O Território em Disputa: Dialética do Esvaziamento Urbano e o Resgate das Cidades Brasileiras sob a Lente do Planejamento Estratégico

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

Este artigo analisa o fenômeno do esvaziamento populacional em cidades brasileiras e a degradação de metrópoles como Salvador, utilizando as lentes do materialismo dialético-histórico e da paralaxe classista. A partir das categorias de Milton Santos, discute-se como a produção do espaço urbano foi subordinada à lógica do capital rodoviarista pós-1964. Avalia-se, por fim, o potencial de projetos infraestruturais ferroviários e de modelos de gestão democrática no atual contexto político para a reversão desse declínio e o resgate da “Roma Negra”.

1. Introdução: O Espaço como Acúmulo de Desigualdades

Sob a ótica do materialismo dialético, o espaço geográfico não é um receptáculo inerte, mas uma “instância da sociedade” (SANTOS, 1985). O esvaziamento de cidades no interior do Brasil e a deterioração de centros históricos não são fenômenos naturais ou acidentais; são subprodutos do movimento do capital. A transição forçada do modal ferroviário para o rodoviário, consolidada após o golpe de 1964, representou a vitória de um projeto de classe que privilegiou a acumulação industrial transnacional em detrimento da integração orgânica do território e das vivências locais.

2. A Paralaxe Classista e a Produção do Vazio

A análise em paralaxe revela que o “vazio demográfico” de certas regiões é, na verdade, um espaço preenchido pela lógica da exclusão. Enquanto o capital imobiliário e as elites políticas de Salvador, por exemplo, promoveram uma expansão periférica e segregada, o núcleo histórico — a “Roma Negra” — foi submetido a um processo de desinvestimento estratégico (gentrificação negativa).
O método PESC-MAPP (Planejamento Estratégico Situacional) permite identificar que a gestão “corrupto-empresarial” mencionada opera sob a lógica da cidade-mercadoria. Nesta perspectiva, a segurança pública e a beleza urbana são privatizadas em enclaves (condomínios fechados em Lauro de Freitas ou Camaçari), enquanto o espaço público de convivência é desmoralizado para justificar novas intervenções de capital.

3. A Ferrovia como Vetor de Reordenamento Territorial

A questão central reside na capacidade dos novos investimentos ferroviários do governo federal em reverter esse quadro. Dialeticamente, a ferrovia atua como um “fixo” que permite novos “fluxos”.

  • Rearticulação das Forças Produtivas: O resgate das ferrovias tem o potencial de reduzir o custo de vida e reativar economias locais que foram sufocadas pelo isolamento rodoviário.
  • Soberania e Integração: Ao contrário do rodoviarismo que fragmenta, a malha ferroviária estruturante pode fixar populações ao oferecer uma base material para a interiorização do desenvolvimento. No entanto, o materialismo histórico alerta que a infraestrutura por si só não garante a justiça social; ela deve estar atrelada a uma reforma urbana que priorize o valor de uso sobre o valor de troca.

4. O Resgate da “Roma Negra” e a Gestão Democrática

O declínio de Salvador pós-anos 1980 reflete a saturação de um modelo de governança que ignorou a identidade sociocultural e a base popular da cidade. Para que Salvador retorne ao patamar de cidade bela e segura, a análise sugere:

  1. Superação do Modelo Empresarial: A substituição da gestão voltada para o lucro imediato por um planejamento participativo (MAPP).
  2. Segurança como Direito, não como Controle: A desmoralização do atual sistema de segurança exige uma abordagem que trate a violência como sintoma da desigualdade produtiva e da falta de convivência no espaço urbano.
  3. Valorização da “Roma Negra”: O resgate não é estético, mas político-econômico, devolvendo ao povo negro e trabalhador o direito de habitar e produzir no centro da cidade.

5. Conclusão

O resgate das populações nos espaços vazios e a revitalização ética e estética de Salvador são objetivos alcançáveis, porém condicionados à vitória da política sobre o mercado. O investimento em ferrovias é a base material necessária, mas a “beleza e segurança” de outrora só serão reestabelecidas quando o espaço de vida e convivência for definido pela autodeterminação das massas e não pela conveniência das elites.

Referências Bibliográficas

  • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 182 e 183 (Da Política Urbana).
  • SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
  • SANTOS, Milton. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, 1985.
  • MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993 (Fundamentos do MAPP/PESC).
  • MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I. (Análise sobre a produção do espaço e capital).
  • HARVEY, David. A Produção Capitalista do Espaço. São Paulo: Annablume, 2005.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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