Por José Evangelista Rios da Silva
Introdução: O Realismo como Arma de Cerco
A política externa dos Estados Unidos atravessa uma metamorfose tática. Sob a gestão intelectual de estrategistas como Elbridge Colby, o império abandona a retórica do “excepcionalismo liberal” para adotar um realismo cru e agressivo. A chamada Doutrina Colby não é apenas uma estratégia militar de contenção à China; é a formalização de um cerco global que visa subordinar o desenvolvimento das forças produtivas do Sul Global às necessidades de segurança e acumulação do capital norte-americano.
- A Perspectiva Histórica: O Continuísmo de Monroe
Ao observarmos o fenômeno em paralaxe, percebemos que a agressividade de 2025 é o desdobramento lógico do século XIX. A Doutrina Monroe (1823) e o Destino Manifesto estabeleceram o DNA do expansionismo: a crença de que territórios, recursos e povos são ativos à disposição do destino “moral e divino” de Washington.
A compra da Louisiana e a anexação violenta de territórios mexicanos foram os laboratórios de uma prática que hoje se traduz na pressão por “alinhamentos estratégicos”. Onde antes se moviam fronteiras físicas com baionetas, hoje se movem fronteiras tecnológicas e comerciais com sanções, guerras híbridas e o controle das cadeias de valor. A Doutrina Colby reativa o espírito de Monroe ao tentar fechar o Hemisfério Ocidental a qualquer influência externa que não seja a sua, tratando a autonomia de nações soberanas como uma ameaça à sua “Estratégia de Negação”. - A Denúncia: O “Realismo” contra o Trabalho
A Doutrina Colby é inerentemente hostil à classe trabalhadora. Ao pregar que os EUA devem focar toda a sua capacidade industrial e militar para um conflito de “alta intensidade” contra a China, ela impõe ao mundo uma lógica de economia de guerra permanente.
- A Desindustrialização Periférica: A pressão para que o Sul Global rompa laços com a Eurásia não visa proteger a “democracia”, mas garantir que o Brasil e seus vizinhos permaneçam como fornecedores de baixo valor agregado e consumidores cativos da tecnologia do Norte.
- O Império do Caos Organizado: Diferente da desestabilização generalizada de décadas passadas (o “Império do Caos” de Pepe Escobar), Colby propõe um caos seletivo. Ele aceita a instabilidade em regiões periféricas desde que os recursos críticos (lítio, energia, dados) permaneçam sob controle de empresas transnacionais americanas.
- A Luta Classista Diante da Nova Geopolítica
A análise de profundidade revela que a luta classista não pode ser dissociada da questão nacional. A institucionalização das lutas populares muitas vezes ignora que as condições de vida da classe trabalhadora são decididas em gabinetes como os do Pentágono.
- A submissão aos ditames da Doutrina Colby significa aceitar um teto para o desenvolvimento nacional.
- Para a luta classista, a denúncia desse realismo estratégico é um imperativo: não há avanço social sob a bota de um projeto que vê o mundo como um campo de batalha e o trabalho como mera logística para a supremacia de uma única potência.
Conclusão: A Necessidade da Multipolaridade
A Doutrina Colby é o esforço final de uma hegemonia em declínio para manter sua posição através da força. Contrapor-se a esse conceito é defender a possibilidade de um mundo multipolar, onde o desenvolvimento das nações e o bem-estar dos povos não sejam sacrificados no altar da estratégia de defesa americana. A verdadeira soberania só se constrói na quebra das correntes ideológicas do Destino Manifesto, exigindo uma visão de mundo que coloque a vida e o trabalho acima da acumulação e do domínio bélico.
Referências Bibliográficas Necessárias - COLBY, Elbridge A. The Strategy of Denial: American Defense in an Age of Great Power Conflict. New Haven: Yale University Press, 2021.
- ESCOBAR, Pepe. Empire of Chaos. Ann Arbor: Nimble Books, 2014.
- LOSURDO, Domenico. O Imperialismo Não Acabou. São Paulo: Boitempo, 2017.
- MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Formação do Império Americano: Da Conquista Territorial à Estratégia de Domínio Global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
- MCDOUGALL, Walter A. Promised Land, Crusader State: The American Encounter with the World Since 1776. New York: Houghton Mifflin, 1997.
- ZINN, Howard. A People’s History of the United States. New York: Harper Collins, 2003.
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