Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
Este artigo analisa os desafios táticos e ideológicos enfrentados por candidatos de partidos de quadros e de matriz classista ao disputarem pleitos para o poder legislativo. A partir do referencial do Planejamento Estratégico Situacional (PES) e da dialética materialista, examina-se o processo eleitoral não como um evento homogêneo, mas como uma corrida de obstáculos segmentada em três “funis” decisórios e concorrenciais: o âmbito endógeno (partidário e federativo), o interpartidário (campo democrático-progressista) e o exógeno (adversários de classe). O texto discute os mecanismos de pressão sistêmica que induzem à degeneração reformista e propõe salvaguardas metodológicas fundadas na mobilização popular e no contrapoder estrutural.
Introdução
A participação de organizações classistas e de vanguarda no parlamento burguês impõe uma contradição histórica permanente: a utilização do aparato institucional do Estado capitalista para a denúncia de suas próprias limitações estruturais e para a acumulação de força revolucionária. O espaço institucional, longe de ser um terreno neutro, opera sob regras que visam à cooptação e à neutralização do antagonismo de classe, transformando o impulso transformador em mera gestão do ordenamento jurídico vigente.
Para o candidato inserido na práxis classista, o êxito eleitoral não pode ser mensurado exclusivamente pela obtenção do mandato, mas pela capacidade de conduzir a disputa sem sucumbir à degeneração burocrática ou ao cretinismo parlamentar. Esse desafio adquire contornos de extrema complexidade no cenário contemporâneo, caracterizado pela vigência das federações partidárias e por regras rígidas de financiamento público e cláusulas de desempenho. O percurso rumo ao parlamento configura-se, assim, como um ordenamento de três funis seletivos que exigem do candidato um apurado cálculo estratégico e uma sólida formação ideológica.
1. O Triplo Funil da Disputa Eleitoral
O percurso de uma candidatura orientada pela práxis popular e socialista é constrangido por três níveis concêntricos de filtragem e disputa, que demandam diferentes posturas táticas sem que haja perda da unidade estratégica.
[ FUNIL 1: ÂMBITO ENDÓGENO ] --> Disputa interna, cotas e dinâmica da Federação
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[ FUNIL 2: CAMPO PROGRESSISTA ] --> Hegemonia tática e governabilidade espacial
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[ FUNIL 3: ADVERSÁRIOS ] --> Enfrentamento de classe e barreira do capital
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[ MANDATO ]
1.1. O Primeiro Funil: O Âmbitus Endógeno (Partido e Federação)
A primeira barreira situa-se no interior da própria estrutura de representação. Sob o atual ordenamento jurídico-eleitoral brasileiro (Lei nº 14.208/2021), a instituição das federações partidárias alterou profundamente a dinâmica interna das legendas. A federação atua como uma única agremiação na arena eleitoral, exigindo um arranjo prévio e compulsório por um período mínimo de quatro anos.
O candidato classista enfrenta aqui uma dupla triagem:
- A seleção interna do partido: Onde operam critérios de preenchimento de cotas de gênero, raça e a necessidade de equilíbrio entre as correntes internas.
- A negociação na federação: Onde o peso burocrático e o histórico de votação de cada legenda associada determinam a distribuição de vagas na nominata (chapa proporcional) e, fundamentalmente, os critérios de partilha do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC).
Como demonstra a Resolução nº 14/2026 da FE Brasil, a divisão desses recursos financeiros e do tempo de propaganda no rádio e na televisão obedece a regras de viabilidade eleitoral imediata que, frequentemente, penalizam quadros puramente ideológicos em detrimento de candidatos com capital político tradicional pré-acumulado. O cálculo situacional (PES) neste funil exige a construção de alianças internas internas sem a renúncia aos princípios programáticos do partido de vanguarda.
1.2. O Segundo Funil: O Campo Democrático e Progressista
Superada a definição da chapa federativa, o candidato ingressa no segundo funil: a disputa pela hegemonia tática dentro do próprio campo aliado. No interior das coalizões de esquerda e centro-esquerda, a competição por fatias do eleitorado historicamente progressista é intensa.
Neste estágio, o risco reside no pragmatismo despolitizado. Candidaturas concorrentes dentro do mesmo espectro ideológico tendem a apelar para o personalismo, para o clientelismo de base ou para discursos puramente identitários esvaziados de recorte de classe. O candidato classista precisa diferenciar-se não por meio do ataque fratricida aos aliados, mas pela elevação do nível do debate político, demonstrando que as pautas setoriais (defesa do serviço público, direitos das minorias, soberania nacional) são indissociáveis da contradição capital-trabalho. É a transição do “discurso de opinião” para o “discurso de transformação” preconizado pelo Método Altadir de Planejamento Popular (MAPP).
1.3. O Terceiro Funil: O Enfrentamento aos Adversários e Inimigos de Classe
O funil definitivo é o embate aberto contra as candidaturas que representam o status quo capitalista, as forças oligárquicas, o fisiologismo do “Centrão” e a extrema-direita fascista. Trata-se de uma guerra de posições assimétrica. Os adversários dispõem de vultosos recursos econômicos indiretos, apoio da mídia corporativa monopolista e controle de redes de clientelismo estrutural (como o uso político de emendas parlamentares e frentes assistencialistas).
Neste nível, o aparato jurídico burguês impõe barreiras severas, como as cláusulas de barreira e desempenho instituídas pela Emenda Constitucional nº 97/2017, que sufocam partidos ideológicos de menor porte. A disputa deixa de ser apenas uma contenda retórica e passa a ser um enfrentamento de poder real, onde o candidato classista é alvo de tentativas de desidratação política, isolamento de pautas e campanhas sistemáticas de difamação ideológica.
2. Riscos de Degeneração do Quadro Político no Parlamento
A submissão prolongada aos ritos do parlamento burguês sem as devidas salvaguardas organizativas gera patologias políticas bem documentadas pela sociologia política e pela história do movimento operário.
- O Cretinismo Parlamentar: Definido historicamente como a ilusão de que as grandes transformações sociais decidem-se exclusivamente no plenário e por meio do voto legislativo, ignorando a dinâmica da luta de classes que se desenvolve nas ruas, fábricas e bairros. O mandato passa a ser um fim em si mesmo.
- A Tecnocratização e o Pragmatismo: O mandato absorve a linguagem burocrática do Estado. O parlamentar e sua assessoria passam a priorizar a eficiência na emenda orçamentária ou a negociação de pequenos projetos de lei inócuos, abandonando o Planejamento Estratégico Situacional em troca de uma gestão normativa e conformista da realidade.
- A Cooptação pelo Fundo de Campanha e Estrutura Gabinete: A dependência estrutural do financiamento público institucionalizado e o conforto da máquina de gabinete (cargos comissionados, verbas indenizatórias) geram uma nova camada de burocratas que tendem a suavizar o discurso crítico para garantir a sobrevivência material do mandato nas eleições subsequentes.
3. Diretrizes para a Condução da Disputa sem Degeneração
Para converter o mandato em um polo de agitação, propaganda e organização popular — e não em um instrumento de acomodação —, propõem-se quatro diretrizes teórico-práticas:
3.1. Subversão Metodológica das Ferramentas Operacionais (O Uso do PES-MAPP)
O candidato e sua coordenação de campanha devem rejeitar a lógica do marketing eleitoral tradicional, que trata o eleitor como mero consumidor de promessas. Ferramentas de gestão de bases e dados cadastrais devem ser utilizadas não para o controle clientelista, mas para o mapeamento organizativo dos territórios.
As demandas que chegam à campanha não podem ser tratadas como meros protocolos assistenciais a serem resolvidos via burocracia estatal. Devem ser convertidas, por meio do MAPP, em nós críticos de problemas estruturais. Se há uma demanda por creches em uma comunidade, a campanha atua para organizar as mães e trabalhadores em um comitê de luta pelo direito à educação, vinculando a carência local à denúncia da política de austeridade fiscal do Estado burguês.
3.2. A Defesa dos Direitos como Instrumento de Mobilização Popular
Inspirando-se nas formulações do jurista Josué Rios, o arcabouço jurídico vigente — inclusive o Código de Defesa do Consumidor e o texto constitucional — deve ser manejado como um instrumento de mobilização social e contrapoder. A atuação institucional do candidato e do futuro parlamentar não se limita à via jurídica individual ou à fiscalização abstrata. Trata-se de utilizar a tribuna e as prerrogativas do mandato para expor as contradições do capitalismo oligopolista e organizar os usuários de serviços públicos, consumidores e trabalhadores contra os abusos corporativos e a privatização de direitos essenciais.
3.3. Subordinação do Mandato ao Partido e às Bases Orgânicas
A blindagem mais eficaz contra a degeneração é o princípio organizativo do centralismo democrático. O mandato não pertence ao indivíduo, mas à classe representada pelo partido. Isso implica:
- Preprestação de contas periódica e obrigatória perante as instâncias partidárias e as assembleias populares de base.
- Financiamento solidário do partido e dos movimentos sociais a partir dos subsídios recebidos pelo parlamentar.
- Rotatividade de quadros nas assessorias técnicas, priorizando militantes de base em vez de técnicos puramente mercadológicos.
3.4. O Mandato como Eco da Luta de Massas
A atividade parlamentar deve ser o reflexo e o amplificador das lutas extraparlamentares. O sucesso de um projeto de lei ou de uma emenda orçamentária depende da capacidade de mobilização das massas nas ruas. O mandato atua como um escudo institucional para proteger os movimentos sociais da repressão estatal e como um megafone para radicalizar o debate político, demonstrando que os limites do orçamento burguês só podem ser superados pela ruptura e pela reorganização social sob o controle dos trabalhadores.
Considerações Finais
Disputar uma vaga no parlamento burguês através do triplo funil eleitoral exige mais do que perícia técnica em planilhas ou volume de recursos financeiros; exige ciência política aplicada à libertação popular. Ao compreender as regras do jogo institucional (as resoluções partidárias, as leis eleitorais e as barreiras do capital) sob a lente da paralaxe classista, o candidato de vanguarda desmistifica o fetiche do Estado. Conduzir a disputa sem se degenerar significa aceitar o desafio da representação institucional sem jamais transferir o eixo da estratégia revolucionária do seu verdadeiro lugar: a organização consciente e autônoma da classe trabalhadora.
Referências Bibliográficas
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. (Especialmente os artigos referentes aos direitos políticos, partidos políticos e ao processo legislativo).
- BRASIL. Lei nº 14.208, de 28 de setembro de 2021. Altera a Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995 (Lei dos Partidos Políticos), e a Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997 (Lei das Eleições), para instituir as federações partidárias. Brasília, DF, 2021.
- FEDERAÇÃO BRASIL DA ESPERANÇA (FE BRASIL). Resolução nº 13/2026. Dispõe sobre a escolha e substituição dos candidatos (as), a formação de coligações e a realização de convenções eleitorais da FE BRASIL nas eleições 2026. Brasília, DF, 2026.
- FEDERAÇÃO BRASIL DA ESPERANÇA (FE BRASIL). Resolução nº 14/2026. Dispõe sobre critérios de distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) pelas legendas associadas para o pleito de 2026. Brasília, DF, 2026.
- LENIN, Vladimir Ilich. O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo. São Paulo: Expressão Popular, 2004. (Especialmente o capítulo “Deve-se participar nos parlamentos burgueses?”).
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993. (Fundamentos do Planejamento Estratégico Situacional – PES).
- MATUS, Carlos. O Método MAPP: Método Altadir de Planejamento Popular. São Paulo: FUNDAP, 1996.
- RIOS, Josué. A defesa do consumidor e o direito como instrumento de mobilização social. São Paulo: Cadernos de Estudos do IDEC, 1998.
- José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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