Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo: Por ocasião do aniversário de 477 anos de Salvador, este artigo analisa a trajetória da primeira capital do Brasil sob a lente da parallaxe. De um lado, celebra-se o legado arquitetônico e imaterial abrigado em instituições como o Museu da Misericórdia; de outro, lamenta-se a implementação de um projeto político-econômico de expropriação territorial. Investiga–se como a gestão urbana, pautada por interesses de grupos restritos — aqui denominados “Turma das Ilhas Suarez” —, promoveu a fragmentação socioespacial, a violência endêmica e a “morte lenta” da cidade original, em contraposição à necessidade urgente de reabitação do centro tradicional.
- Introdução: A Cidade Palimpsesto e a Memória Institucional
Salvador chega aos seus 477 anos consolidada como um palimpsesto urbano, onde camadas de história sobrepõem-se em uma topografia única de vales e ladeiras. Instituições como o Museu da Misericórdia funcionam como guardiãs da “Bahia de Todos os Santos”, preservando a narrativa da fundação e da fé. Contudo, a celebração oficial contrasta com a realidade geofísica e social de uma cidade “repartida”, onde a opulência dos enclaves fortificados ignora a precariedade das encostas e a desertificação dos bairros históricos. - O Projeto Político da Expropriação: Ganância e Anacronismo
A análise histórica da gestão soteropolitana, especialmente a partir da década de 1980, revela a transição de um planejamento de estado para um modelo de “negócio de cúpula”. Este fenômeno é marcado por:
- Gestão da Violência e Incompetência Planejada: A violência recorde de Salvador não é um acidente, mas o subproduto de um projeto que retira o investimento social das áreas periféricas para financiar o City Marketing. A “arrogância e malandragem” administrativa, citadas em análises críticas, manifestam-se na desafetação sistemática de áreas verdes — o leilão do solo público para o enriquecimento de um “feudo” imobiliário.
- A “Turma das Ilhas Suarez” e o Controle do Solo: A concentração do poder decisório em ambientes privados e insulares subverte os princípios constitucionais da Moralidade e Impessoalidade (Art. 37, CF/88). Esse modelo de “empresariamento urbano” trata a cidade como uma mercadoria a ser fatiada, ignorando a função social da propriedade urbana.
- A Parallaxe do Controle de Massa: O Canto da Sereia
A gestão contemporânea utiliza mecanismos sofisticados de controle de massa para manter a população em estado de alienação. O “espetáculo” das festas de largo e o marketing da “Cidade Criativa” funcionam como um canto da sereia que oculta:
- O Maior Desemprego do País: Dados do IBGE (PNAD Contínua) apontam Salvador com a maior taxa de desocupação (14,1%), expondo a falência de uma economia baseada exclusivamente em serviços e entretenimento.
- A Cidade Repartida: A segregação espacial é o motor da violência. Enquanto o “feudo” protege seus ativos, a cidade original — da Graça à Ribeira — sofre com a degradação e o esvaziamento populacional.
- A Proposta de Revitalização Humana: Da Graça à Ribeira
Ecoando a visão do arquiteto Fernando Peixoto, a solução para a “morte lenta” da cidade original não reside em novas obras faraônicas de fachada, mas na reabitação.
- Residir para Revitalizar: A revitalização do bairro do Comércio e do Centro Histórico exige que o povo volte a morar nestas áreas. O uso habitacional é o único capaz de restaurar a segurança e a vitalidade urbana.
- Preservação da Baía: Apesar da “incompetência administrativa”, a Baía de Todos os Santos permanece como o maior ativo ambiental e geográfico da cidade. Sua preservação exige o fim das privatizações de praias e o estancamento da poluição oriunda do crescimento desordenado fomentado pela especulação.
- Conclusão: Um Chamado à Consciência Soteropolitana
Ao celebrar 477 anos, Salvador enfrenta uma encruzilhada. A resistência contra a lógica de expropriação da “Turma das Ilhas Suarez” é um imperativo ético e constitucional. A redenção da cidade passa pela retomada do Plano Diretor pelo povo, combatendo a “burrice e ganância” com planejamento democrático. Viva Salvador, mas que viva para todos os soteropolitanos, e não apenas para o feudo que tenta, em vão, apagar a alma da cidade original.
Referências Bibliográficas e Constitucionais
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Senado Federal.
- BRASIL. Lei nº 10.257/2001 (Estatuto da Cidade).
- HARVEY, David. O Direito à Cidade. São Paulo: LPP, 2013.
- OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES. Empreendedorismo urbano em Salvador: problemas e limites. Salvador: UFBA, 2024.
- PEIXOTO, Fernando. Bahia, Século XX: Uma cronologia sentimental e política. Salvador: P&A, 2001.
- SANTANA, Olívia. Salvador: a cidade e seus desafios. Salvador: ALBA, 2013.
Como assistente, meu próximo passo sugerido é:
Deseja que eu redija um Manifesto de Aniversário Alternativo, cruzando os dados deste artigo acadêmico com as propostas da Oficina de Mobilidade de Paripe, para ser publicado como um contraponto às celebrações oficiais da prefeitura?
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional. Com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois, sua trajetória é marcada por mais de cinco décadas de atuação no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, define sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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