Por José Evangelista Rios da Silva
Esta análise, formulada a 15 de abril de 2026, integra os dados recentes sobre a modernização naval, a ascensão da indústria aeroespacial e o posicionamento do Brasil no ranking de poder global sob a ótica do Planejamento Estratégico e Situacional (PES) e da Paralaxe Classista. O artigo a seguir propõe uma síntese crítica que supera o imediatismo das “demandas de risco” em direção a uma visão sistémica de desenvolvimento, inspirada no conceito de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento (NPND).
Resumo: O presente artigo analisa a configuração do poder nacional brasileiro em 2026, contrastando os marcos de modernização militar e tecnológica com a necessidade de um plano de desenvolvimento que não seja meramente reativo. Através da Paralaxe Classista, confrontamos a eficácia da Base Industrial de Defesa (BID) com as ameaças de guerra híbrida e golpismo interno. Propõe-se que a segurança nacional, conforme preconizada na Constituição Federal, seja o pilar de um projeto industrial e tecnológico soberano, capaz de dissuadir agressões do “Império do Caos” e consolidar o Brasil como liderança multipolar.
1. Do Planejamento Determinista ao Planejamento Estratégico Situacional (PES)
O debate atual sobre a segurança brasileira revela uma tensão entre a visão determinista (que espera o risco para agir) e o Planejamento Estratégico Situacional (PES) de Carlos Matus.
- A Crítica ao Imediatismo: Enquanto o governo Lula transita habilmente em amplas alianças para mitigar riscos imediatos, o NPND — inspirado nas teses de Renato Rabelo e do PCdoB — defende que o desenvolvimento nacional deve ser um processo sistémico onde a defesa não é um “gasto”, mas um indutor tecnológico.
- A Defesa como Pilar Industrial: A modernização da Marinha, exemplificada pelo lançamento do NPa Mangaratiba (P 73) no dia 27 de abril, e o incremento do orçamento de defesa para R$ 142 bilhões em 2026, demonstram que o setor pode tracionar o conteúdo local e a inovação em estaleiros como o AMRJ.
2. A Materialidade do Poder e a Dissuasão Real
O Brasil ocupa agora a 11ª posição no Global Firepower Index, superando potências como Israel, Irã e Alemanha. Esta ascensão não é apenas estatística, mas fundamentada em ativos reais:
- Soberania Aeroespacial: A Embraer, ao romper padrões em Harvard e no MIT e consolidar aeronaves como o KC-390 Millennium em mercados europeus, envia um recado de autonomia que desafia o duopólio Boeing-Airbus.
- Tecnologia de Negação de Acesso: O domínio do código-fonte do caça F-39 Gripen e o desenvolvimento de mísseis hipersônicos nacionais constituem a “Guerra de Todo o Povo” traduzida em física de ponta, essencial para proteger a Amazónia Azul, por onde passam 95% do comércio exterior.
3. O “Império do Caos” e a Ameaça das Guerras Híbridas
O cenário internacional aponta para um redirecionamento da agressividade imperialista. Com a tentativa de encerramento do conflito no Irã, o alerta da ABIN sobre ameaças à Colômbia, Cuba e ao próprio Brasil torna-se central.
- Agentes Internos e Golpismo: O planeamento da tentativa de golpe de 08/01/23, documentado com todos os envolvidos, prova que a segurança nacional não pode ser apenas externa. O “traidor da pátria” interno é a correia de transmissão da desestabilização estrangeira.
- Dissuasão Sistémica: O NPND propõe que o desenvolvimento industrial e a tecnologia (como o sistema PIX, que desafia gigantes globais de pagamentos) sejam ferramentas de resistência digital e financeira contra as intromissões de potências estrangeiras.
4. O NPND como Forma Efetiva de Segurança Nacional
Para que a segurança prevista na CF não seja apenas retórica, o Brasil necessita de um plano que integre:
- Indústria de Defesa: Como pilar de desenvolvimento tecnológico e emprego qualificado.
- Soberania Digital e Financeira: Protegendo a riqueza nacional de fluxos predatórios.
- Mecanismos Multilaterais: Reforçando o papel da ONU e do Direito Internacional contra a arrogância belicista.
Conclusão: A Paz é uma Construção Soberana
O Brasil de 2026, ao bater recordes de exportação militar e consolidar vetores como o Gripen e o Mangaratiba, prova que a paz não é ausência de conflito, mas a presença de uma dissuasão soberana. O NPND é a ferramenta que converte essa força militar em força social e económica, garantindo que o país deixe de ser um “tomador de demandas” para ser um “projetista de destino”.
Referências Bibliográficas e Documentais
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil (1988). Art. 1º (Soberania); Art. 142 (Papel das Forças Armadas); Art. 219 (Incentivo ao desenvolvimento tecnológico).
- ONU. Carta das Nações Unidas. Princípios de soberania e não intervenção.
- RABELO, Renato. Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento (NPND). Propostas para um Brasil Soberano.
- MATUS, Carlos. Teoria do Jogo Social: O PES/MAPP.
- REVISTA FÓRUM. Marinha lança novo navio-patrulha NPa Mangaratiba. Anne Silva, 02/04/2026.
- GLOBAL FIREPOWER INDEX. Ranking de Poder Militar 2026. Raony Salvador, 11/03/2026.
- MUNDO MILITAR. Embraer em Harvard e o KC-390 Millennium. 2026.
- STF/ABIN. Relatórios sobre a tentativa de golpe de 08/01/23 e ameaças regionais.
- PAULO GALA. PIX e a Revolução Silenciosa da Soberania Financeira.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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