Introdução: A Dialética da Guerra e da Paz no Sul Global
A política internacional de 2025 foi marcada por dois eventos aparentemente desconexos, mas estruturalmente ligados: o teste do míssil nuclear hipersônico russo 9M730 Burevestnik e a oferta de mediação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a crise na Venezuela, durante sua reunião com Donald Trump.
Este artigo argumenta que a diplomacia brasileira, enquanto força de soberania e resistência do Sul Global, atua no vácuo de segurança criado pelo poder de dissuasão militar de seus parceiros do BRICS. A postura do Brasil é uma estratégia para “dobrar a arrogância” do Império do Caos (EUA/OTAN) sem recorrer à militarização, mas aproveitando o equilíbrio de terror para consolidar a paz regional e o desenvolvimento soberano.
- O Burevestnik: Âncora Militar da Resistência Estrutural
O míssil Burevestnik, apelidado de “arma invencível,” representa o ápice da competição militar entre as grandes potências. Na perspectiva da militância classista anti-imperialista, sua função não é meramente a de “concorrência imperialista,” mas sim de dissuasão estrutural contra a hegemonia do Império do Caos:
- Poder de Veto: O míssil funciona como o garantidor da soberania da Rússia e, por extensão, um escudo militar que protege o desenvolvimento autônomo de todo o bloco BRICS. Ele estabelece um “teto de risco” global, impedindo que os EUA/OTAN levem suas “guerras eternas” a um nível de escalada total contra nações soberanas.
- Desvio de Riqueza e Contradição de Classe: Apesar de sua função tática de resistência, o míssil encerra uma contradição de classe: seu custo astronômico (extraído da plusvalia e dos recursos públicos) perpetua a militarização. A militância apoia a dissuasão por necessidade, mas condena a alocação de recursos por princípio.
- A Mediação de Lula: Diplomacia como Vanguarda da Soberania Regional
A oferta de Lula para mediar a crise entre EUA e Venezuela, em meio ao envio do porta-aviões USS Gerald R. Ford ao Caribe, é a manifestação política da resistência do Sul Global à lógica da intervenção:
- Rejeição à Militarização: A defesa da “América do Sul como Zona de Paz” é a recusa categórica em aceitar o continente como palco de guerras de terceiros. Esta postura, ancorada na Constituição Brasileira de 1988 (Art. 4º, IX – prevalência da paz), é a afirmação de que a segurança regional deve ser gerida pela própria região.
- O Elo com o BRICS: A mediação do Brasil ganha força e credibilidade porque não é isolada. Ela é percebida pelo Departamento de Estado dos EUA como a voz de um bloco (BRICS) que possui contrapeso econômico (China) e militar (Rússia). A diplomacia do Brasil, portanto, utiliza o poder de dissuasão do bloco para negociar a estabilidade necessária ao desenvolvimento soberano dos seus mercados e da sua vizinhança.
- Aliança Tática de Classe: Lula negocia o fim do tarifaço (interesse da burguesia exportadora) e a paz na Venezuela (interesse da estabilidade regional). Isso representa uma aliança tática da burguesia nacional brasileira contra a ameaça do capital financeiro e militar dos EUA.
- Conclusão em Paralaxe: O Fio da Navalha da Resistência
A relação entre o Burevestnik e a mediação de Lula é a demonstração de que a soberania no século XXI exige um equilíbrio complexo de poder.
O míssil russo e a diplomacia brasileira são faces da mesma moeda de resistência à hegemonia imperialista. Enquanto o míssil estabelece o limite da coerção militar do Norte, a diplomacia brasileira atua para reverter a lógica das “guerras eternas” para a lógica do desenvolvimento e da paz, pilares essenciais para a luta e o desenvolvimento da classe trabalhadora no Sul Global.
A luta da militância não pode se dar contra a soberania de seu próprio Estado em face do imperialismo, mas deve pressionar para que essa soberania seja usada em prol da classe, convertendo o gasto com armamentos e o lucro dos novos acordos em investimento social.
Referências Relevantes e Constitucionais
| Tipo | Fonte | Relevância para o Artigo |
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| Constitucional | Constituição Federal do Brasil de 1988: Art. 4º, Inciso IX | Base legal para a política externa de Lula, que estabelece a prevalência da paz e a busca pela solução pacífica dos conflitos como princípios da República Federativa do Brasil. |
| Teórica/Filosófica | Lênin, V. I.: O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo | Fundamento da análise de que a corrida armamentista e a disputa por mercados (Tarifas, Venezuela) são manifestações inerentes à fase monopolista do capitalismo. |
| Estratégica | Doutrina de Segurança Nacional Russa / Estratégia dos BRICS | Fundamento para a análise do Burevestnik como mecanismo de dissuasão e para a compreensão do BRICS como um polo de resistência à ordem econômica unipolar. |
| Geopolítica | Diversos Autores do Sul Global (Ex: Ruy Mauro Marini, Teoria da Dependência) | Base para o pressuposto de que a atuação do Brasil, mesmo que com limites de classe, é uma resposta necessária à agressão e às pressões do Imperialismo do Norte (EUA/OTAN). |
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