A Chacina como Cortina de Fumaça: O Uso do Terror Estatal para Blindar a Elite Corrupta

Por uma Análise Classista e em Paralaxe da Crise do Rio de Janeiro

A recente e mais letal megaoperação policial da história do Rio de Janeiro, com dezenas de mortos na periferia, deve ser lida pela militância classista não como um evento isolado de “segurança pública”, mas como uma armação política e midiática estrategicamente orquestrada pela extrema-direita fluminense e nacional. O objetivo central é criar uma cortina de fumaça de violência espetacular que desvie o foco da mídia e da Justiça dos crimes de colarinho-branco que ameaçam diretamente a sobrevivência política do governador e de seus aliados.
O debate, iniciado por uma crítica popular sobre a seletividade penal que poupa o “doleiro, o banqueiro e o empresário” enquanto sacrifica o “bucha, o soldadinho”, revela uma conspiração de três eixos que colocam a vida da classe trabalhadora empobrecida no centro de uma disputa eleitoral:

  1. O Eixo da Corrupção: O Julgamento de Cassação como Motor da Crise
    O timing da megaoperação policial, com seu saldo brutal de mortes na periferia, não é acidental, mas sim tático. A violência se intensificou dias antes do julgamento de cassação do governador Cláudio Castro (PL) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), iniciado hoje, 4 de novembro.
  • A Crise do Colarinho-Branco: Castro é acusado de abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, através do uso da máquina pública e de servidores da Fundação Ceperj e da UERJ para fins eleitorais. Este é um crime de elite, um desvio de recursos públicos.
  • O Desvio de Foco: Ao saturar o noticiário com o tema da “Guerra ao Crime” e do “combate ao Comando Vermelho”, a cúpula do governo fluminense busca, conscientemente, inibir o julgamento ao forçar a sociedade a discutir a segurança e a violência, e não a corrupção eleitoral que ameaça seu mandato. A vida dos pobres torna-se, assim, uma munição política e descartável para a sobrevivência da classe dominante.
  1. O Eixo da Articulação Nacional: O Consórcio do Extermínio
    A reação em cadeia de governadores bolsonaristas (o chamado “Consórcio da Paz”) pedindo mais GLO e militarização é a demonstração de um tensionamento pré-eleitoral que visa minar o Governo Federal e reagrupar a base radical para 2026.
  • A Pauta do Extermínio: O apelo por mais repressão militarizada (GLO) ignora a raiz social do crime e serve para reforçar a ideologia fascista de que a única solução para o problema da pobreza e do tráfico é o extermínio da juventude periférica.
  • O Roubo da Narrativa: A articulação da extrema-direita visa desviar o foco de pautas do Governo Lula (como a COP30 ou a recuperação econômica) e sequestrar a agenda nacional com o tema da “guerra” – um terreno onde seu discurso autoritário encontra mais ressonância.
  1. O Eixo Transnacional: O Ataque à Soberania
    A articulação se estende para fora das fronteiras. A sugestão aberta do Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Secretário de Defesa dos EUA para que as forças americanas bombardeiem embarcações de traficantes na Baía de Guanabara é o ponto de maior radicalização e traição à nação.
  • Crime de Submissão: Essa declaração, que motivou representações criminais por atentado à soberania nacional, revela a profunda ideologia neocolonial da extrema-direita brasileira. Para manter seus privilégios e seu projeto de poder, o senador está disposto a submeter o país à intervenção militar estrangeira, validando a tese americana de “narco-terrorismo” para justificar execuções sumárias.
  • A Origem do Armamento: A urgência da intervenção estrangeira, contudo, é irônica, já que a pesquisa sobre a origem dos fuzis do crime organizado no Rio aponta que a maioria das armas de guerra apreendidas provêm dos Estados Unidos (segundo o Instituto Sou da Paz). O problema está na origem (a elite e a indústria bélica americana/internacional), e não apenas no destino (a periferia carioca).
    Conclusão Classista: Desmascarar para Lutar
    Esta teia de eventos desmascara o caráter profundamente classista e racista do sistema de segurança pública. A megaoperação não é uma ação de combate ao crime, mas sim uma armação política e um ato de genocídio seletivo cuja função é:
  • Garantir a Impunidade Eleitoral do governador de turno (Cláudio Castro).
  • Manter a Base Mobilizada para o projeto de poder da extrema-direita em 2026.
  • Reforçar a Militarização e o controle social da juventude pobre, preservando intocados os fluxos financeiros e logísticos do crime de colarinho-branco (o “doleiro” e o “empresário”).
    A luta da militância deve ser a de conectar os pontos: ligar a bala que mata o jovem preto na favela ao desvio de recursos do Ceperj e à proposta de intervenção americana, desmascarando este Grande Circo de Desespero Pré-Eleitoral.
    Referências Constitucionais e Bibliográficas Relevantes
    📜 Referências Constitucionais
  • Constituição Federal de 1988, Art. 1º, V: Defesa da Soberania Nacional (o pedido de intervenção militar estrangeira a afronta diretamente).
  • Constituição Federal de 1988, Art. 5º, Caput: Princípios da Igualdade e da Inviolabilidade do Direito à Vida (violados pela seletividade da violência estatal e pelo genocídio seletivo nas periferias).
  • Lei nº 9.504/97 (Lei das Eleições), Art. 73: Veda o Abuso de Poder Político e Econômico por agentes públicos em benefício próprio ou de candidatos (o cerne da acusação contra Cláudio Castro).
    📚 Referências Bibliográficas e Temáticas
  • Wacquant, Loïc. Punir os Pobres: A Nova Gestão da Miséria nos Estados Unidos. (Essencial para entender o nexo entre pobreza, criminalização e controle social).
  • Misse, Michel. Crime e Violência no Brasil Contemporâneo: Estudos de Sociologia Criminal. (Análise da seletividade penal e da formação do “mercado do crime”).
  • Souza, Jessé. A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato. (Contextualiza o crime de colarinho-branco e a corrupção eleitoral como práticas estruturais da elite brasileira).
  • Instituto Sou da Paz. (Para dados e estudos técnicos sobre a origem e o fluxo de armas de fogo, especialmente a ligação EUA-Brasil).
  • Dossiê GLO e Intervenção Militar. (Para contextualizar a militarização das favelas como política de controle de classe).

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