Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
Este artigo analisa a recente quebra do monopólio tecnológico da litografia ultravioleta extrema (EUV) por laboratórios de desenvolvimento na China, especificamente em Shenzhen. Sob a lente da paralaxe classista e do Planejamento Estratégico Situacional (PES), investiga-se como as restrições impostas pelas potências ocidentais operaram como vetores de contradição, impulsionando a autossuficiência tecnológica chinesa. Contrariando a premissa liberal de que a inovação de fronteira depende exclusivamente da dinâmica de livre mercado e da concorrência anárquica, o caso da máquina EUV demonstra a eficácia do Socialismo de Mercado e do planejamento estatal centralizado na coordenação de macrofatos políticos e científicos, reconfigurando o equilíbrio de forças no Sul Global e desafiando a hegemonia do capital financeiro transnacional.
1. Introdução: O Monopólio da Fronteira Tecnológica como Instrumento de Domínio
No modo de produção capitalista contemporâneo, a detenção de monopólios tecnológicos não constitui mero reflexo de mérito corporativo ou de eficiência de mercado; representa, fundamentalmente, uma barreira imperialista de contenção ao desenvolvimento das forças produtivas das nações periféricas e soberanas. A litografia ultravioleta extrema (EUV) — técnica que utiliza radiação com comprimento de onda de aproximadamente 13,5 \text{ nm} para imprimir circuitos nanométricos em pastilhas de silício — permaneceu, por décadas, concentrada sob o controle de um consórcio ocidental restrito, liderado pela empresa holandesa ASML e fortemente blindado por diretrizes geopolíticas e sanções unilaterais do governo dos Estados Unidos.
A engenharia reversa e o desenvolvimento autônomo de uma máquina EUV em Shenzhen, na China, marcam uma ruptura histórica. Este acontecimento exige uma análise profunda que supere a narrativa jornalística factual e decodifique as estruturas de poder subjacentes. A paralaxe classista nos permite observar o mesmo fenômeno sob duas perspectivas distintas e simultâneas: para o bloco hegemônico ocidental, trata-se de uma “ameaça à segurança e à propriedade intelectual”; para o Sul Global, representa a superação de um cerco tecnológico e a afirmação da autodeterminação econômica.
2. Mediação Teórica: O Modelo de Desenvolvimento e a Resposta às Pressões de Mercado
Para compreender como a China realizou o que o ecossistema de inovação ocidental classificava como “impossível”, é necessário contrastar as matrizes de planejamento socioeconômico. O capitalismo em sua fase neoliberal é caracterizado pela submissão do desenvolvimento científico aos interesses de curto prazo do mercado financeiro e da burguesia rentista. Projetos de infraestrutura de alta complexidade e longo tempo de maturação frequentemente esbarram na necessidade de retornos imediatos exigidos pelos acionistas.
Em contrapartida, conforme postula a teoria do Socialismo de Mercado e as análises sobre a Nova Economia do Projetamento (JABOUR; DANTAS, 2021), o Estado chinês opera sob uma lógica na qual o mercado é instrumentalizado e subordinado ao planejamento estratégico de longo prazo. A ausência de pressões anárquicas do capital financeiro especulativo permite a concentração de recursos estatais, laboratórios públicos e empresas estratégicas em torno de missões nacionais.
O desenvolvimento da litografia EUV em Shenzhen é um subproduto direto dessa capacidade de mobilização:
[Diretrizes do Planejamento Estatal] │ ▼[Concentração de Recursos a Longo Prazo] │ ▼[Isolamento das Pressões Voláteis do Mercado] │ ▼[Inovação Tecnológica de Fronteira (EUV)]
A soberania tecnológica converte-se, assim, em uma resposta eficaz às necessidades de reprodução social e econômica da população, e não em um mecanismo de extração de mais-valia extraordinária por monopólios privados.
3. Análise Situacional (PES-MAPP): Vetores de Contradição e Macrofatos
Aplicando as ferramentas do Método Alta Direção de Planejamento Popular (MAPP) e do Planejamento Estratégico Situacional (PES), desenvolvidos por Carlos Matus, podemos mapear o jogo social da guerra dos chips através de um fluxo de causas e efeitos macroestruturais.
| Ator Estratégico | Situação Inicial (Vulnerabilidade) | Operação / Ação Política | Resultado Situacional Atual |
|---|---|---|---|
| Império Coercitivo (EUA/Bloco Ocidental) | Perda gradual da dominância manufatureira industrial global. | Imposição de sanções unilaterais, bloqueio da cadeia de suprimentos da ASML e guerra comercial. | Efeito rebote (backfire): aceleração do fechamento da janela de vulnerabilidade da China. |
| Estado Planejador (China / Sul Global) | Dependência externa de maquinário de litografia para semicondutores avançados. | Financiamento direto via fundos estatais, fusão da pesquisa universitária com polos industriais em Shenzhen. | Quebra do monopólio tecnológico e consolidação da soberania digital. |
| O bloqueio tecnológico promovido pelos EUA funcionou como o principal vetor de contradição dialética. Ao tentar asfixiar o desenvolvimento das forças produtivas chinesas por meio da negação do acesso às máquinas EUV, o imperialismo eliminou qualquer alternativa que não fosse o desenvolvimento de uma cadeia de suprimentos interna e completamente independente. O “laboratório secreto em Shenzhen” não é um acidente, mas o nó crítico de um plano situacional desenhado para responder a uma agressão econômica externa. |
4. O Choque Geopolítico e as Relações Multilaterais no Tabuleiro Global
A emergência da tecnologia EUV fora do controle do bloco da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) altera profundamente o equilíbrio de poder global. A máquina de guerra e a diplomacia de coerção do Ocidente historicamente ancoraram-se na capacidade de ditar quais nações teriam acesso aos meios de desenvolvimento técnico e industrial. A ascensão de polos de poder soberanos e tecnologicamente avançados — como a China, com o suporte estratégico e de segurança energética de parceiros do BRICS+, como a Rússia e o Irã — esvazia a eficácia das sanções econômicas como arma de guerra.
Sob a ótica do Direito Internacional Público e dos mecanismos multilaterais reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), os bloqueios tecnológicos unilaterais violam os princípios de soberania, igualdade entre os Estados e o direito ao desenvolvimento, consolidados na Resolução 41/128 da Assembleia Geral das Nações Unidas (Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento). O sucesso da engenharia chinesa demonstra que o policentrismo e a multipolaridade não são apenas projetos políticos, mas realidades materiais sustentadas pela capacidade técnico-científica independente do Sul Global.
5. Conclusão
A construção da máquina de litografia ultravioleta extrema (EUV) pela China constitui um marco divisório na economia política internacional contemporânea. A análise em paralaxe evidencia que as tentativas imperialistas de congelar o desenvolvimento histórico através de monopólios artificiais tendem a fracassar quando confrontadas com modelos de sociabilidade e planejamento que priorizam a soberania nacional e a eficiência social sobre a especulação mercantil.
Longe de ser uma vitória da “livre concorrência”, a superação tecnológica em Shenzhen comprova a vitalidade e a superioridade do planejamento estratégico centralizado como ferramenta de emancipação das nações diante do cerco do capital financeiro internacional.
Referências Bibliográficas
- DECLARAÇÃO SOBRE O DIREITO AO DESENVOLVIMENTO. Adotada pela Resolução n. 41/128 da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), de 4 de dezembro de 1986. Disponível nos arquivos oficiais da organização.
- JABOUR, Elias; DANTAS, Alexis. A Nova Economia do Projetamento: o socialismo de mercado como formação econômico-social histórica. Revista de Economia Contemporânea, v. 25, n. 2, 2021.
- JABOUR, Elias; GABRIELE, Alberto. China: o socialismo do século XXI. São Paulo: Autonomia Literária, 2021.
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993.
- MATUS, Carlos. O Método MAPP: Método Alta Direção de Planejamento Popular. São Paulo: Fundap, 1996.
- LOSURDO, Domenico. Fuga da História? A revolução russa e a revolução chinesa vistas de hoje. Rio de Janeiro: Revan, 2004.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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