A Abolição Inconclusa: Uma Análise em Paralaxe da Lei Áurea, do Latifúndio e do Estado Repressivo sob a Lente do Materialismo Dialético (1888-2026)

Resumo: Este artigo analisa os 138 anos da promulgação da Lei Áurea no Brasil através de uma perspectiva comparada e dialética. Utilizando a “paralaxe classista”, investiga-se por que o Brasil, ao contrário de outras potências capitalistas, optou pela manutenção do binômio patrimonialismo-escravismo em detrimento da reforma agrária. O texto examina a gênese das instituições de controle social (Polícia) e a classificação da ONU sobre a escravidão como a “pior violência” da história humana, conectando o passivo colonial às estruturas de governabilidade contemporâneas.

1. Introdução: O 13 de Maio como Marco Jurídico vs. Fato Social

A assinatura da Lei nº 3.353 em 13 de maio de 1888 representa a transição da exploração do corpo-mercadoria para a exploração da força de trabalho sob a égide da precarização. Sob a lente do materialismo dialético, a abolição não foi uma concessão benevolente da monarquia, mas o resultado de uma contradição insuportável entre as forças produtivas em modernização e as relações de produção escravocratas, exacerbada pela resistência ativa nos quilombos e a pressão do capital internacional.

2. A “Reforma Agrária às Avessas” e a Lei de Terras de 1850

Enquanto países como os EUA (Homestead Act de 1862) e a França Revolucionária democratizaram o acesso à terra para consolidar o mercado interno capitalista, o Brasil antecipou-se à abolição com a Lei de Terras de 1850.

  • Análise em Paralaxe: Enquanto no capitalismo central a terra tornou-se um meio de produção acessível ao trabalhador livre, no Brasil ela foi convertida em “patrimônio da elite” antes que o negro pudesse possuí-la.
  • Efeito Dialético: A liberdade jurídica foi acompanhada pelo cerceamento geográfico. O ex-escravizado foi “libertado” para a vadiagem punível ou para a servidão por dívida no latifúndio, mantendo a estrutura da “Casa Grande” sob uma nova roupagem contratual.

3. O Aparelho Repressivo: Do Capitão-do-Mato à Segurança Pública

A tese de que a polícia brasileira nasceu para a manutenção da ordem escravocrata é corroborada pelo materialismo histórico. A função ontológica das forças de segurança no século XIX era a captura de “fugitivos” e a repressão de quilombos.
Em 2026, a persistência da letalidade policial contra corpos negros revela que a instituição não sofreu uma ruptura democrática, mas uma adaptação funcional. No PESC-MAPP (Mapeamento de Atores e Problemas), a segurança pública figura como o “nó crítico” que garante a governabilidade da elite, protegendo a propriedade em detrimento da vida.

4. Análise Comparada: O Capitalismo e a Distribuição de Ativos

PaísModelo de TransiçãoResultado Estrutural
Estados UnidosAbolição + Homestead ActCriação de classe média rural (embora com segregação no Sul).
Japão (Meiji/Pós-Guerra)Fim do feudalismo + Reforma AgráriaModernização acelerada e mercado consumidor interno forte.
BrasilAbolição + Latifúndio Intocado“Elite do Atraso”, concentração de renda e racismo estrutural.
A ausência de reforma agrária no Brasil impediu a formação de uma base de pequenos proprietários negros, perpetuando o que sociólogos denominam “modernização conservadora” — onde o novo (capitalismo financeiro) se apoia no arcaico (patrimonialismo).

5. A Chaga Histórica e a Visão da ONU

A Organização das Nações Unidas, através do Conselho de Direitos Humanos, tipifica a escravidão transatlântica como a violência extrema por excelência, pois não se limitou à agressão física, mas à “morte social” e à destruição da identidade.

  • Significado para a Humanidade: A escravidão é o crime que permitiu a acumulação primitiva de capital no Ocidente. Ignorar a reparação é, portanto, manter o usufruto de um crime contra a humanidade. No Brasil de 2026, a “violência” manifesta-se na sub-representação política e na hiper-representação carcerária.

6. Conclusão: A Governabilidade e o Pacto de Silêncio

Conforme o postulado de que “não se sustenta poder que não se acumplicie com a elite do atraso”, observa-se que a governabilidade brasileira tem sido, historicamente, um exercício de gestão das crises da elite. A queda do Império em 1889, motivada pela “fúria dos proprietários” não indenizados, estabeleceu o tom da República: qualquer avanço social que toque na propriedade privada ou no privilégio patrimonialista enfrenta a ruptura institucional.
A superação da “chaga cruel” exige mais do que celebrações simbólicas. Requer o enfrentamento dos dois pilares citados: a desconstrução do patrimonialismo estatal e a implementação definitiva de uma reforma agrária que cumpra a função social da terra, conforme previsto na Constituição de 1988, mas ainda sabotada pelo poder econômico.

Referências Bibliográficas e Documentais

Constitucionais e Legais:

  1. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. (Especialmente Art. 5º, XLII – racismo como crime inafiançável; e Art. 184 – desapropriação para reforma agrária).
  2. BRASIL. Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888 (Lei Áurea).
  3. BRASIL. Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850 (Lei de Terras).
    Internacionais (ONU):
  4. ONU. Declaração e Programa de Ação de Durban (2001). Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata.
  5. ONU. Relatórios do Relator Especial sobre Formas Contemporâneas de Escravidão. Organização das Nações Unidas, 2024-2025.
  6. UNESCO. O Projeto Rota do Escravo: Resistência, Liberdade, Herança.
    Acadêmicas e Teóricas:
  7. FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro. Ed. Globo.
  8. JESOUROUN, Jessé Souza. A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato. Ed. Leya.
  9. MARX, Karl. O Capital, Livro I, Capítulo 24: A Chamada Acumulação Primitiva.
  10. MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo (PESC).
  11. MOURA, Clóvis. Dialética da Radicalização Negra. Ed. Dandara.
  12. ZIZÉK, Slavoj. A Visão em Paralaxe. Ed. Boitempo (Para o suporte metodológico da análise).
    José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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