A Trajetória de Lideranças Classistas e a Formação Inicial: Do Pensamento Teológico ao Método Dialético

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

Este artigo analisa os determinantes estruturais e ideológicos que condicionam a emergência e a consolidação de lideranças classistas no interior das sociedades capitalistas contemporâneas. Sob uma perspectiva analítica de paralaxe — que tensiona o contexto imediato do sujeito e as macroestruturas socioeconômicas —, investiga-se como instituições de matriz tradicional e religiosa operam inicialmente como instâncias de socialização e ordenamento moral, para, posteriormente, confrontarem-se com as contradições materiais da reprodução do capital. O estudo aborda o afunilamento de oportunidades de ascensão socioeconômica na periferia do capitalismo e o papel da transição intelectual para o materialismo histórico-dialético como ferramenta de leitura da realidade e de engajamento na formação e organização da classe trabalhadora.

1. Introdução: O Fenômeno da Paralaxe na Socialização de Classe

A análise do desenvolvimento de lideranças classistas exige o superamento de visões lineares sobre a formação da consciência política. O conceito de paralaxe, aplicado às ciências sociais, permite observar o deslocamento de um objeto — neste caso, a trajetória do militante e formador classista — a partir de duas posições de observação distintas e inconciliáveis à primeira vista: a rigidez moral e doutrinária das instituições tradicionais de base (como a família e a escola paroquial) e a crueza das leis de acumulação do modo de produção capitalista.
Nas sociedades periféricas e dependentes, as oportunidades de mobilidade social e econômica são rigidamente restritas pela divisão social do trabalho. A escassez de recursos e o bloqueio de vias institucionais de ascensão funcional operam como elementos de exclusão permanente. Diante desse cenário, a trajetória de lideranças que emergem do seio da classe trabalhadora frequentemente inicia-se em espaços de coesão comunitária e dogmática, onde os conceitos de justiça, sofrimento e ordenamento social são primeiramente apresentados sob a ótica teológica, para serem posteriormente ressignificados diante da experiência concreta da exploração laboral.

2. A Base Institucional: A Matriz Religiosa e a Disciplina Intelectual

A infância e a juventude de parcela expressiva das lideranças populares e classistas no Brasil, sobretudo a partir de meados do século XX, inserem-se em um tecido social profundamente marcado pelo catolicismo romano. As etapas da iniciação sacramental — o batismo, a crisma e a primeira comunhão — não constituem meros ritos formais, mas sim um complexo pedagógico de transmissão de valores, senso de dever e introdução à leitura textual e doutrinária.
A escola paroquial e, em nível superior, as universidades confessionais (como a Universidade Católica de Salvador – UCSal) atuaram historicamente como centros de rigor metodológico e formação humanística. Ironicamente, a própria busca pelo entendimento profundo da doutrina e a preparação para os dilemas da vida em sociedade fornecem o aparato analítico e a exigência ética que impulsionam o indivíduo a questionar a miséria material e a desigualdade do entorno. A passagem da moralidade abstrata para a práxis política ocorre quando as ferramentas intelectuais adquiridas na formação acadêmica encontram as teorias de superação da ordem vigente.

3. A Transição para o Materialismo Histórico: A Desnaturalização da Propriedade e do Estado

Para que o inconformismo ético se transforme em militância classista estruturada, faz-se necessária a mediação teórica do materialismo histórico-dialético. O entendimento de que as instituições sociais não são eternas ou divinas, mas historicamente determinadas, encontra fundamento na obra de Friedrich Engels. Em A Origem da Família, do Estado e da Propriedade Privada, demonstra-se como o surgimento das classes sociais e do aparato estatal de coerção jurídica decorre diretamente do desenvolvimento das forças produtivas e da apropriação privada dos meios de produção.
O Estado, outrora percebido na formação tradicional como um mediador do bem comum, revela-se como o instrumento de dominação da classe economicamente hegemônica. Complementarmente, a leitura de A Dialética da Natureza fornece a base epistemológica para compreender que a realidade — tanto física quanto social — está em constante transformação e movimento contraditório, validando a necessidade da ação coletiva para a superação de estruturas aparentemente estáticas.

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| TRAJETÓRIA DE FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA |
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| [Fase Inicial] |
| Socialização Institucional, Rigor Dogmático, Educação |
| Paroquial e Acadêmica (Formação Teológica/Humanística) |
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| [Contradição Material] |
| Escassez de Recursos, Bloqueio de Ascensão Econômica |
| no Capitalismo e Vivência da Exploração Laboral |
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| [Síntese e Práxis Classista] |
| Adoção do Materialismo Histórico, Ruptura com a |
| Naturalização da Desigualdade, Atuação na Formação Política|
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4. Dinâmica do Capital: Acumulação, Crise e Exclusão

A escassez de oportunidades e a exclusão econômica vivenciadas pelas lideranças operárias e classistas encontram sua explicação científica na anatomia do próprio capitalismo. Conforme detalhado por Karl Marx no capítulo sobre A Acumulação Primitiva do Capital em O Capital, o sistema econômico atual não nasceu do esforço individual ou da poupança virtuosa, mas da expropriação violenta dos produtores diretos de seus meios de subsistência. Esse processo histórico legou à imensa maioria da população a única alternativa de vender sua força de trabalho para sobreviver.
Uma vez estruturado, o capitalismo passa a ser regido por leis intrínsecas que geram, ciclicamente, as crises de superprodução. Diferente das crises pré-capitalistas (causadas pela escassez de colheitas ou pestes), a crise moderna ocorre pelo excesso de mercadorias acumuladas que não encontram compradores solventes, resultando em:

  • Destruição massiva de forças produtivas;
  • Desemprego estrutural e rebaixamento salarial;
  • Aprofundamento do fosso que separa a opulência dos detentores de capital da subsistência limite da classe trabalhadora.
    Este mecanismo cíclico impede a ascensão social generalizada das maiorias, tornando a exclusão uma regra sistêmica, e não uma falha temporária do mercado.

5. Conclusão: A Práxis do Formador Classista

A síntese entre a disciplina formativa inicial e a compreensão das leis científicas da história transforma o sujeito em um formador classista. O Manifesto Comunista, de Marx e Engels, sistematiza essa transição ao apontar que a história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes, convocando à organização autônoma do proletariado. Leo Huberman, em A História da Riqueza do Homem, reforça essa perspectiva ao traçar a evolução econômica desde o feudalismo, demonstrando graficamente como o trabalho humano é a única fonte real de valor e riqueza, apesar de historicamente alienado pelo capital.
Portanto, a militância classista de lideranças que partilham dessa trajetória não resulta de uma escolha fortuita, mas do tensionamento dialético entre as origens formativas rigorosas, a constatação empírica das barreiras de exclusão do capital e o compromisso ético e político com a emancipação humana através da organização dos trabalhadores.

Referências Bibliográficas

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, do Estado e da Propriedade Privada. São Paulo: Expressão Popular, 2012.
ENGELS, Friedrich. A Dialética da Natureza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
HUBERMAN, Leo. A História da Riqueza do Homem. 21. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1986.
MARX, Karl. A Chamada Acumulação Primitiva. In: MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2005.
MARX, Karl. O Processo de Acumulação do Capital / Crises de Superprodução. In: MARX, Karl. O Capital: Livro III. São Paulo: Boitempo, 2017.

Sugestão de Rodapé (Bio)

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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