Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo: O presente artigo analisa a produção social da “idiotia” contemporânea como um fenômeno estrutural do capitalismo tardio. Através da lente da visão em paralaxe, investiga-se como a Indústria Cultural, a Sociedade do Cansaço e o condicionamento biopolítico convergem para o esvaziamento do pensamento crítico. O estudo tenciona a relação entre a institucionalização do sindicalismo de resultados — marcado pelo alinhamento automático ao Estado — e a emergência de subjetividades pragmáticas que sustentam o neopopulismo de extrema-direita. Propõe-se, por fim, o Planejamento Estratégico Situacional (PESC) e o Método Altadir de Planificação Popular (MAPP) como ferramentas de ruptura com a alienação programada.
- Introdução: A Ontologia da “Idiotia” no Capitalismo Algorítmico
A “idiotia” moderna, conforme discutido sob a ótica de Sócrates e Platão, evoluiu de uma exclusão da esfera política (idiotes) para uma inclusão hiperativa e alienada. Na contemporaneidade, o “idiota” é o sujeito capturado pela economia da atenção, onde o ruído e o sensacionalismo substituem a reflexão. Esta condição não é um acidente histórico, mas um subproduto da Razão Instrumental (Escola de Frankfurt), que reduz o conhecimento ao pragmatismo deglutível e funcional ao capital. - O Soma Digital e o Condicionamento da Subjetividade
Utilizando a distopia de Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo) como metáfora geopolítica, observa-se que o controle social migrou da repressão direta para o condicionamento pelo gozo. O “Soma” contemporâneo manifesta-se no fluxo ininterrupto de dopamina digital. Sob a lente lacaniana, o sujeito é impelido ao “Imperativo do Gozo”, onde a angústia da complexidade é anestesiada por certezas simplistas. Este cenário é o terreno fértil para a produção de figuras políticas como Bolsonaro, Milei e Trump, que operam na “estética do espelho”, validando o ressentimento nietzschiano da massa contra o intelectualismo orgânico. - A Sociedade do Cansaço e a Autoexploração do Militante
A análise de Byung-Chul Han revela que o sujeito do desempenho é o seu próprio carrasco. A fadiga crônica impede a “contemplação profunda” necessária para a análise conjuntural. No campo sindical, esse cansaço traduz-se na burocratização e na perda do horizonte estratégico. A transição da CUT para a CTB, sob esta ótica, simboliza o esforço dialético de romper com o alinhamento automático — uma forma de “positividade tóxica” institucional que oblitera a contradição necessária para a luta de classes. - A Institucionalização das Lutas e o Efeito de Distanciamento
Bertolt Brecht propunha o Verfremdungseffekt (efeito de distanciamento) para que o trabalhador pudesse enxergar a engrenagem que o oprime. Contudo, a institucionalização sindical opera o inverso: ela “naturaliza” a exploração através de acordos pragmáticos que ignoram a raiz do conflito. O alinhamento automático com o aparato estatal converte o sindicalismo classista em um Aparelho Ideológico de Estado (Althusser), esvaziando a capacidade de mobilização autônoma e transformando a militância em gestão burocrática. - O MAPP/PESC como Ferramenta de Reabilitação da Estratégia
Frente à “idiotização” sistêmica, o Planejamento Estratégico Situacional (PESC) de Carlos Matus surge como o antídoto à paralisia da práxis. Planejar estrategicamente exige reconhecer a incerteza e a complexidade — o “não sei” socrático transposto para a política. O Método Altadir de Planificação Popular (MAPP) permite que o saber acadêmico (Pedagogia e Geografia) se encontre com o saber operário, reconstruindo a soberania do pensamento crítico contra a ditadura do imediato e a hegemonia do capital financeiro. - Conclusão
A superação da sociedade dos idiotas exige mais do que o acesso à informação; exige a reconquista do tempo e do espaço para a reflexão profunda. A luta de classes no século XXI disputa, primordialmente, a atenção e a subjetividade do trabalhador. Somente através de uma formação política que combine o rigor técnico do planejamento com a radicalidade da teoria crítica será possível desconstruir a arquitetura da alienação que sustenta o atual retrocesso civilizatório.
Referências Bibliográficas
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- ALTHUSSER, L. Aparelhos Ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
- BRECHT, B. Estudos sobre Teatro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
- HAN, B-C. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
- HUXLEY, A. Admirável Mundo Novo. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.
- LACAN, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
- MATUS, C. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993.
- NIETZSCHE, F. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
- SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
- ŽIŽEK, S. A Visão em Paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
Com este texto estruturado, o
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