A Dialética do Cotidiano Midiatizado: Sintoma, Alteridade e Resiliência Familiar Diante das Pressões Opressoras Sistêmicas

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

O presente artigo analisa a representação das dinâmicas afetivo-familiares e das relações de gênero no cenário da cultura digital contemporânea, utilizando como vetor metodológico a lente da paralaxe e o arcabouço do Materialismo Dialético-Histórico. Investiga-se como os recortes cotidianos que circulam em redes sociais operam como sintomas microestruturais de opressões macroestruturais históricas (gênero, raça e classe). À luz da Psicologia Social de Pichon-Rivière, da Pedagogia da Alteridade de Madalena Freire e do conceito de contrapoderes de Josué Rios, discute-se a premência de uma “blindagem operativa” no núcleo familiar, articulada às garantias constitucionais brasileiras e aos tratados multilaterais da Organização das Nações Unidas (ONU) voltados à dignidade humana.

1. Introdução: O Fragmento Digital sob a Lente da Paralaxe

A análise científica de registros audiovisuais de curta duração que pautam o cotidiano e as relações entre homem e mulher nas plataformas digitais exige um deslocamento do ponto de observação — a paralaxe. O objeto observado não se reduz ao entretenimento efêmero; ele funciona como um microcosmo das tensões sociais.
O cotidiano das relações de casal é atravessado por complexidades endógenas (os conflitos psíquicos, pulsões e subjetividades) e exógenas (as demandas do capital, o egocentrismo e a competitividade mercantil). Portanto, o fragmento digital é, simultaneamente, expressão do isolamento individual e reflexo das pendências históricas de uma sociedade estruturalmente desigual e opressora.

2. A Micropolítica dos Afetos: Grupo Operativo e o Espelho da Alteridade

A convivência familiar e conjugal constitui o grupo operativo primário mais elementar da estrutura social. Ao contrário dos espaços públicos e produtivos, onde o sujeito performa através de máscaras sociais de autopreservação contra a concorrência e o predação de mercado, o espaço doméstico é o locus da exposição da vulnerabilidade cruda.

  • A Dinâmica Pichoniana no Lar: Quando o equilíbrio cotidiano é tensionado, emergem os papéis funcionais inconscientes sistematizados por Enrique Pichon-Rivière. O conflito conjugal exposto nas redes frequentemente posiciona um dos sujeitos como o Porta-voz de um mal-estar estrutural. A estagnação na fase de Pré-tarefa — marcada por resistências, egocentrismo e pela reprodução mecânica de preconceitos — impede a evolução para a Tarefa do ajustamento permanente e do crescimento mútuo.
  • A Diferenciação Dialética: A superação da toxicidade nas relações íntimas encontra fundamento na pedagogia de Madalena Freire. A premissa de que “Eu não sou você, você não é eu” estabelece que a evolução do vínculo depende do reconhecimento da alteridade. O parceiro atua como um espelho dialético; o fortalecimento do “eu” não se faz pela anulação ou dominação do “outro”, mas pela sustentação de espaços diferenciados de fala, escuta e respeito mútuo.

3. A Família Frente aos Aparelhos Ideológicos de Estado (AIEs) e as Forças Corrosivas

A instituição familiar não está imune às forças macroeconômicas. Louis Althusser identifica a família como um dos principais Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE), incumbida historicamente de reproduzir a força de trabalho e internalizar a ideologia dominante de submissão e divisão desigual do trabalho (particularmente a opressão de gênero).
Mesmo uma célula familiar estruturada e orientada por princípios éticos sofre a ação de vetores corrosivos exógenos contínuos — tais como o estímulo à ambição egoísta, ao consumo desenfreado e ao individualismo estéril. A estabilidade sistêmica da família exige, portanto, uma práxis de resistência ativa e consciente.
A “blindagem” do ambiente familiar não se traduz em um isolamento alienado, mas na construção de uma soberania afetiva orientada pelos vetores da Cooperação, Pertencimento e Aprendizagem, onde as decisões, iniciativas e o desenvolvimento do caráter de seus membros sejam fruto de pactuações pensadas, democráticas e negociadas.

4. Nexo Constitucional, Mecanismos Multilaterais e os Contrapoderes Sociais

A busca pela emancipação das classes e gêneros historicamente reprimidos no tecido social encontra respaldo nos ordenamentos jurídicos nacionais e internacionais, que impõem limites à ingerência predatória do mercado e do Estado sobre a dignidade do sujeito:

  • Âmbito Nacional (Constituição de 1988): A Carta Magna brasileira assegura a centralidade da dignidade da pessoa humana (Art. 1º, III) e a erradicação de todas as formas de discriminação e desigualdades sociais (Art. 3º). Ademais, o Art. 226 consagra a família como a base da sociedade, determinando que os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal devem ser exercidos igualmente pelo homem e pela mulher (Art. 226, § 5º), repelindo o patriarcalismo histórico.
  • Âmbito Multilateral (ONU): A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) estipula no seu Artigo 16 que a família tem direito à proteção da sociedade e do Estado. Esse entendimento é fortalecido por mecanismos como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW, 1979), que exige a desconstrução de papéis estereotipados de gênero que deformam as relações cotidianas.
    Contudo, a positivação jurídica é insuficiente sem a mobilização social. Conforme a teorização de Josué Rios, as transformações estruturais e a aceleração da evolução sistêmica da sociedade dependem da manutenção ativa dos movimentos de contrapoder. A micropolítica familiar atua como uma incubadora de consciência de classe e solidariedade; ao resistir internamente às lógicas de dominação, acumulam-se forças revolucionárias que alimentam os movimentos sociais organizados na busca por uma vida digna universal.

5. Conclusão

O debate provocado pelas dinâmicas relacionais contemporâneas demonstra que a evolução do casal e do ambiente familiar não ocorre no vácuo. Trata-se de um processo permanente de tese, antítese e síntese provisória, balizado pelo conflito construtivo e pela celebração mútua. Enquanto a macroestrutura social permanecer predatória e opressora, a família consciente deve assumir seu papel histórico de trincheira ideológica e célula catalisadora, transformando o afeto em práxis revolucionária e os laços domésticos em instrumentos de emancipação humana.

Referências Bibliográficas

  • ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado (AIE). 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
  • BRASIL. Constituição da República Feminina do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
  • FREIRE, Madalena. A Paixão de Conhecer o Mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Declaração Universal dos Direitos Humanos. Assembleia Geral da ONU, 1948.
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW). Nova York, 1979.
  • PICHON-RIVIÈRE, Enrique. O Processo Grupal. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
  • RIOS, Josué. Crônicas dos Contrapoderes e da Cidadania Coletiva. São Paulo: Editora Práxis Social, 2018.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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