O Agro e a Captura da Superestrutura: Uma Análise em Paralaxe Classista da Mutação Cultural e do Fascismo Tardio no Brasil

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

Este artigo analisa as transformações na superestrutura cultural brasileira sob a lente da paralaxe classista, confrontando o papel histórico da arte como instrumento de resistência popular durante a ditadura militar (1964–1985) com a atual hegemonia ideológica do agronegócio. Examina-se o fenômeno da renegocianismo político de frações da classe artística que, convertidas em proprietárias de terras e aliadas ao capital financeiro-especulativo, aderiram ao projeto de extrema-direita (2016–2022). Demonstra-se que o sufocamento da Música Popular Brasileira (MPB) de linhagem crítica e o desmantelamento das políticas públicas de cultura não decorrem de leis naturais de mercado, mas de uma ofensiva deliberada de classe, sustentada paradoxalmente por robustos mecanismos de financiamento estatal, como o Plano Safra, e pela evasão de divisas em paraísos fiscais.
Palavras-chave: Superestrutura Cultural; Paralaxe Classista; Ditadura Militar; Agronegócio; Hegemonia.

Introdução: A Lente da Paralaxe Classista

Para apreender a dinâmica cultural brasileira contemporânea sem cair no idealismo estético ou no determinismo econômico vulgar, faz-se necessário o emprego do conceito de paralaxe classista. A paralaxe, enquanto deslocamento aparente de um objeto quando observado por duas linhas de visão diferentes, revela aqui a contradição fundamental entre a memória histórica da resistência operária e cultural e a narrativa oficial da classe dominante.
Se, por um lado, a historiografia oficial e a indústria cultural de massas tentam naturalizar a transição da música de protesto para o monopólio do “sertanejo pop” como uma mera evolução de preferências de mercado, o olhar classista — forjado na militância orgânica e na resistência à ditadura militar desde o início da década de 1980 — enxerga o reverso dessa imagem: uma violenta operação de substituição ideológica destinada a desarmar a consciência crítica do proletariado e das massas camponesas.
A superestrutura (ideologia, direito, política e arte), conforme a formulação clássica marxiana, não flutua autonomamente; ela reflete e, ao mesmo tempo, garante a reprodução das relações sociais de produção. O avanço do complexo agroindustrial e financeiro no Brasil remodelou profundamente essa superestrutura, erguendo um aparato de propaganda que criminaliza as manifestações populares tradicionais e santifica a acumulação primitiva e a grande propriedade de terras.

1. A Dialética da Resistência: Arte Contra a Ditadura (1964–1985)

O período conhecido como “anos de chumbo”, inaugurado pelo golpe de Estado de 1964 e recrudescido pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 1968, impôs ao Brasil o que a sociologia crítica denomina de “império do caos” — um regime de exceção que tratava a soberania popular e a inteligência nacional como patologias a serem extirpadas. Sob a doutrina de segurança nacional, a autêntica cultura brasileira foi classificada pelo aparato repressivo como nociva, subversiva e antipatriótica.
Nesse cenário, a cultura musical (a consolidação da MPB), cinematográfica (o Cinema Novo) e teatral (como o Teatro de Arena e o Teatro Oficina) assumiu a função de vanguarda de resistência popular. Diante do fechamento dos canais políticos institucionais, a canção e o palco tornaram-se os principais territórios de denúncia do terrorismo de Estado.
Artistas, intelectuais e militantes de organizações de esquerda, incluindo o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que se reorganizava na clandestinidade e na luta de massas, transformaram festivais e shows em assembleias políticas informais. A resposta dos “chacais da ditadura” foi a violência sistemática: prisões arbitrárias, torturas, exílios forçados e assassinatos. O Estado ditatorial operava para silenciar qualquer lírica que revelasse o subdesenvolvimento, a exploração do trabalhador rural ou a barbárie dos quartéis.

2. A Mutação de Classe e o Fenômeno do Renegocianismo Artístico

O corte epistemológico e histórico que define a atual crise cultural brasileira localiza-se na transição entre o colapso da ditadura e a consolidação do modelo neodesenvolvimentista pautado nas commodities. Uma análise em paralaxe revela um fenômeno de degeneração ideológica: parcelas da classe artística que outrora emergiram ou se beneficiaram do prestígio da cultura nacional-popular sofreram uma mutação de classe.
Ao acumularem capital ao longo das décadas de 1990 e 2000, esses agentes converteram-se em:

  1. Latifundiários do agronegócio: Proprietários de imensas extensões de terra monocultora no Centro-Oeste e no Sudeste.
  2. Oligarcas da especulação imobiliária: Investidores em áreas urbanas valorizadas pelo capital financeiro.
  3. Monopolistas de eventos: Controladores de redes de rádio, plataformas de streaming e megafestivais de arena.
    Essa mudança na base material determinou a mudança na consciência política. Elementos que antes se posicionavam no campo democrático operaram uma virada ideológica rumo ao reacionarismo. Esse processo atingiu seu ápice no período entre o golpe parlamentar-judicial de 2016 e o governo de extrema-direita de base bolsonarista (2019–2022). Durante este quatriênio, testemunhou-se o desmantelamento planejado do Ministério da Cultura, a perseguição a mecanismos de fomento (como a Lei Rouanet) e a asfixia financeira de artistas que mantiveram sua coerência histórica e independência crítica.
    A nova elite artística do agro passou a semear o ódio de classe, atacando a MPB tradicional e os artistas de caráter ilibado, rotulando-os como “dependentes do Estado”, enquanto ironicamente sustentavam sua própria infraestrutura sobre os pilares do Tesouro Nacional.

3. A Ilusão do Mercado: O Financiamento Estatal do Agro e as Finanças Parasitárias

O discurso hegemônico do agronegócio exalta as virtudes do livre mercado, do self-made man do campo e da eficiência privada, contrapondo-se ao que chamam de “dirigismo estatal” na cultura. Contudo, a análise científica da economia política desmascara essa falácia.
O gigantismo financeiro que irriga o ecossistema do sertanejo industrial e do agroplay provém diretamente de duas fontes estruturais:

O Plano Safra

O volume de capital que sustenta os impérios agrícolas e, por extensão, seus braços culturais, é oriundo de vultosos subsídios estatais. O Plano Safra direciona anualmente centenas de bilhões de reais em crédito subsidiado, equalização de taxas de juros e renegociação de dívidas crônicas de grandes produtores. O Estado brasileiro, portanto, financia a base material que produz a superestrutura conservadora.

A Evasão Fiscal e Paraísos Fiscais

Parte expressiva do excedente gerado pela exportação de grãos e carnes não é reinvestida na soberania nacional ou na distribuição de renda, mas desviada por meio de engrenagens de engenharia financeira internacional para paraísos fiscais (offshores). Esse capital financeirizado e desregulamentado retorna ao país travestido de investimento em fundos imobiliários e na produção de megaeventos culturais de massas, operando uma lavagem estética e ideológica do dinheiro da terra.

Considerações Finais: A Luta Ideológica Continua

A ofensiva contra a cultura popular e a MPB de resistência não é uma disputa de preferências estéticas, mas um capítulo central da luta de classes no Brasil. A superestrutura cultural conservadora tenta apagar o passado de lutas do povo brasileiro, substituindo a memória da resistência à ditadura por uma ode ao produtivismo predatório e ao individualismo.
Desmascarar a contradição daqueles que utilizam o capital subvencionado pelo Estado para atacar as políticas públicas de cultura é uma tarefa teórica e prática fundamental para os formadores classistas. A reconquista da hegemonia cultural exige a denúncia sistemática dessas fraturas expostas pela paralaxe classista: a mesma classe que destrói a memória da resistência democrática é aquela que vive à custa do fundo público e da especulação financeira.

Referências Bibliográficas

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José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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