Introdução: Marx na Era do Celular
Companheiros e companheiras de luta, a base do capitalismo é simples: o lucro vem da exploração do nosso trabalho. Karl Marx chamou isso de mais-valia: a riqueza que produzimos, mas que fica com o patrão, não com o nosso salário.
Antes, o patrão nos explorava na fábrica ou no campo. Hoje, com a chegada da Inteligência Artificial (IA) e dos aplicativos, o jogo mudou, mas a exploração continua.
Este artigo usa as ideias de Marx para mostrar como a tecnologia – que deveria nos servir – está sendo usada pelo grande capital para apertar ainda mais o nosso lado, seja você um entregador, um técnico de T.I. ou um operário.
- O Salário e a “Máquina” Digital
Para Marx, o salário paga o que precisamos para voltar a trabalhar amanhã (comida, moradia, etc.). Mas a IA e as plataformas criaram novas formas de lucrar em cima do nosso tempo.
💰 Mais-Valia Absoluta: Acelerando o Ritmo
A mais-valia absoluta é o lucro que o patrão tira aumentando o tempo ou a intensidade da jornada.
- O Antigo Capataz: Na fábrica, o capataz gritava para você trabalhar mais rápido.
- O Novo Algoritmo: Nos aplicativos (como Uber, iFood), o algoritmo é o novo capataz. Ele dita a rota mais curta, o tempo máximo de entrega, e monitora cada segundo. Se você for lento ou questionar, ele te penaliza ou te desliga. Isso faz você trabalhar no limite máximo de sua energia, espremendo o máximo de serviço em cada hora, mas sem pagar por esse aumento de produtividade.
⚙️ Mais-Valia Relativa: Otimizando o Lucro
A mais-valia relativa vem quando o patrão usa a tecnologia para produzir mais em menos tempo. - A Nova Ferramenta de Controle: Plataformas como Red Hat OpenShift AI (que analisa a organização em alto nível) são usadas para que empresas gigantes industrializem a produção de inteligência. Isso significa que o trabalho do cientista de dados ou do engenheiro é padronizado, e o capital consegue extrair resultados mais rápidos e mais baratos de cada profissional. O objetivo é sempre o mesmo: diminuir o custo do trabalho e aumentar o lucro.
- O Novo “Cercamento”: Roubando Nossos Dados
Se voltarmos à origem do capitalismo (a Acumulação Primitiva), veremos que ela começou com a expropriação: os camponeses foram expulsos das terras comunais (os cercamentos) e forçados a vender sua força de trabalho na cidade.
Hoje, vivemos um “Cercamento Digital” onde o que está sendo roubado não é a terra, mas algo igualmente vital: nossos dados.
Antes (Acumulação Primitiva) Agora (Acumulação Digital)
Meio de Produção Roubado: A terra, as ferramentas. Meio de Produção Roubado: Os dados, a conectividade.
Quem Roubou: Latifundiários e a burguesia mercantil. Quem Rouba: As grandes empresas de tecnologia (Big Tech) e de plataforma.
O Resultado: Criou-se uma massa de despossuídos (o proletariado) que só tinha a força de trabalho para vender. O Resultado: Criou-se uma massa de usuários que, sem saber, trabalham de graça treinando algoritmos, criando a riqueza (o novo capital) das plataformas.
Seu tempo em redes sociais não é apenas lazer. Cada clique, cada “curtir”, cada visualização é uma informação que alimenta a IA da empresa. Esse é o seu trabalho não pago de vigilância e treinamento algorítmico. É uma nova forma de mais-valia social roubada do seu tempo livre. O Capital de Plataforma: Monopólio e Renda
As empresas de plataforma (como a Amazon ou a Google) não apenas extraem mais-valia do trabalho. Elas também cobram renda de monopólio.
Elas são donas da “rodovia” digital por onde todo mundo precisa passar. Para um pequeno negócio vender ou para um trabalhador conseguir um bico, ele precisa usar a plataforma e pagar uma taxa (muitas vezes 20% ou 30% do valor do serviço).
O lucro da Big Tech é, portanto, duplo:- Mais-Valia: Vinda da exploração do trabalho direto (entregadores, programadores).
- Renda de Monopólio: Vinda da cobrança de aluguel pelo uso da infraestrutura digital que ela controla.
- O Chamado à Luta Sindical
O nosso compromisso, como classe trabalhadora, é entender que a tecnologia é uma ferramenta. Em mãos capitalistas, ela é usada para oprimir; em nossas mãos, ela pode ser a base para uma sociedade mais justa.
O que devemos fazer?
- Desmascarar o Algoritmo: A IA não é destino, é uma ferramenta de gestão controlada por pessoas. Devemos exigir transparência sobre como os algoritmos nos avaliam, nos punem e definem nossos salários.
- Lutar pelo “Salário Digital”: O tempo que passamos gerando dados é trabalho. Devemos começar a debater o direito de o trabalhador e a sociedade controlarem e se beneficiarem da riqueza gerada por seus próprios dados.
- Organizar o Novo Proletariado: Seja o trabalhador de aplicativo, o programador ou o desempregado dependente do celular, todos estão submetidos à lógica do Capital de Plataforma. A luta de classes hoje é sindicalizar o algoritmo e garantir direitos plenos para todos os trabalhadores precarizados pela tecnologia.
A luta continua, e nossa organização é a única ferramenta capaz de transformar a tecnologia de um instrumento de controle em um meio de libertação.
📚 Referências Bibliográficas Relevantes e Necessárias - MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I: O Processo de Produção do Capital. (Essencial para os conceitos de Mais-Valia, Salário-Preço-Lucro e Acumulação Primitiva.)
- ANTUNES, Ricardo. O Privilégio da Servidão: O Novo Proletariado de Serviços na Era Digital. São Paulo: Boitempo, 2018. (Fundamental para entender a uberização e o novo proletariado).
- SRNICEK, Nick. Platform Capitalism. Cambridge: Polity Press, 2017. (Ótimo para entender o modelo de negócios e a renda de monopólio das Big Techs).
- HARVEY, David. O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011. (Ajuda a entender a expansão contínua do capital e as novas formas de “expropriação”).
- WOOD, Ellen Meiksins. A Origem do Capitalismo: Uma Perspectiva Ampla. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. (Clássico para detalhar a transição da Acumulação Primitiva).
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