Por José Evangelista Rios da Silva
Introdução: O Fenômeno Esportivo sob a Lente da Paralaxe Classista
A Copa do Mundo de 2026 inscreve-se na história dos megaeventos não como um espaço idílico de congraçamento universal, mas como o sintoma estético e geopolítico mais agudo da crise estrutural do capitalismo tardio. Sob o método do materialismo histórico e dialético, a análise das formações sociais exige que desloquemos o olhar da superestrutura ideológica — a narrativa oficial da FIFA sobre a “união dos povos” — para as determinações materiais que assentam o espetáculo. Esse exercício de paralaxe classista revela a contradição fundamental entre a internacionalização das forças produtivas do espetáculo e o fechamento xenófobo das fronteiras nacionais pelo Estado imperialista.
Para apreender a totalidade dessa conjuntura, o instrumental do PESC-MAPP (Político, Econômico, Social, Cultural – Método Altadir de Planejamento Popular) permite mapear como o “Império do Caos” — os Estados Unidos, sob a égide de uma administração de extrema-direita liderada por Donald Trump — instrumentaliza o aparato de segurança interna para afirmar sua hegemonia, enquanto nações coadjuvantes como o México e o Canadá buscam canais de diferenciação política e salvaguarda multilateral frente ao isolacionismo belicista de Washington.
1. O Fio Dialético: De 2013 no Brasil ao Cenário Estadunidense de 2026
A efervescência política que sitia o torneio atual guarda conexões dialéticas profundas com o ciclo de lutas inaugurado no Brasil em 2013. Sob a lente do materialismo histórico, a campanha do “Não vai ter Copa” em solo brasileiro representou uma fratura tática: se, por um lado, brotou das legítimas demandas da classe trabalhadora contra a espoliação urbana e a submissão do Estado periférico aos cadernos de encargos da FIFA, por outro, foi capturada e instrumentalizada por frações da burguesia e pelo movimento articulado da extrema-direita para desestabilizar o pacto de classes então vigente, pavimentando o caminho para a ascensão do neofascismo e a institucionalização do desmonte de direitos sociais.
Em 2026, o cenário inverte-se e agudiza-se no centro do capitalismo global. A extrema-direita, agora aboletada no comando da maior potência bélica do planeta, não sabota o megaevento a partir de fora; ela o sequestra a partir de dentro, convertendo-o em uma vitrine de sua política de fricção migratória, racismo institucional e projeção de força.
Enquanto o Brasil de 2014 dobrou sua soberania constitucional para atender às exigências mercantis do capital transnacionalizado (corporificado na FIFA), os EUA de 2026 impõem a submissão da própria FIFA aos seus decretos de segurança e vetos geopolíticos, explicitando que a força político-militar do Estado imperial dita os limites da circulação do capital esportivo.
2. Análise Situacional: O Diagnóstico pelo PESC-MAPP
Dimensão Política (P) e o Isolamento do “Império do Caos”
A dimensão política do MAPP evidencia o choque entre o unilateralismo norte-americano e os mecanismos multilaterais reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). O governo dos EUA converteu o torneio em um laboratório de exclusão diplomática:
- A delegação do Irã — nação submetida a agressões militares e sanções unilaterais — foi submetida a um regime de exceção territorial, proibida de pernoitar em solo estadunidense e forçada a uma base logística em Tijuana, no México, cruzando a fronteira em um esquema humilhante de “bate-volta” para os dias de jogos.
- Vistos foram sumariamente negados a mais de uma dezena de membros da comissão técnica iraniana, incluindo o presidente de sua federação, Mehdi Taj, além do veto e deportação arbitrária de autoridades esportivas do Sul Global, como o árbitro somali Omar Artan.
Em contraposição à arrogância de Washington, o México (sob a presidência de Claudia Sheinbaum) e o Canadá emergem como polos de distensão política. Ao acolher a base iraniana e defender a isonomia esportiva, a diplomacia mexicana tensiona a rigidez imperialista, articulando-se em conformidade com os princípios de coexistência pacífica e autodeterminação dos povos preconizados pela Carta da ONU.Dimensão Econômica (E) e a Exploração da Força de Trabalho
A economia política da Copa de 2026 assenta-se na hipertrofia do lucro corporativo em detrimento da classe trabalhadora. A FIFA projeta uma arrecadação 75% superior à edição do Qatar, impulsionada pela expansão para 48 seleções. Todavia, a contradição dialética manifesta-se na economia real: a classe média e os trabalhadores estadunidenses enfrentam um cenário de severa inflação e custo de vida elevado (combustíveis, alimentos e serviços básicos). O direcionamento de fundos públicos para o financiamento de guerras por procuração e agressões imperialistas no Oriente Médio esvazia o poder de compra doméstico, transformando o megaevento em um enclave de consumo de luxo inacessível às massas.
Dimensão Social (S) e o Apartheid Migratório
A dimensão social revela a aplicação prática daquilo que a sociologia crítica denomina de “apartheid de fronteira”. Quatro nações qualificadas para o torneio (Irã, Haiti, Costa do Marfim e Senegal) encontram-se sob decretos de restrição migratória ou banimento de viagens impostos pela administração Trump. Torcedores dessas nacionalidades tiveram suas cotas de ingressos revogadas ou vistos negados. Trata-se da negação do direito à circulação cultural, cindindo o espetáculo: os atletas operam como força de trabalho alienada em estádios blindados, privados do suporte orgânico de suas classes e comunidades de origem.
Dimensão Cultural (C) e a Resistência Urbana
Culturalmente, o futebol é expropriado de seu sentido histórico de identidade popular e comunitária para ser convertido em mercadoria abstrata e espaço militarizado. Nas cidades-sede norte-americanas, a imposição de perímetros de exclusão e o cancelamento de zonas de celebração popular (fun zones) para a proteção de autoridades burguesas rompem a sociabilidade urbana.
As vaias massivas direcionadas a Donald Trump durante as finais da NBA no Madison Square Garden, em Nova York, funcionam como um poderoso indicador cultural: a classe trabalhadora urbana rejeita a estetização da política promovida pelo regime de extrema-direita e o uso do esporte como cortina de fumaça para o autoritarismo e a carestia econômica.3. Matriz de Forças e Contradições Conjunturais
Ator Estratégico Interesses de Classe Vetor de Ação no Torneio Contradição Dialética Estado Imperialista (EUA) Burguesia financeira e complexo industrial-militar. Vetos migratórios, demonstração de força e controle de fronteiras. O isolacionismo político sabota a universalidade exigida pelo mercado do espetáculo. FIFA / Capital Transnacional Aristocracia burocrática e corporações globais. Maximização do lucro e extração de mais-valia comercial. Submete-se ao arbítrio de Washington, perdendo autonomia institucional. México e Canadá Burguesias nacionais em busca de inserção soberana. Alinhamento com o multilateralismo e mediação diplomática. Buscam se diferenciar da arrogância dos EUA, mas dependem da infraestrutura do bloco econômico. Trabalhadores do Esporte (Periferia) Proletariado da bola e massas populares do Sul Global. Resistência logística, busca por isonomia e denúncia internacional. Produzem o valor do espetáculo, mas são submetidos a revistas humilhantes e barreiras geográficas. Considerações Finais: A Crise do Multilateralismo e a Resposta Classista
A análise em paralaxe classista demonstra que a Copa do Mundo de 2026 tornou-se a expressão geográfica das fraturas do imperialismo contemporâneo. Ao minar a igualdade de condições entre as nações e rasgar os protocolos de livre trânsito para fins humanitários e esportivos, o governo dos EUA golpeia os pilares do Direito Internacional e os mecanismos multilaterais estabelecidos pela ONU para a governança global.
Para o formador classista, a tarefa central é desmistificar o espetáculo burguês. A efervescência que se observa — seja nas ruas, nas petições europeias de boicote ou na recusa digna das federações periféricas em aceitar o arbítrio de Washington — sinaliza que o esporte continua sendo um território de disputa ideológica. A crise de legitimidade da Copa de 2026 comprova que o nacionalismo xenófobo e o capitalismo tardio não conseguem mais sustentar sequer as suas próprias ilusões universais, abrindo brechas para a denúncia organizada contra o “Império do Caos” e em favor da emancipação internacionalista dos povos.Referências Bibliográficas
- AMNESTY INTERNATIONAL. Human Rights Guarantees for Mega-Events: The Case of the 2026 FIFA World Cup. London: Amnesty International Publications, 2026.
- MAPP / ALTADIR. Método Altadir de Planejamento Popular: Teoria e Prática da Análise Situacional. Caracas: Ediciones IVE, 1998.
- MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Carta das Nações Unidas e Estatuto da Corte Internacional de Justiça. São Francisco: ONU, 1945.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos. Nova York: Assembleia Geral da ONU, 1966.
- SOUZA, João Bernardo. A captura estética do esporte: de junho de 2013 à consolidação do neofascismo no Brasil. Revista Brasileira de Ciências do Esporte e Sociedade, v. 12, n. 2, p. 145-168, 2024.
Sugestão de Rodapé (Bio)
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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