O Tabuleiro Euroasiático e a Fortaleza Continental: Uma Análise Escatológico-Geopolítica sob a Lente da Dialética Materialista e do Planejamento Situacional

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

O presente artigo analisa as convergências e fraturas ideológicas expostas no debate contemporâneo entre as visões gnóstico-chinesa (Professor Jiang) e tradicionalista-russa (Alexandr Dugin) acerca da transição sistêmica global. Utilizando o método da paralaxe classista, o materialismo histórico-dialético e as ferramentas do Planejamento Estratégico Situacional (PES-MAPP), investiga-se como categorias teológicas e escatológicas (como o Katechon e o “Anticristo”) operam como superestruturas ideológicas que traduzem conflitos materiais de classe e disputas geográficas concretas. Examina-se a reconfiguração do imperialismo estadunidense rumo a uma “Fortaleza Continental” na América do Norte, confrontada pela vanguarda euroasiática (Rússia-China-Irã). Conclui-se que a mistificação mística dos processos históricos, embora capte o esgotamento do modelo unipolar, desmobiliza a práxis revolucionária ao substituir a determinação da luta de classes por determinismos providenciais.
Palavras-chave: Geopolítica; Materialismo Histórico; PES-MAPP; Paralaxe Classista; Escatologia.

1. Introdução: A Paralaxe Analítica e o Jogo Fisionômico da Geopolítica

As transformações na arquitetura do poder global no primeiro quartel do século XXI demandam instrumental teórico capaz de romper a superfície dos discursos oficiais. A análise em paralaxe consiste no deslocamento metodológico que permite enxergar o mesmo objeto a partir de duas posições distintas: a narrativa superestrutural (teológica, mística ou ideológica) e a determinação infraestrutural (as relações de produção, a acumulação de capital e a apropriação do espaço geográfico).
O debate entre o Professor Jiang e Alexandr Dugin revela um fenômeno sintomático do capitalismo tardio: a reemergência da linguagem escatológica para explicar a crise da hegemonia ocidental. Enquanto o pensamento burguês convencional rotula esses intelectuais como meros operadores de propaganda estatal, a paralaxe classista desvela que suas formulações operam como tentativas complexas de conferir sentido à transição para a multipolaridade. Este artigo propõe dissecar esse cenário combinando o rigor do materialismo histórico com as categorias operacionais da Metodologia Altadir de Planificación Popular (MAPP) e do Planejamento Estratégico Situacional (PES), mapeando os vetores de força que disputam a hegemonia planetária.

2. Mediação Histórica: Da Gênese do Capital Financeiro ao “Tecnato” Anglo-Saxão

A raiz da decomposição dos chamados “valores ocidentais”, identificada na precisão cronológica da fundação do Banco da Inglaterra em 1694, marca a transição qualitativa do capital comercial para as formas embrionárias do capital financeiro moderno. Como formulado por Marx (2013), o desenvolvimento do sistema de crédito público e a criação da dívida soberana transformaram o Estado-nação em fiador dos interesses da classe mercantil e financeira transnacional.
Para legitimar a hipoteca das gerações futuras em favor do rentismo, a superestrutura ideológica britânica ergueu o arcabouço do Iluminismo. A santificação da propriedade privada em John Locke e a posterior entronização do utilitarismo em Jeremy Bentham e John Stuart Mill operaram a redução ontológica do ser humano à condição de átomo consumidor, movido pelo binômio pragmático prazer-dor. O advento do calvinismo forneceu a base teológica necessária para esse processo, operando a inversão de que a prosperidade material na terra constitui o sinal empírico da salvação divina (WEBER, 2004).
Na atual conjuntura de crise estrutural do capital, a hipertrofia financeira dos Estados Unidos — materializada em uma dívida pública de dezenas de trilhões de dólares — impõe uma reconfiguração situacional drástica. O projeto político de recuo para uma “Grande América do Norte” ou “Fortaleza Continental” representa a tentativa de transmutar um império parasitário-financeiro em um império fundado no controle absoluto de recursos bióticos e energéticos (petróleo, minerais raros, terras raras).
Sob a ótica do PES-MAPP, esse movimento configura uma macroestratégia de sobrevivência de um ator hegemônico em declínio. A tática envolve o uso planejado da “terra arrasada” no Oriente Médio e na periferia eurasiana (guerra por procuração na Ucrânia, bombardeios no Líbano e cerco ao Irã) como meio de sabotar as linhas de suprimento dos concorrentes e forçar o mercado mundial a consumir a energia e a segurança remanescentes do bloco anglo-saxão.

3. O Mapeamento de Atores pelo MAPP: O Tabuleiro Euroasiático e a Categoria do Katechon

A aplicação da metodologia MAPP permite estruturar o conflito geopolítico contemporâneo a partir de uma matriz de atores, interesses, recursos e vetores de controle. No centro da resistência ao projeto unipolar ocidental, localiza-se a vanguarda euroasiática, composta pela aliança tática entre Rússia, China e Irã.

       [Fortaleza Continental] <====== Conflito ======> [Eixo Euroasiático]
       (EUA / Anglo-Esfera)                             (Rússia / China / Irã)
                |                                                 |
     - Dívida de $39 Trilhões                           - Lastro Real (Ouro/Cripto)
     - Imperialismo de Recursos                         - Multipolaridade Soberana
     - Ideologia: Individualismo Liberal                - Ideologia: Tradicionalismo / Katechon

A formulação teórica de Alexandr Dugin reintroduz a categoria teológico-política do Katechon — a força imperial que retém a manifestação do caos e a dissolução da tradição pelo individualismo liberal burguês. Na paralaxe classista, o Katechon não é uma entidade mística, mas a personificação ideológica do Estado russo em sua necessidade histórica de autopreservação contra a pilhagem imperialista ocidental que se seguiu ao colapso da União Soviética.
O paradoxo situa-se na coexistência de duas camadas de realidade no mesmo espaço de ação:

  • A Situação Concreta (Realismo Geopolítico): O Estado russo atua de forma estritamente pragmática, defendendo suas fronteiras, nacionalizando setores estratégicos e reorientando sua economia industrial para responder às sanções econômicas, o que resultou em um renascimento de sua soberania tecnológica.
  • A Situação Projetada (Mística Escatológica): As elites intelectuais tradicionalistas codificam essa defesa material como uma batalha metafísica contra o “Anticristo” civilizacional do Ocidente pós-liberal.
    A China, por sua vez, apresenta uma contradição interna específica no tabuleiro do PES. O sucesso material de sua abertura econômica, que retirou bilhões de indivíduos da miséria absoluta, realizou-se por meio da apropriação das forças produtivas capitalistas de alta tecnologia. Contudo, como aponta a crítica da dialética da natureza, a introdução desse metabolismo mercantil engendra o risco latente de erosão do tecido social tradicional, gerando megacidades hipertecnológicas marcadas pelo atomismo social, individualismo e redução da taxa de natalidade — sintomas da penetração cultural daquilo que Dugin conceitua como o “veneno” do capitalismo ocidental.

4. Crítica ao Idealismo Escatológico: A Dialética da Natureza e o Estado

A transmutação da luta de classes em uma narrativa demológica ou conspiratória (centrada na “classe Epstein”, maçonaria ou seitas como o Sabbatismo e o Franquismo) constitui um severo desvio idealista que obscurece as leis do desenvolvimento histórico.
Em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Engels (2019) demonstra que o Estado não surge de um design divino, de uma missão teocrática (Katechon) ou de um pacto secreto entre elites corrompidas. O Estado é o produto da sociedade em um determinado estágio de desenvolvimento econômico, a confissão de que essa sociedade se enredou numa contradição indissolúvel consigo mesma e se dividiu em antagonismos inconciliáveis que é incapaz de conjurar. Para que esses antagonismos — classes com interesses econômicos colidentes — não se devorem, torna-se necessária uma força que se coloque aparentemente acima da sociedade para amortecer o choque e mantê-lo dentro dos limites da “ordem”.
A degradação moral e as redes de chantagem da elite financeira ocidental não derivam de possessões demoníacas metafóricas, mas refletem a degeneração endêmica de uma classe dominante parasitária que, desvinculada de qualquer função produtiva real, consome a riqueza social por meio da especulação e da violência estrutural. A ciência e a tecnologia não são intrinsecamente malignas ou “satânicas”, como sugere o tradicionalismo radical; elas são forças produtivas cujo caráter alienado e destrutivo é determinado unicamente pelas relações de produção capitalistas que as submetem à lógica do lucro e do controle social.
Ao deslocar a resolução do conflito histórico para a intervenção do cosmos, para a esperança do “grande dilúvio” purificador ou para o surgimento de indivíduos espiritualmente iluminados na escuridão, a escatologia quântico-idealista cumpre uma função política imobilizadora. Ela retira da classe trabalhadora global o seu papel de sujeito consciente da história, substituindo a necessidade de organização política, sindical e revolucionária pela espera passiva pela auto-regulação metafísica do universo.

5. Considerações Finais: A Práxis Diante da Totalidade Concreta

O diálogo geopolítico e conceitual examinado revela que a unipolaridade imperialista é incapaz de sustentar sua hegemonia sem recorrer à violência aberta e à destruição metabólica da natureza e das sociedades. No entanto, a superação desse “inferno material” não se dará pelo recuo a um passado pré-iluminista ou pelo isolamento em catacumbas místicas de pureza espiritual.
A verdadeira resposta à crise civilizacional exige a síntese dialética: a apropriação consciente das forças produtivas e tecnológicas desenvolvidas pela humanidade, libertando-as do invólucro sufocante da propriedade privada e do capital financeiro. A multipolaridade será emancipatória apenas se for sustentada pela organização concreta dos povos soberanos na transformação de suas realidades geográficas e sociais. O horizonte da história humana não está determinado por profecias incontornáveis, mas permanece aberto à práxis transformadora daqueles que produzem a vida material.

Referências Bibliográficas

  • DUGIN, Alexandr. A Quarta Teoria Política. Austral: Ars Regia, 2012.
  • ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019.
  • ENGELS, Friedrich. Dialética da Natureza. São Paulo: Boitempo, 2020.
  • MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993. (Fundamentos do Planejamento Estratégico Situacional).
  • MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I: O Processo de Produção do Capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
  • WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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