Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
O presente artigo analisa o debate contemporâneo travado no âmbito da plataforma geopolítica internacional Dialogue Works, mediada pelo acadêmico Nima Rostami Alkhorshid, que tensiona as perspectivas interpretativas do educador e analista sino-canadense Jiang Xueqin e as formulações técnico-militares do ex-analista da CIA, Larry C. Johnson. Sob o método da paralaxe classista e o referencial do materialismo histórico-dialético, o estudo investiga a transição sistêmica global da unipolaridade sob a égide do capital financeiro transnacional para um ordenamento multipolar. Contrastam-se as predições sistêmicas e sistêmicas da “Psico-História” e da Teoria dos Jogos aplicadas por Jiang às métricas rígidas de logística e capacidade industrial-militar apresentadas por Johnson. Por fim, o artigo examina como o colapso dessa hegemonia evoca a necessidade de preservação e acionamento dos mecanismos multilaterais e constitucionais reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) para a salvaguarda da paz e da soberania das nações da periferia global.
Palavras-chave: Materialismo Histórico; Paralaxe Classista; Multipolaridade; Mecanismos Multilaterais; ONU.
1. Introdução: O Espaço de Debate e o Método da Paralaxe Classista
A crise estrutural do modo de produção capitalista contemporâneo manifesta-se não apenas no plano econômico e produtivo, mas também na violenta reconfiguração das coordenadas geopolíticas globais. O avanço de conflitos multidimensionais na Eurásia e no Oriente Médio coloca em evidência a exaustão do modelo imperialista unipolar liderado pelos Estados Unidos da América. É nesse cenário de disputa de narrativas que plataformas de mídia alternativa, como o canal Dialogue Works, assumem papel de relevo ao unificar vozes dissidentes e intelectuais de espectros variados do cenário internacional.
Para apreender a essência do rico debate que contrapõe as teses preditivas do Professor Jiang Xueqin e o realismo de inteligência militar de Larry C. Johnson, faz-se indispensável o emprego do método da paralaxe classista fundado no materialismo histórico-dialético. Tal abordagem consiste no deslocamento do olhar analítico das aparências superestruturais (discursos moralistas, justificativas ideológicas e teorizações abstratas) para a raiz infraestrutural das relações sociais de produção.
O objetivo deste artigo é inventariar este dissenso teórico, delimitando os limites da simulação preditiva frente à concretude da logística militar, sob a moldura normativa dos mecanismos jurídicos multilaterais chancelados pela Carta das Nações Unidas.
2. A Gênese Material do Declínio Imperial e o Embate Metodológico
A divergência metodológica observada entre os debatedores sintetiza uma importante fratura nas correntes analíticas críticas contemporâneas. O Prof. Jiang Xueqin adota um modelo interpretativo ancorado na teoria dos jogos e na busca de padrões macro-históricos transclássicos, calculando as probabilidades de colapso hegemônico a partir de analogias estruturais, como a Guerra do Peloponeso, aproximando-se de uma formulação sociológica holística. Jiang identifica com precisão materialista a raiz da financeirização global na virada institucional operada pelo capital bancário transnacional na aurora da modernidade capitalista (MARX, 2013). Todavia, ao estender suas predições para cenários catastróficos imediatos e ao dialogar com leituras heréticas ou escatológicas do poder global, seu modelo flerta com o idealismo abstrato.
Em contrapartida, o ex-analista de inteligência Larry C. Johnson atua como o contraponto empírico e materialista estrito no interior da plataforma. Johnson reconduz o debate à realidade fáctica das forças produtivas aplicadas à guerra: a capacidade fabril de produção metalúrgica, os gargalos logísticos no suprimento de munições de artilharia, a exaustão tecnológica de complexos sistemas de defesa aeroespacial (como o Iron Dome ou os sistemas de mísseis ocidentais) frente à saturação por vetores assimétricos, drones e mísseis hipersônicos desenvolvidos pela vanguarda euroasiática (Rússia-China-Irã).
Sob a perspectiva da dialética da natureza (ENGELS, 2020), a análise de Johnson valida o princípio de que o pensamento e a estratégia estratégica não podem flutuar acima das leis físicas e das condições materiais de existência. A perda da capacidade dos Estados Unidos de projetar poder militar de forma irrestrita na Eurásia e no Estreito de Ormuz não decorre de uma decisão de vontade ou de “episódios maníacos” de suas lideranças políticas, mas do esgotamento histórico e físico de sua base industrial desidratada por décadas de desindustrialização neoliberal.
3. A Transição para a Multipolaridade e as Instituições Econômicas Alternativas
A incapacidade do bloco ocidental de impor sanções econômicas definitivas ou de isolar militarmente as potências eurasianas demonstra a emergência de uma nova totalidade concreta. Conforme discutido pelos economistas de orientação heterodoxa que orbitam o debate, a transição para um ordenamento multipolar acelera-se por meio de respostas soberanas das nações agredidas pelo aparato financeiro unipolar.
Diante do bloqueio e do uso político do sistema de compensação financeira internacional (SWIFT) como arma de coerção unilateral, a China e seus parceiros estratégicos articularam estruturas institucionais alternativas. A consolidação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), o adensamento da Organização para Cooperação de Xangai (SCO) e a expansão orgânica do bloco BRICS+ representam a criação de novos circuitos de acumulação e reserva lastreados em recursos reais (commodities, energia e sistemas baseados em ouro e tecnologia blockchain).
| Vetor de Análise | Perspectiva Preditiva (Jiang) | Realismo de Inteligência (Johnson) | Síntese Materialista Histórica |
|---|---|---|---|
| Metodologia Principal | Teoria dos Jogos e Padrões Históricos (Psico-História). | Análise Tática, Logística e Capacidade Industrial Militar. | Dialética entre forças produtivas e relações internacionais. |
| Causa da Crise do Dólar | Contradição interna do rentismo e da dívida parasitária secular. | Incapacidade estatal de sustentar guerras em múltiplos fronts simultâneos. | Crise de superacumulação e financeirização destrutiva do capital. |
| Dinâmica do Conflito | Movimento de xeque-mate geopolítico inevitável. | Equilíbrio determinado pelo estoque de armas e atrito logístico real. | Salto qualitativo decorrente de alterações quantitativas na produção material. |
| Essa reorientação dos fluxos de comércio global, que Jiang caracteriza como a criação de uma “Fortaleza Continental” norte-americana em colisão com a Eurásia, expressa, na verdade, os limites espaciais da reprodução do capital imperialista. O imperialismo, em sua fase de senilidade parasitária, necessita recorrer à pirataria e ao cerco militar para tentar salvaguardar um esquema de endividamento público insustentável. |
4. Os Mecanismos Multilaterais da ONU e o Direito Constitucional Internacional
É em meio a este cenário de aguda perigosidade nuclear e assimetria bélica que a preservação dos mecanismos multilaterais reconhecidos e instituídos pela Organização das Nações Unidas (ONU) resgata sua centralidade histórica e constitucional. A arquitetura jurídica erguida no pós-Segunda Guerra Mundial, expressa na Carta da ONU, foi concebida precisamente para atuar como o elemento de contenção (Katechon institucional) contra o arbítrio de potências imperiais e a eclosão de conflitos de aniquilação total.
O avanço de ações unilaterais que violam flagrantemente os princípios basilares do Direito Internacional — tais como o respeito à soberania nacional, a integridade territorial e o princípio de não-intervenção (Artigo 2º da Carta da ONU) — exige o acionamento de salvaguardas multilaterais, dentre as quais destacam-se:
- O Conselho de Segurança da ONU (CSNU): Responsável primário pela manutenção da paz e da segurança internacional (Capítulo VII), cujos mecanismos de resolução pacífica de controvérsias e sanções coletivas legítimas são sistematicamente esvaziados pelo uso do veto unipolar protetivo de agendas agressivas no Oriente Médio e na periferia global.
- A Resolução 377A (V) da Assembleia Geral (“Unidos pela Paz”): Mecanismo constitucional multilateral que confere à Assembleia Geral a faculdade de recomendar medidas coletivas aos Estados-membros quando o Conselho de Segurança encontra-se paralisado por falta de unanimidade entre os membros permanentes.
- A Corte Internacional de Justiça (CIJ): Órgão judicial principal das Nações Unidas, acionado de forma soberana por nações do Sul Global para processar, julgar e condenar atos de agressão territorial e crimes de genocídio estatal, restabelecendo a primazia da legalidade sobre a força militar nua.
Como demonstrado na análise em paralaxe, a insistência da diplomacia chinesa e eurasiana em ancorar suas parcerias estratégicas nas diretrizes formais da Organização das Nações Unidas não decorre de idealismo jurídico simplista, mas sim de um cálculo estratégico realista. Trata-se da defesa do ordenamento jurídico internacional nascido do pacto antifascista de 1945 contra a tentativa ocidental de impor uma flexível “ordem baseada em regras” (rules-based order) casuísticas, desenhadas ad-hoc para atender aos interesses mutáveis de Washington e do capital financeiro.
5. Considerações Finais
O debate articulado na plataforma Dialogue Works desnuda o esgotamento histórico da unipolaridade. Enquanto o Prof. Jiang oferece esquemas preditivos que alertam para a gravidade sistêmica da crise do capital financeiro, Larry C. Johnson ancora a conjuntura na incontornável realidade material das capacidades industriais e logísticas de defesa.
A síntese dialética deste embate revela que a transição para um mundo multipolar é um processo material irreversível, movido pelas contradições internas do próprio imperialismo. Diante do perigo iminente de escalada bélica e caos global, a defesa intransigente dos mecanismos multilaterais e das prerrogativas constitucionais da Carta da ONU apresenta-se como a única via racional para assegurar a autodeterminação dos povos e salvaguardar a humanidade da destruição metabólica operada pela fase agonizante do capital mundializado.
Referências Bibliográficas
- CHOMSKY, Noam. Hegemonia ou Sobrevivência: A estratégia imperialista dos EUA. São Paulo: Crítica, 2004.
- ENGELS, Friedrich. Dialética da Natureza. São Paulo: Boitempo, 2020.
- LOSURDO, Domenico. O Imperialismo e o Declínio da Escola do Fato. In: Democracia ou Bonapartismo. São Paulo: Boitempo, 2004.
- MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I: O Processo de Produção do Capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Carta das Nações Unidas e Estatuto da Corte Internacional de Justiça. São Francisco, 1945.
- RESVOLUÇÃO 377 A (V). Uniting for Peace. Assembleia Geral das Nações Unidas, Nova York, 1950.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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