Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
Este artigo analisa a transição das linguagens celebrativas — hinos nacionais e manifestações religiosas — de ferramentas de coesão social para instrumentos de dissuasão e controle. Sob a ótica da análise em paralaxe, investiga-se como a estética militarista e a semântica do combate operam na fragmentação da natureza humana, servindo à manutenção de estruturas de poder e à divisão de classes. O estudo fundamenta-se nos princípios de fraternidade universal preconizados pelos mecanismos multilaterais da Organização das Nações Unidas (ONU).
1. Introdução: A Natureza do SER e a Fragmentação Coercitiva
A essência do ser humano, historicamente reconhecida por vertentes humanistas como colaborativa e gregária, sofre processos de fragmentação sistemática para fins de governabilidade e controle social. A divisão da humanidade em classes não se sustenta apenas pela força econômica, mas pela imposição de uma superestrutura simbólica que utiliza hinos, símbolos e rituais como demarcadores de fronteiras e vetores de hostilidade.
2. A Estética Militarista como Tecnologia de Divisão
A adoção de termos como “marcha” e a celebração de “sangue” e “vitória sobre o inimigo” em contextos de paz não são anacronismos meramente estéticos; são tecnologias de controle.
- O Hino como Arma: Quando um hino nacional prioriza a morte e a destruição do adversário, ele estabelece um estado de alerta constante que impede a plena fruição da paz e da prosperidade ativa.
- O Sequestro do Sagrado: A transposição do léxico bélico para o campo da fé (e.g., manifestações religiosas em formato de marcha militar) opera uma inversão semântica. O “Mestre Terno” é substituído pelo “Comandante Excludente”, transformando a espiritualidade — que deveria ser um fator de união — em uma demonstração de força política e ocupação territorial.
3. A Semântica do Ódio e a “Serpente” do Totalitarismo
A história do século XX demonstra que o fascismo e o nazismo se alimentam da estética do choque. O militarismo nas celebrações civis e religiosas atua como um “treinamento” psicológico das massas, normalizando a hierarquia rígida e o desprezo pela alteridade.
A celebração, que por definição deveria ser o compartilhamento da alegria e dos valores sublimes (amor, solidariedade e fraternidade), é contaminada pela agressividade. Esse processo despoja o cidadão de sua subjetividade, transformando-o em peça de uma engrenagem de confronto, facilitando a manipulação pelas elites no poder para a manutenção do status quo e da divisão de classes.
4. A Perspectiva Multilateral e o Direito Humano à Paz
Os mecanismos multilaterais, liderados pela ONU, estabelecem que a cultura da paz é indissociável do desenvolvimento e dos direitos humanos. O uso de hinos e símbolos para incitar o nacionalismo exacerbado ou a intolerância religiosa fere os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A verdadeira prosperidade, no contexto de uma nação democrática, deve ser ativa e participativa. Ela se revela no gesto de solidariedade — como o auxílio mútuo em arenas competitivas — e não no passo cadenciado de uma marcha que exclui o diferente.
Conclusão
A atualização dos hinos e das formas de celebração nacional e religiosa é uma necessidade pedagógica e civilizatória. Para que os valores sublimes da humanidade prevaleçam sobre a “serpente” do ódio, é imperativo substituir a semântica do combate pela gramática da construção coletiva. A celebração só atinge sua plenitude quando deixa de ser um instrumento de dissuasão militarista e passa a ser o reflexo de uma sociedade que prioriza a vida, o trabalho e a dignidade humana acima das divisões de classe.
Referências Bibliográficas
- ONU. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Assembleia Geral das Nações Unidas, 1948.
- ONU. Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz. Resolução 53/243, 1999.
- ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
- FROMM, Erich. O Medo à Liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
- UNESCO. Constituição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. “Pois que as guerras nascem na mente dos homens, é na mente dos homens que devem ser erguidas as defesas da paz”, 1945.
- SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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