A Miragem Tecnológica: Contradições da Inteligência Artificial e a Dissimulação da Precarização sob o Capitalismo de Plataforma

Por: José Evangelista Rios da Silva/Análise Classista

Resumo: O presente artigo analisa as contradições intrínsecas ao discurso hegemônico sobre a Inteligência Artificial (IA) e sua implementação no mundo do trabalho. Sob a perspectiva da dialética e da crítica da economia política, investiga-se como a narrativa da “eficiência” e do “progresso neutro”, amplificada pelos meios de comunicação corporativos, mascara a intensificação da exploração, a alienação digital e a erosão de garantias constitucionais. O estudo aponta que a automação, no atual estágio de desenvolvimento, serve prioritariamente ao aumento da taxa de mais-valia relativa, aprofundando o abismo entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção.
Introdução
O final de 2025 marca a consolidação da Inteligência Artificial como infraestrutura determinante do capitalismo global. Relatórios recentes de empresas como OpenAI, Google e Nvidia — amplamente difundidos pela grande imprensa como marcos do desenvolvimento humano — omitem a natureza política da tecnologia. A promessa de uma “sociedade do conhecimento” colide com a realidade de uma “sociedade do monitoramento e da precarização”. Este artigo propõe uma análise de paralaxe: observar a tecnologia não como um fim em si, mas como um instrumento de luta de classes e de concentração de poder econômico.

  1. A Fetichização do Algoritmo e a Ilusão de Neutralidade
    A narrativa corporativa apresenta a IA (como o GPT-5.2 ou o Gemini 3 Flash) como uma entidade autônoma e neutra. No entanto, o desenvolvimento técnico é indissociável das relações sociais que o produzem. A ilusão de classe reside em acreditar que ganhos de produtividade algorítmica serão redistribuídos automaticamente. Historicamente, conforme a tese de Marx sobre o “maquinismo”, o capital utiliza a inovação para reduzir o tempo de trabalho necessário e expandir o trabalho excedente.
    O discurso da “parceria humano-IA” serve, muitas vezes, para desarmar a resistência sindical. Ao transferir a tomada de decisão para “caixas-pretas” algorítmicas, retira-se do trabalhador a capacidade de negociação, uma vez que não se pode confrontar politicamente um código proprietário protegido por segredo industrial.
  2. A Inconstitucionalidade da Gestão Algorítmica sem Direitos
    A Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 7º, inciso XXVII, prevê explicitamente a “proteção em face da automação, na forma da lei”. A implementação acelerada da IA, sem marcos regulatórios que garantam a participação dos trabalhadores, fere o princípio da dignidade da pessoa humana e o valor social do trabalho.
    As “forças-tarefa tecnológicas” entre Estado e Big Techs criam um cenário de captura regulatória, onde o interesse privado sobrepõe-se ao interesse público. O surgimento de polos de data centers no Brasil, embora apresentado como avanço econômico, pode configurar um novo “extrativismo de dados e energia”, onde o país fornece recursos naturais e infraestrutura básica, enquanto a propriedade intelectual e o valor agregado permanecem nos centros do capital financeiro internacional.
  3. O Gap Científico e a Alienação de Terceira Geração
    O fenômeno do “gap científico” — onde a capacidade de construir sistemas supera a de compreendê-los — aprofunda a alienação. Se o trabalhador não compreende as ferramentas com as quais opera e se o próprio Estado não consegue auditar os processos de IA, ocorre uma transferência de soberania. A “qualificação” exigida pelo mercado, citada pela mídia corporativa, é frequentemente uma adaptação do sujeito às necessidades da máquina, e não uma emancipação intelectual.
  4. Conclusão: A Necessidade de uma Tecnologia Classista
    A denúncia necessária reside no fato de que a IA não é uma força da natureza, mas uma escolha política. A ilusão vendida pela imprensa corporativa oculta que a automação sob o comando do capital visa a substituição do trabalho vivo por trabalho morto (capital constante) para rebaixar o custo da força de trabalho.
    A superação dessa contradição exige que o desenvolvimento tecnológico seja submetido ao controle social e democrático, garantindo que o progresso científico sirva à redução da jornada de trabalho sem redução de salários e à melhoria das condições de vida da maioria, em vez de alimentar o crescimento exponencial de unicórnios tecnológicos e a concentração de renda global.
    Referências Bibliográficas
  • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República. Especialmente Art. 1º, IV; Art. 7º, XXVII; e Art. 170.
  • ANTUNES, Ricardo. O Privilégio da Servidão: O novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.
  • MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013. (Capítulo sobre “Maquinaria e Grande Indústria”).
  • BRAVERMAN, Harry. Trabalho e Capital Monopolista: A degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
  • SILVA, Tarcízio. Racismo Algorítmico: Inteligência artificial e discriminação nas redes digitais. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2022.
  • ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
  • SADER, Emir. A nova toupeira: Os caminhos da esquerda latino-americana. São Paulo: Boitempo, 2009.

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