Resumo: O presente artigo analisa a construção da identidade do trabalhador brasileiro como um fenômeno de “metamorfose ambulante”, termo cunhado por Raul Seixas que sintetiza a natureza heterogênea e adaptável da nossa formação social. Propõe-se a metáfora do “Triângulo do Fogo” (Combustível, Comburente e Oxigênio) para explicar a latência da consciência de classe em territórios de alta complexidade e diversidade. Através de uma perspectiva de paralaxe, confronta-se o otimismo sociológico de Domenico De Masi com a práxis do sindicalismo classista, argumentando que a “alegria de luta” e o “momento ecumênico” são tecnologias de coesão social fundamentais contra a precarização e a desarticulação promovidas pelo capital contemporâneo.
- Introdução: A Plenitude na Diversidade
A identidade brasileira não se define pela estagnação, mas por um movimento volante. Somos, por natureza, uma “metamorfose ambulante” que transita entre o crente e o ateu, o trabalhador e o folião, o ancestral e o moderno. No contexto das lutas sociais, essa característica não é uma fraqueza, mas uma potência de sobrevivência. O equilíbrio e a paciência na convivência com o diferente formam o alicerce de um modelo social mais humanista, que resiste ao pragmatismo árido do lucro imediato. - O Triângulo do Fogo da Consciência de Classe
Para que a transformação social ocorra, é necessário o equilíbrio técnico entre três elementos fundamentais:
- O Combustível (A Massa): A diversidade complexa e heterogênea do povo brasileiro — indígenas, afrodescendentes e migrantes — que carrega a memória da resistência.
- O Comburente (A Organização): O sindicalismo classista que, ao contrário do alinhamento institucional automático, atua como o agente que dá direção à queima, transformando descontentamento em ação política.
- O Oxigênio (A Conjuntura): O ambiente democrático e o debate de ideias que permitem que a chama se propague.
- O “Momento Ecumênico” como Tecnologia de Coesão
A análise das greves e mobilizações revela que o sucesso da luta não se dá apenas pela pauta econômica, mas pela mística. A “atitude ecumênica e sintética” — as orações de agradecimento, o canto e a dança — serve como um rescaldo que mantém o calor da vitória latente. Esse momento de convivência coletiva é a antítese da desarticulação tentada pelos “asseclas do capital”. Ele estende a vitória para além do acordo coletivo, cimentando laços que o pragmatismo empresarial não consegue romper. - De Masi vs. Classismo: A Estética da Libertação
Enquanto Domenico De Masi vislumbra uma evolução natural para a “civilização do lazer”, a experiência brasileira demonstra que essa evolução é fruto de uma disputa estética e política. A música de Edson Gomes, Gil e Gonzaguinha nos piquetes não é um adorno; é o anúncio de uma vida que “é bonita e é bonita”. A humanidade brasileira, buscada por estrangeiros no “turismo de parto”, é a mesma que o trabalhador defende ao se recusar a ser apenas uma cifra na rentabilidade capitalista. - Conclusão: O Rescaldo da Esperança
A evolução para um modelo social mais solidarista depende da capacidade de manter a faísca viva sob as cinzas da precarização. A criatividade na vivência e a paciência na construção da unidade são as ferramentas para que a metamorfose ambulante do trabalhador brasileiro não seja capturada pela alienação, mas se torne o motor de um Brasil autêntico e livre.
Referências Bibliográficas Sugeridas
- DE MASI, Domenico. O Ócio Criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
- DE MASI, Domenico. O Futuro do Trabalho. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.
- GONZAGUINHA. O que é, o que é? (Composição musical). Rio de Janeiro: EMI, 1982.
- LOSURDO, Domenico. A Luta de Classes: Uma História Política e Filosófica. São Paulo: Boitempo, 2015. (Fundamental para a visão do sindicalismo classista).
- MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
- SEIXAS, Raul. Metamorfose Ambulante. (Composição musical). In: Krig-ha, Bandolo! Rio de Janeiro: Philips, 1973.
- SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017. (Para a análise da complexidade e heterogeneidade brasileira).
- DOCUMENTOS DA CTB. Resoluções do Congresso Nacional da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil. (Para a base da análise sobre o sindicalismo classista e a autonomia frente ao governo).
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