Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
Este artigo analisa o fenômeno sociológico e psicológico da permanência e produtividade da geração nascida no pós-Segunda Guerra Mundial (1945–1965) no mercado de trabalho contemporâneo. Utilizando o método do materialismo histórico e dialético e o conceito de análise em paralaxe, contrapõe-se a narrativa gerencialista da “resiliência psicológica” à realidade concreta da luta de classes e da reestruturação produtiva no setor de grande varejo e supermercados no Brasil. Demonstra-se que a propalada “vantagem psicológica” dessa geração, longe de ser um traço biológico ou cultural abstrato, é o resultado dialético da práxis política, da organização sindical e da resistência à subsunção real do trabalho ao capital.
1. Introdução: O Deslocamento de Perspectiva (A Paralaxe)
O debate contemporâneo nas ciências gerenciais e na psicologia organizacional tem dedicado atenção minuciosa à permanência de trabalhadores seniores — especificamente a coorte demográfica dos Baby Boomers (1945–1965) — na População Economicamente Ativa (PEA). Discursos hegemônicos veiculados por órgãos da imprensa econômica internacional tendem a romantizar essa longevidade laborativa, categorizando-a como uma “vantagem psicológica sem igual”, caracterizada por alta tolerância à frustração, lealdade institucional e estabilidade emocional.
Contudo, ao submeter o objeto à análise em paralaxe — o deslocamento do ponto de observação que revela a alteração na própria estrutura do objeto observado —, a harmonia funcionalista desmorona. Sob a lente do materialismo histórico e dialético, a suposta “vantagem psicológica” revela-se como a manifestação superestrutural de condicionantes materiais e históricos específicos. É preciso frisar que não existe uma “geração” homogênea em abstrato: existem os proprietários dos meios de produção e existem os trabalhadores que vendem sua força de trabalho. Portanto, examinar essa coorte exige investigar a fração de classe que vivenciou a transição do capitalismo fordista para a acumulação flexível no chão de loja do grande varejo de alimentos.
2. O Contexto Histórico-Material e a Reestruturação do Grande Varejo
A base material que moldou a subjetividade dos trabalhadores nascidos entre 1945 e 1965 no Brasil foi marcada por profundas contradições. Na juventude e início da vida adulta, essa coorte enfrentou o fechamento dos canais democráticos sob a Ditadura Militar e o posterior colapso do modelo de substituição de importações, que culminou na chamada “década perdida” de 1980.
No setor de comércio e serviços, especificamente no segmento de supermercados, as últimas cinco décadas representaram a transição de um mercado fragmentado de armazéns e feiras locais para a hiperconcentração oligopolista, dominada por corporações transnacionais. Esse processo de centralização do capital impôs uma severa reestruturação produtiva, caracterizada por:
- Subsunção Real do Trabalho: Introdução de tecnologias de automação (código de barras, leitores ópticos, sistemas de inventário em tempo real) que esvaziaram o saber-fazer do trabalhador e intensificaram o ritmo de exploração.
- Flexibilização Laboral: Expansão das jornadas de trabalho, precarização das contratações e introdução de polivalências multifuncionais que elevaram o desgaste físico e psicossomático do operariado do varejo.
3. A Práxis Sindical como Fator de Mediação Psicológica
A psicologia socio-histórica, fundamentada no materialismo dialético, postula que a consciência humana não reflete passivamente o ambiente, mas é construída na atividade social transformadora (a práxis). Desse modo, a estabilidade e a firmeza analítica observadas em setores da geração de 1945–1965 não decorrem de um amortecimento nostálgico do passado, mas sim da experiência histórica da organização de classe.
O final da década de 1970 e o transcorrer dos anos 1980 foram marcados pelo ressurgimento do movimento operário brasileiro. No setor de comércio e serviços — historicamente fragmentado e de difícil sindicalização devido à alta rotatividade (turnover) —, a eclosão de movimentos grevistas massivos na segunda metade da década de 1980 rompeu o fluxo linear da exploração capitalista.
[Militância / Consciência de Classe] │ ▼ (Mediação Dialética)[Condições Materiais Críticas] ───► [Estrutura Psíquica Solidificada / "Resiliência"] ▲ │ (Tensão Dialética)[Pressão do Capital / Exploração]
Sob a ótica dialética, o engajamento na militância classista opera como uma ferramenta cognitiva superior. Enquanto o trabalhador alienado tende a internalizar as crises, o desemprego e o adoecimento laborativo como fracassos estritamente individuais — gerando o adoecimento mental típico das gerações Y e Z —, o trabalhador consciente compreende tais fenômenos como contradições estruturais do modo de produção capitalista. A inserção no sindicato e em partidos de vanguarda proporciona um arcabouço metodológico de leitura da realidade (como o planejamento estratégico e situacional) que atua como um poderoso fator de preservação da integridade psíquica.
4. A Longevidade Produtiva sob a Ótica da Exploração e da Resistência
A permanência de trabalhadores com mais de 60 anos no ambiente produtivo contemporâneo expõe uma dupla dimensão dialética:
A Perspectiva do Capital
Para o modo de produção, a retenção de força de trabalho sênior e altamente qualificada é vantajosa na medida em que extrai o valor de uma “inteligência cristalizada” — competências e heurísticas de resolução de problemas desenvolvidas ao longo de décadas —, muitas vezes sem os custos de treinamento inicial e com maior estabilidade operacional frente às flutuações do mercado de trabalho juvenil.
A Perspectiva da Classe
Para o trabalhador sênior consciente, a recusa em se retirar completamente da cena produtiva transcende a mera necessidade de complementação de renda em sistemas previdenciários deprimidos. Configura-se como um ato de resistência e transmissão de memória histórica. A presença do trabalhador veterano no chão de loja atua como um contra-peso à desmobilização política provocada pelas práticas modernas de gestão de recursos humanos (focado no individualismo do coaching e das metas atomizadas). A experiência acumulada converte-se em capital político compartilhado com as novas gerações de assalariados.
5. Considerações Finais
A análise em paralaxe demonstra que a “vantagem psicológica” da geração nascida entre 1945 e 1965 não é um dado apriorístico da psicologia do desenvolvimento, mas sim uma construção histórica e socialmente determinada. Para a fração da classe trabalhadora que enfrentou a consolidação e a reestruturação do grande varejo de alimentos no Brasil sob a égide da militância sindical, a lucidez, a longevidade e a capacidade de enfrentamento de crises são subprodutos da luta organizada.
Conclui-se que a produtividade e a robustez psíquica desse segmento não se inserem na lógica da harmonia corporativa burguesa, mas manifestam-se como o testemunho material de que a consciência política e a solidariedade de classe constituem determinantes fundamentais para a saúde mental, a dignidade e a sobrevivência do trabalhador em face das pressões do capital.
Referências Bibliográficas
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- ŽIŽEK, Slavoj. Visão em Paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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