DA OMISSÃO AO MERCENARISMO: A DEGENERAÇÃO ÉTICA DA CLASSE COMO ENTRAVE À SOBERANIA NACIONAL

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

O presente artigo analisa, sob a ótica do materialismo dialético e histórico, o processo de involução moral e política de sujeitos inseridos na dinâmica da luta de classes no Brasil. Utilizando a lente do PES C-MAPP (Política, Economia, Sociedade, Cultura, Meio Ambiente, Política e Psicologia), investiga-se como o “oportunismo rasteiro” do trabalhador omisso (o “carona”) atua como estágio embrionário para a formação de figuras degeneradas: o sindicalista pelego, o transfuga e o político mercenário. O texto alerta para o risco de uma herança histórica de infâmia, onde a ausência de uma ética de classe sólida conduz ao individualismo predatório, comprometendo a soberania nacional e a formação de futuras gerações.

1. Introdução: A Dialética da Traição

Na história brasileira, o conceito de “traidor” é frequentemente debatido entre a traição à pátria ou à coroa. Contudo, uma análise em paralaxe revela que a traição mais profunda ocorre no seio da classe trabalhadora. O materialismo histórico nos ensina que a consciência social é determinada pela existência social; entretanto, a alienação produz o fenômeno do “trabalhador-carona”, aquele que, visando vantagens pessoais que o status quo jamais lhe conferiria de forma digna, omite-se do financiamento e da mobilização sindical, mas usufrui integralmente das conquistas coletivas.

2. O Ciclo de Degeneração Moral: Do Oportunismo ao Mercenarismo

A degeneração ética não é um evento súbito, mas um processo contínuo de erosão do caráter. Este ciclo inicia-se na omissão. Ao buscar desvincular-se da taxa assistencial — ferramenta vital de manutenção da luta — o trabalhador pratica uma “traição passiva”.
Este estágio inicial de covardia pavimenta o caminho para figuras mais sinistras:

  • O Transfuga: Indivíduos que, como o Padre Manoel de Moraes, negociam sua lealdade entre campos opostos conforme a balança do poder.
  • O Mercenário Político: O sujeito que, movido por interesses privados e dívidas pessoais, vende a soberania nacional a potências estrangeiras, tal qual Joaquim Silvério dos Reis.
  • O Carrasco de Classe: Exemplificado pelo Cabo Anselmo, que entregou militantes e até a própria companheira grávida à tortura, demonstrando o limite final da desumanização em nome do sistema opressor.

3. A Lente PES C-MAPP e o Impacto Geracional

  • Política e Sociedade: A omissão do povo e a intenção criminosa de alguns comprometem o destino nacional. A traição de classe fragmenta a solidariedade necessária para enfrentar o capital internacional.
  • Psicologia e Cultura: O individualismo extremo gera uma cultura de “asco e ojeriza” nas gerações futuras. Em vez de líderes que servem de bússola moral, o jovem depara-se com figuras que “batem continência” para interesses externos, desestimulando a evolução pela via ética.
  • Economia: A entrega de recursos estratégicos e a precarização do trabalho são facilitadas por aqueles que “vomitaram o que lhes enfiaram pela goela”, traindo a terra e o povo em troca de sobras reais.

4. A Vala Comum da História: A Lição Educativa

Para o trabalhador “carona”, a mensagem é direta: a história perdoa o erro, mas não esquece a traição. O destino do traidor mercenário é a morte civil e o esquecimento. Enquanto líderes como Olga Benário — entregue aos nazistas grávida pelo Estado brasileiro — tornam-se símbolos de resistência, o traidor resta na vala comum dos descansos eternos, desprovido de honra perante seus filhos.
A mobilização não é apenas uma questão de reajuste salarial; é um imperativo ético para evitar a própria aniquilação da existência enquanto nação soberana. O sindicalismo combativo é a última barreira contra a transformação do cidadão em um mercenário de si mesmo.

Referências Bibliográficas e Fontes de Estudo

  • Documentais e Constitucionais:
  • Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (Artigos 1º, 3º e 8º — Princípios da Soberania, Solidariedade Social e Liberdade Sindical).
  • Historiográficas e Acadêmicas:
  • Vainfas, Ronaldo. Traição: um jesuíta a serviço do Brasil holandês processado pela Inquisição. Companhia das Letras.
  • Haag, Carlos. O dilema eterno da traição. Revista Pesquisa FAPESP, Edição 150, 2008.
  • Albuquerque, Severino João. Análise do drama de protesto político e o conceito de Calabar. University of Wisconsin.
  • Audiovisuais:
  • Documentário/Curta: Os Maiores Traidores da História do Brasil. Canal Explorando & Contando Histórias (Referenciando Cabo Anselmo, Silvério dos Reis e Calabar).
  • Teóricas:
  • Buarque, Chico & Guerra, Ruy. Calabar: O Elogio da Traição. (Obra literária/musical para análise da representação da traição).

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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