I. Introdução: O Erro de Descartes e a Unidade do Ser
A modernidade ocidental consolidou-se sobre o dualismo cartesiano, separando o pensamento da existência. No entanto, para o sujeito histórico que busca a emancipação, a consciência não é uma prova abstrata, mas um resultado do movimento. A máxima “Existo, logo penso, repenso e aprimoro na práxis” não é apenas uma correção filosófica; é o reconhecimento de que o ser humano se constitui na tensão entre a realidade material e a capacidade de projetar o futuro. A busca pelo “Ser Integral” exige a superação da fragmentação imposta pelas estruturas de poder, reintegrando o fazer e o pensar através de uma tríade estratégica inegociável: Fé, Disciplina e Propósito.
II. O Propósito: A Bússola da Intencionalidade Humana
O ser humano, em sua natureza plena, é um ser teleológico: ele age movido por fins. O Propósito é o que retira o indivíduo da condição de mero “recurso” ou objeto da história para torná-lo sujeito.
- A Validação Ética: O propósito é a tradução da consciência em objetivo estratégico. É o que justifica a renúncia imediata em prol de um crescimento pessoal e coletivo de longo prazo.
- A Direção do Olhar: Na paralaxe da existência, o propósito permite que o sujeito veja a mesma realidade de dois ângulos: a necessidade imediata da sobrevivência e a necessidade histórica da libertação.
III. A Fé: A Sustentação da Constância
A Fé aqui é definida como a convicção inabalável na validade do Propósito, mantida inclusive na ausência de validação empírica imediata. - O Motor da Constância: Em cenários de incerteza, a fé atua como a sustentação da resiliência. É a crença de que a práxis possui uma eficácia que transcende o momento presente.
- Superação da Volatilidade: Enquanto a motivação é efêmera, a fé garante a permanência necessária para que o indivíduo persista no aprimoramento, transformando o “risco de ousar” em maestria.
IV. A Disciplina: A Ponte Dialética para a Autonomia
A Disciplina é a manifestação prática do pensar que se torna fazer. Sob a ótica hegeliana, ela é a capacidade de negar o desejo imediato em prol de um fim mais elevado, sendo o verdadeiro caminho para a liberdade racional. O indivíduo disciplinado não é aprisionado; ele é livre porque não é escravo dos seus impulsos ou das circunstâncias externas. Ela é o exercício de poder sobre o próprio “eu” para garantir a execução do que é necessário.
V. A Parallax da Reintegração: O Movimento Helicoidal Evolutivo
Diferente de um sistema circular que retorna ao seu início, a reintegração do ser humano ocorre em um movimento helicoidal evolutivo. Este conceito pressupõe que: - A Ascensão Contínua: A cada repetição do ciclo “fazer-pensar-re-pensar-fazer”, o sujeito não retorna ao mesmo lugar, mas atinge um nível superior de aprimoramento e síntese.
- A Resiliência Disruptiva: Mesmo diante de circunstâncias disruptivas — crises, falhas ou mudanças bruscas de cenário — a hélice não se quebra. Ela utiliza o impacto para reorientar a trajetória, mantendo a perspectiva do avançar.
- A Práxis como Hélice: O “re-pensar” e o “aprimorar” garantem que a ação seguinte seja qualitativamente superior à anterior. É o crescimento constante onde a experiência acumulada se torna o combustível para novos patamares de protagonismo histórico.
VI. Conclusão: A Práxis como Destino
A existência humana só alcança sua plenitude quando o indivíduo se reconhece como arquiteto de sua própria história em um processo de evolução constante. A fórmula “Existo, logo penso, repenso e aprimoro” é o motor de uma hélice que impulsiona o ser para além da submissão. Ao utilizar a tríade inegociável, o sujeito rompe o automatismo funcional e eleva-se à condição de ser integral — aquele que, em meio às rupturas da vida, mantém o movimento helicoidal em direção à autonomia e ao seu pleno desenvolvimento enquanto espécie.
Referências Bibliográficas Relevantes - ALTHUSSER, Louis. Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado. (Análise sobre a disciplina e a formação do sujeito).
- ENGELS, Friedrich. Dialética da Natureza. (Para a fundamentação do movimento espiral/helicoidal na evolução).
- HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do Espírito. (Sobre a autoconsciência e a liberdade através da negação disciplinada do desejo).
- LUKÁCS, György. Para uma Ontologia do Ser Social. (Sobre o trabalho como fundamento da práxis humana).
- MAKARENKO, Anton. Poema Pedagógico. (Sobre a relação entre disciplina, propósito e perspectiva futura).
- MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. (Sobre a reintegração do ser e a superação da alienação).
- ZIZEK, Slavoj. Visão em Paralaxe. (Sobre a mudança de perspectiva necessária para a compreensão da totalidade).
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