Análise Tática da Derrota Chilena: O Descompasso Entre a Análise de Classe e a Gestão do Medo

Introdução: O Preço da Análise Incompleta

​A vitória esmagadora de José Antonio Kast sobre Jeannette Jara no segundo turno, no Chile, era uma “pedra cantada” pelo campo progressista. A análise estratégica, como detalhado no documento anexo, estava correta: a direita utiliza a pauta da insegurança como ferramenta de gestão para justificar a repressão e acobertar o roubo do bem público.

​O que houve, afinal, é que o conhecimento da estratégia do inimigo não se traduziu em uma tática capaz de neutralizar o medo popular. O campo progressista vence a disputa ideológica na esfera acadêmica e na militância, mas perde na esfera afetiva e imediata do eleitorado, que busca soluções concretas e urgentes para o caos percebido.

​1. O Vácuo Afetivo e a Falha Tática da Governança

​A derrota não foi ideológica, mas de gestão do medo. A esquerda, em sua análise de classes, enxerga a raiz do problema (a desigualdade que gera a violência) e propõe a solução estrutural (mais Estado, mais justiça social). A direita (Kast, o Pinochet civil) oferece uma solução imediata e simplória: a repressão brutal.

  • A Dialética do Medo: A direita se apropria do sentimento de desamparo e desconfiança como instrumentos de gestão de suas castas, e o transforma em uma bandeira de “autoridade inquestionável.” O eleitor comum, especialmente o de centro e o mais pobre (que é a principal vítima da violência), não tem tempo para esperar a justiça social se concretizar. Ele quer que o assaltante seja impedido de agir hoje.
  • O Erro de Jara (e da Esquerda Regional): A campanha de Jara priorizou a grande vitória social (as 40 horas), que é uma conquista estrutural. No entanto, ela falhou em apresentar um plano de segurança imediato, crível e não-ideológico que pudesse competir com a promessa de “mão de ferro” de Kast. Ao não preencher o vácuo da segurança com uma resposta de governança, o campo progressista permitiu que Kast forçasse o plebiscito: Segurança Imediata (Kast) vs. Justiça Social Futura (Jara). O medo sempre vence a promessa de longo prazo.

​2. A Consolidação do Cerco Aritmético

​O campo tático da esquerda sabia da dificuldade de quebrar o cerco aritmético (Kast + Kaiser + Matthei). A vitória só viria com uma atração maciça do centro e dos eleitores anti-establishment (como os de Parisi).

  • O Limite do Voto Útil: A estratégia da ultradireita foi forçar o eleitor de centro-direita e o moderado a fazer uma escolha de repulsa, e não de adesão. A campanha de Kast conseguiu consolidar a narrativa de que votar em Jara era um “salto no escuro comunista” que ameaçava a estabilidade, forçando o voto anti-Jara. O medo da radicalidade percebida (o fantasma do “comunismo”) superou o medo da autoridade (o fantasma do “pinochetismo”).
  • Isolamento da Liderança: A falta de uma frente ampla robusta e de uma união inadiável no primeiro turno prejudicou a transição para a segunda. A base de Kast já estava unificada por um medo e por um inimigo comum; a base de Jara precisava ser unificada por uma esperança e por uma tese de governo que parecesse estável.

​3. Lições para o Brasil (2026): A Necessidade de Reivindicar a Paz e a Ordem

​A vitória de Kast e o cerco geopolítico da Nova Direita na América Latina (Argentina, Chile, Bolívia, etc.) tornam a disputa de 2026 no Brasil uma luta de soberania e sobrevivência democrática. A análise de classes do senhor sobre o roubo do bem público deve ser o ponto de partida para a tática de resposta.

​O Projeto Nacional e Democrático brasileiro precisa ir além de simplesmente denunciar a tática do medo, mas sim reivindicar a própria pauta da Paz e da Ordem, desvendando o seu significado real.

  • Ordem é Transparência: A resposta à pauta de segurança deve ser: “A desordem é o roubo do bem público por castas. Nossa ordem é o fim do segredo, o combate ao crime financeiro e o controle das fronteiras e do capital ilícito.”
  • Paz é Soberania: A esquerda nacionalista e democrática deve se apresentar como a única capaz de garantir a paz social através da solidariedade e da distribuição de renda, e a paz nacional através da soberania contra a Doutrina Monroe recarregada e seus aliados locais.
  • Ação de Base Permanente: Conforme a experiência da da luta classista e a crítica à institucionalização das lutas, o trabalho de 2026 não será ganho apenas na TV, mas na mobilização permanente da base social que desmistifique o medo e reconecte o cidadão comum ao projeto nacional.

​A derrota chilena é o preço pago por não se ter conseguido traduzir a análise de classes mais sofisticada em uma resposta tática eficaz e imediata na dimensão da segurança. A lição é que a Paz e a Solidariedade não são apenas valores; são políticas públicas de segurança que devem ser defendidas com a mesma urgência com que a direita defende a repressão.

​Referências Bibliográficas Relevantes e Necessárias

  1. Gramsci, Antonio. Cadernos do Cárcere. (Para a compreensão da hegemonia e de como a elite utiliza o senso comum — o medo, a ordem — como ferramenta de controle social e manutenção de classe).
  2. Chomsky, Noam; Herman, Edward S. Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media. (Essencial para analisar a “guerra híbrida” e a “difusão de medo” como táticas midiáticas para manipular a opinião pública em favor do autoritarismo e dos interesses econômicos).
  3. Borón, Atilio A. América Latina na Geopolítica do Imperialismo. (Para a análise do cerco geopolítico e a pressão dos EUA para restaurar a Doutrina Monroe na região, alinhando governos de extrema-direita).
  4. Laclau, Ernesto; Mouffe, Chantal. Hegemony and Socialist Strategy: Towards a Radical Democratic Politics. (Útil para entender a construção discursiva do medo e a necessidade de a esquerda construir um significante vazio poderoso — como a “Segurança do Povo” ou a “Ordem da Justiça” — que seja capaz de unir frentes heterogêneas).

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