Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
O presente artigo analisa o fenômeno contemporâneo da valorização da superficialidade e da “idiotia” — aqui compreendida em sua etimologia política e psicanalítica — como subproduto estrutural do capitalismo tardio. Através da lente da paralaxe, investiga-se como a economia da atenção e o pragmatismo tecnocrático convergem para a produção de lideranças populistas de extrema-direita. Utiliza-se o aporte teórico de Bertolt Brecht, Slavoj Žižek, Jacques Lacan e Friedrich Nietzsche para compreender o esvaziamento do pensamento crítico e a institucionalização das lutas sociais.
- Introdução: A Paralaxe da Percepção Social
A análise da sociedade contemporânea exige o que Slavoj Žižek denomina “visão em paralaxe”: o deslocamento constante do ponto de observação para captar a lacuna irredutível entre a realidade econômica e a sua representação ideológica. A “idiotia” moderna não é uma ausência de inteligência cognitiva, mas uma recusa deliberada da complexidade em favor de um binarismo deglutível. - O Sujeito Lacaniano e o Objeto do Desejo Digital
Sob a perspectiva lacaniana, o sujeito contemporâneo é capturado pelo “Grande Outro” algorítmico, que demanda uma resposta imediata e gozosa. As redes sociais operam como um espelhamento narcísico onde a sabedoria é sacrificada no altar da validação instantânea. O “idiota” funcional é aquele que, alienado da praxis política, consome sua própria indignação como mercadoria, impedindo a formação de uma consciência de classe genuína. - O Efeito de Distanciamento de Brecht e a Crítica ao Pragmatismo
Bertolt Brecht propunha o Verfremdungseffekt (efeito de distanciamento) para desnaturalizar a realidade social. Contudo, a sociedade do consumo fácil opera no sentido inverso: ela naturaliza o absurdo através de um pragmatismo cego. No campo sindical e dos movimentos sociais, observa-se a “institucionalização das lutas”, onde o alinhamento automático com estruturas de poder oblitera a capacidade de crítica radical. A transformação do sindicato em apêndice do Estado é o triunfo da racionalidade instrumental sobre a militância classista. - A Moral do Ressentimento e a Produção do Líder “Espelho”
Friedrich Nietzsche, ao descrever a “moral do escravo”, oferece a chave para entender figuras como Bolsonaro, Milei e Trump. Esses líderes não são eleitos apesar de sua rusticidade intelectual, mas por causa dela. Eles representam o triunfo do ressentimento contra o “intelectualismo” e a complexidade. A sociedade, exaurida por um sistema de exploração que ela não consegue nomear, projeta seu desejo de ruptura em figuras que validam a mediocridade coletiva. - Conclusão: A Necessidade de uma Nova Planificação (PESC/MAPP)
Para romper o ciclo da “revolução dos idiotas”, é imperativo resgatar metodologias de Planejamento Estratégico Situacional (PESC) e Planificação Popular (MAPP). A superação da idiotia social requer mais do que educação formal; exige a organização da classe trabalhadora em torno da análise concreta da realidade concreta, fugindo das armadilhas do espetáculo e do binarismo digital. A emancipação humana passa, necessariamente, pela reabilitação do pensamento profundo contra a ditadura do imediato.
Referências Bibliográficas
- ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
- BRECHT, Bertolt. Estudos sobre Teatro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
- LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993. (Referência para MAPP/PESC).
- NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
- ŽIŽEK, Slavoj. A Visão em Paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
- ŽIŽEK, Slavoj. O Objeto Sublime da Ideologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
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