003.
  • ŽIŽEK, Slavoj. A Visão em Paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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