A Metamorfose como Justificação do Recuo: Uma Análise Dialética da Conciliação de Classes no Sindicalismo Brasileiro

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

O presente artigo analisa as transformações ideológicas no sindicalismo brasileiro na transição entre as décadas de 1980 e 1990, tomando como objeto de estudo a utilização de elementos da indústria cultural — especificamente a poética individualista de Raul Seixas — para a legitimação do chamado “sindicalismo de proposição” ou de resultados. Sob a lente do materialismo histórico e dialético e da paralaxe classista, examina-se como a recusa dos princípios programáticos, sob o manto da “flexibilidade” e da negação do dogmatismo, operou como mediação ideológica para a institucionalização das lutas operárias e o alinhamento com a ordem democrático-burguesa. Analisa-se, outrossim, o papel da imprensa corporativa na consagração dessa virada pragmática como modernização intelectual, em detrimento do horizonte de emancipação política do proletariado.
Palavras-chave: Sindicalismo; Materialismo Histórico; Conciliação de Classes; Ideologia; Indústria Cultural.

Introdução

O surgimento do “Novo Sindicalismo” brasileiro no final da década de 1970, culminando na fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em 1983, representou um marco de ruptura com a estrutura corporativista oficial herdeira da Era Vargas e com a tradição reformista submetida ao Estado. Ancorado no confronto aberto contra a ditadura civil-militar e na afirmação da independência de classe, esse movimento recolocou o proletariado como sujeito político central na cena nacional.
Contudo, a transição para o regime democrático-burguês ao longo dos anos 1980 e a posterior ofensiva neoliberal da década de 1990 impuseram complexos desafios estruturais e ideológicos ao movimento operário. No interior da maior central sindical do país, as disputas sobre os rumos estratégicos e a natureza da resistência ao capital ganharam contornos de intensa batalha teórica.
Este artigo propõe-se a analisar, por meio do método materialista dialético, um episódio específico e sintomático dessa disputa: o momento em que a corrente majoritária da central (Articulação Sindical), personificada em suas lideranças, recorre à máxima poética de Raul Seixas — “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter essa opinião formada sobre tudo” — para fundamentar a virada tática em direção ao pragmatismo negociador. Busca-se apreender a paralaxe classista desse fenômeno, desvelando como a plasticidade estética da pequena burguesia foi instrumentalizada para justificar o revisionismo e a consequente domesticação da práxis revolucionária.

1. A Infraestrutura da Transição e a Emergência do Revisionismo

Para compreender a emergência do discurso da “metamorfose” e da flexibilização programática, faz-se necessário situar as transformações na base material da sociedade brasileira no período. A virada para a década de 1990 foi marcada pela reestruturação produtiva do capital, pela abertura comercial e pela introdução de novos modelos de gestão (toyotismo) que fragmentaram a classe trabalhadora, precarizaram os vínculos empregatícios e arrefeceram o ímpeto das grandes greves industriais que haviam caracterizado a década anterior.
Diante do aumento do desemprego e da ofensiva ideológica que decretava o “fim da história” e a obsolescência do marxismo, setores majoritários do sindicalismo operário sofreram um processo que Antunes (2006) caracteriza como transmutação de sua postura: do confronto à contratualidade coletiva.
A corrente Articulação Sindical passou a defender a urgência de um sindicalismo “propositivo”. Sob o pretexto de responder à crise econômica e preservar empregos, substituiu-se paulatinamente o horizonte da emancipação política e da superação do modo de produção capitalista pela inserção institucional em espaços de concertação social, como as Câmaras Setoriais. O materialismo histórico ensina que a consciência social reflete, em última instância, as contradições da existência material. Isolada em estruturas burocráticas de negociação e distanciada do chão de fábrica, a liderança operária passa a internalizar a lógica da conciliação, necessitando de uma nova formulação ideológica para justificá-la.

2. A Captura Ideológica da Contracultura e a Negação do Programa

É nesse cenário de inflexão que a evocação da frase “preferir ser uma metamorfose ambulante do que ter uma opinião formada sobre tudo” adquire centralidade analítica. Sob a ótica da paralaxe classista — que revela o duplo sentido de um fenômeno dependendo da posição de classe de quem o observa —, a transposição de uma lírica contra-cultural para o campo da teoria política opera uma mistificação.
Originalmente, a canção de Raul Seixas expressava a rebeldia individualista de matriz anarquista e pequeno-burguesa dos anos 1970, caracterizada pela recusa dos padrões morais e comportamentais da ditadura e da própria sociedade de consumo. Tratava-se de uma emancipação subjetiva, que localizava no “eu” e na flutuação das vontades a expressão máxima da liberdade.
Quando transposta para o debate estratégico de uma central operária, a metáfora da “metamorfose” sofre uma metamorfose de segunda ordem: ela deixa de ser a recusa da ordem burguesa para se tornar a ferramenta de adaptação a ela. A negação da “opinião formada sobre tudo” — que no plano estético representava a vivacidade contra o dogmatismo — passa a significar, no plano político, o desarmamento ideológico e o abandono de princípios históricos.

M Mentalidade da Contracultura (Raul Seixas) ➔ Individuação / Recusa Comportamental
▼ Transposição Oportunista (Burocracia Operária) ➔ Abandono de Princípios / Pragmatismo

Para o materialismo dialético, um programa de classe não é um conjunto de dogmas petrificados, mas a síntese teórica das lições históricas do proletariado mundial, moldado na concretude das lutas. Ao rotular as teses das correntes mais combativas e classistas como “opiniões formadas” inflexíveis, o revisionismo operário-burguês buscou deslegitimar a coerência ideológica. A plasticidade e a constante mutação de posições foram elevadas à condição de virtude política, mascarando o fato de que a ausência de uma “opinião formada” (ou seja, de uma teoria revolucionária) resulta inevitavelmente na subordinação à opinião dominante da burguesia. Como asseverava Lênin (1902) em Que Fazer?:

“A questão coloca-se somente assim: ideologia burguesa ou ideologia socialista. Não há meio termo… Por isso, todo o esvaziamento da ideologia socialista, todo o afastamento dela significa, por isso mesmo, o fortalecimento da ideologia burguesa.”

3. O Aparelho Ideológico de Estado: A Consagração Mediática do Recuo

A recepção imediata do episódio pela grande imprensa corporativa explicita o nexo orgânico entre o revisionismo sindical e os interesses do capital. A transformação do recurso retórico de uma liderança operária em “manchete de página inteira” e “achado intelectual” cumpre uma função determinada no âmbito da luta de ideias.
A mídia burguesa atua como um aparelho ideológico que visa, permanentemente, estabelecer e consolidar a hegemonia da classe dominante (Gramsci, 1975). A aclamação de uma postura maleável e disposta à “metamorfose” tem como objetivo pedagógico isolar os setores classistas que mantinham a fidelidade ao projeto de ruptura. Ao elogiar o líder sindical que se dobra à flexibilidade, a imprensa constrói as fronteiras do que é considerado “aceitável”, “maduro” e “moderno” na política nacional.
O elogio da burguesia ao dirigente operário constitui a evidência empírica de que a flexibilização programática eliminava o perigo latente que o Novo Sindicalismo representava para a ordem. O “achado intelectual” celebrado pela mídia era, na verdade, a comemoração do desmonte da independência de classe e o triunfo da institucionalização das demandas trabalhistas dentro dos limites tolerados pela acumulação capitalista.

Conclusão

A análise em paralaxe classista do uso da metáfora da “metamorfose ambulante” no seio do congresso nacional da CUT descortina os mecanismos subjetivos e objetivos pelos quais se processa a conciliação de classes. O episódio não se reduz a uma mera escolha infeliz de retórica individual, mas expressa a síntese de um momento histórico de refluxo ideológico e pressão estrutural do capital sobre o trabalho.
A história das lutas emancipatórias demonstra que o proletariado necessita, fundamentalmente, daquilo que o revisionismo tentou rechaçar: clareza de princípios, firmeza programática e uma teoria social sólida fundamentada no materialismo histórico. A recusa em ter uma direção firme, sob o pretexto da constante mutação, entregou o movimento operário às oscilações conjunturais do mercado e à burocratização de suas estruturas. Conclui-se que a superação da ordem do capital exige o resgate da centralidade do trabalho e a recusa das ilusões estéticas da pequena burguesia, reafirmando que a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores organizados, não a partir da metamorfose adaptativa, mas da transformação radical da infraestrutura social e econômica.

Referências Bibliográficas

  • ANTUNES, Ricardo. O Caracol e sua Concha: Ensaios sobre a Nova Morfologia do Trabalho. São Paulo: Boitempo, 2006.
  • BOITO JR., Armando. O Sindicalismo de Estado no Brasil: Uma Análise Crítica da CUT. Campinas: Editora da Unicamp, 1991.
  • GRAMSCI, Antonio. Quaderni del carcere. Edição crítica do Instituto Gramsci sob a direção de Valentino Gerratana. Turim: Einaudi, 1975.
  • LÊNIN, Vladimir I. Que Fazer?. Tradução direta. Lisboa: Edições Avante!, 1977 [1902].
  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007 [1846].
  • TROTSKY, Leon. Os Sindicatos na Época da Transição Imperialista. São Paulo: Editora Iskra, 2012 [1940].

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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