
Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo:
O presente artigo analisa a “Pedagogia do Afeto” não como uma categoria sentimentalista, mas como um imperativo metodológico e político fundamentado na dialética materialista e na psicanálise. Explora-se a construção do sujeito a partir da intersubjetividade, onde o afeto atua como mediador entre a consciência individual e a transformação social. Através de uma síntese em paralaxe, o texto percorre desde a fenomenologia hegeliana até a pedagogia crítica brasileira, demonstrando que o ato de ensinar é, intrinsecamente, um ato de reconhecimento do Outro.
- A Gênese Dialética: Do Reconhecimento à Luta de Classes
A fundamentação da Pedagogia do Afeto encontra seu gérmen na Fenomenologia do Espírito de Hegel, especificamente na dialética do senhor e do escravo. O afeto surge aqui como a necessidade ontológica de reconhecimento. Marx e Engels, ao materializarem essa dialética, transportam o afeto para o campo das relações de produção. A alienação não é apenas econômica, mas afetiva; portanto, uma pedagogia libertadora deve resgatar a humanidade do trabalhador, transformando o “afeto alienado” em solidariedade de classe.
Lenin e Gramsci aprofundam essa questão ao tratar da hegemonia e da organização. Para Gramsci, a relação pedagógica é a base da relação de hegemonia: o “educador” deve ser educado pelo povo através de um vínculo orgânico (afetivo e político), criando o intelectual orgânico que sente as paixões do povo para poder dirigi-las cientificamente. - O Sujeito do Inconsciente e o Vínculo Grupal
A dimensão subjetiva da Pedagogia do Afeto é ancorada em Freud e Lacan. Freud estabelece que a aprendizagem é mediada pela transferência; o desejo de saber está vinculado ao investimento afetivo no mestre. Lacan amplia essa visão ao discutir o estádio do espelho e o Grande Outro: o sujeito só se constitui através do olhar do outro.
Neste ponto, a contribuição de Enrique Pichon-Rivière e Madalena Freire torna-se central através da máxima: “Eu não sou você, você não é eu”. Essa frase define a distância pedagógica necessária: o afeto não é fusão, mas o reconhecimento da alteridade. Pichon-Rivière, com sua Psicologia Social, ensina que o grupo operativo só aprende quando supera as resistências afetivas (medo da perda e do ataque), transformando o vínculo em motor da tarefa. - A Práxis Libertadora e a Concepção de Mundo
Paulo Freire e Nereide Saviani consolidam a Pedagogia do Afeto no campo da educação formal e não-formal. Para Freire, o “diálogo” é uma exigência existencial, e o amor é o fundamento do diálogo. Não se trata de uma “ingenuidade adocicada”, mas de um compromisso com a causa da libertação. O afeto freiriano é a “amorosidade” que permite ao oprimido descobrir-se como sujeito da história.
Nereide Saviani, ao discutir o saber escolar e a reflexão pedagógica, aponta que a educação deve partir da prática social. A afetividade, portanto, é o que ancora o conteúdo científico na realidade vivida do aluno, impedindo que o conhecimento seja uma abstração estéril. - Conclusão: O Afeto como Categoria Política
A Pedagogia do Afeto revela-se como uma ciência da prática que recusa a dicotomia entre razão e emoção. Ela fundamenta-se na compreensão de que o conhecimento é produzido por sujeitos históricos, datados e desejantes. Ao integrar a análise classista com a escuta psicanalítica e a práxis pedagógica, essa abordagem torna-se a base para a construção de uma cidadania global soberana, onde o reconhecimento do Outro é a condição sine qua non para a transformação do mundo.
Referências Bibliográficas
- FREIRE, Madalena. A Paixão de Conhecer o Mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
- FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago.
- GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Volume 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
- HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do Espírito. Petrópolis: Vozes, 2014.
- LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
- MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
- PICHON-RIVIÈRE, Enrique. O Processo Grupal. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
- SAVIANI, Nereide. Saber Escolar, Currículo e Didática. Campinas: Autores Associados, 1994.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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