O “Pior Congresso da História”: Uma Análise Classista em Paralaxe sobre a Captura do Estado e a Crise da Representação


Introdução
A percepção de que o atual Congresso Nacional é o “pior da história” é um tema recorrente e multifacetado no debate público brasileiro. Longe de ser apenas uma opinião popular, esta crítica, quando analisada a partir de uma perspectiva de militância classista, revela as profundas distorções estruturais, econômicas e ideológicas que capturam o poder legislativo, comprometendo sua função democrática e o interesse dos trabalhadores.
Este artigo sistematiza esta crítica em paralaxe, cruzando a realidade da luta institucional com as forças que tornam a competição eleitoral profundamente desigual e, pior, corroem a qualidade do debate político.
I. A Captura do Poder Legislativo: Fontes da Desigualdade Eleitoral
A principal razão para a composição de um Congresso que atua em grande parte contra os interesses populares reside na abissal desigualdade de meios entre as candidaturas classistas e os blocos conservadores/reacionários:

  • O Financiamento do Bloco Dominante: A eleição em massa de quadros antiprogressistas é garantida pelo vasto financiamento oriundo de múltiplas fontes:
  • Recursos Institucionais: O uso discricionário de emendas parlamentares (como o antigo e controverso “Orçamento Secreto”, e seus sucedâneos), que canalizam verbas bilionárias para a reeleição de bases aliadas, cria uma máquina de campanha quase imbatível.
  • O Capital Financeiro (Rentistas): O financiamento por grandes grupos econômicos garante que o Legislativo priorize pautas que assegurem a lucratividade do capital (reformas neoliberais, ataques à previdência, etc.), blindando-o contra interesses trabalhistas.
  • O Fundamentalismo: O uso estratégico de pautas de costumes, financiadas por grupos fundamentalistas, mobiliza grandes parcelas do eleitorado através de dogmas, desviando o foco dos debates econômicos e de classe.
  • O Crime Organizado: Em regiões controladas por milícias e tráfico, a ação eleitoral é garantida pela violência, intimidação e uso do medo, transformando eleitores em reféns de líderes criminosamente vinculados a mandatos.
  • A Desqualificação Política: O resultado deste financiamento distorcido é a eleição de um contingente de representantes politicamente desqualificados ou comprometidos com o crime e os golpes de Estado. O mandato, para muitos, serve mais como blindagem legal e máquina de extração de recursos do que como ferramenta de representação popular.
    II. A Crise Interna da Esquerda e a Mimetização de Métodos
    A dificuldade em reverter este quadro é agravada por uma crise endógena no próprio campo progressista:
  • Baixa Consciência de Classe: A ausência de uma visão estratégica unificada e de uma sólida consciência de classe leva os movimentos a se digladiarem em disputas fratricidas por pequenos espaços. Isso consome energia vital e desestimula a participação de bons quadros democratas e tecnicamente preparados.
  • O Vírus da Espetacularização: Pior, setores da esquerda, na ânsia por competir, acabam por mimetizar os métodos de baixa qualidade da direita. A campanha se transforma em um “festival entre o traço, cômico, [e] ridículo”, onde as questões ideológicas e políticas cedem lugar a personagens folclóricos ou apelativos (“o bombeiro”, “o doutor jesus”, “o capitão tal”).
    III. A Erosão da Democracia e o Asseio do Eleitorado
    A convergência da força bruta da direita com a crise de métodos da esquerda resulta na degradação total do processo eleitoral:
  • O Esvaziamento Ideológico: A proliferação de candidaturas superficiais, financiadas pela máquina ou pela espetacularização, torna o debate político irrelevante. O eleitorado vota no personagem ou na promessa imediata, não no projeto de nação.
  • O Asseio Cidadão: O “vale-tudo” da campanha eleitoral confunde a população e gera um profundo asco pela política. O cinismo resultante desmobiliza a cidadania e alimenta o sentimento de que “toda política é igual”, perpetuando o poder dos grupos que se beneficiam do status quo.
    Conclusão Classista
    O “pior Congresso da história” é, portanto, o espelho da captura do Estado por interesses não nacionais e anticlassistas. Para a militância, a luta no fronte institucional é irrenunciável, atuando como fiscalização e “caixa de ressonância” para os trabalhadores.
    Contudo, a superação desta crise exige uma dupla tarefa: o combate firme e denunciativo às fontes de financiamento e poder da direita e, simultaneamente, a restauração da consciência de classe e da qualidade ideológica dentro do próprio movimento, para que o debate político seja resgatado e os melhores quadros possam, de fato, representar e transformar a vida da classe trabalhadora.
    Referências Constitucionais e Bibliográficas Relevantes
    Referências Constitucionais (Constituição Federal de 1988)
  • Art. 1º, Parágrafo Único: O princípio de que “Todo poder emana do povo” é diretamente violado quando o financiamento desigual e a corrupção distorcem a representação popular.
  • Art. 3º: Os objetivos fundamentais da República (construir uma sociedade livre, justa e solidária; erradicar a pobreza e a marginalização; promover o bem de todos) são frontalmente atacados por um Congresso que prioriza interesses rentistas.
  • Art. 14: O direito à soberania popular, exercida mediante o sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, é comprometido pela influência do poder econômico e pela violência de grupos criminosos (milícias/tráfico).
  • Art. 37: O princípio da Moralidade na Administração Pública é violado por mecanismos como o Orçamento Secreto e escândalos de corrupção, que destroem a confiança na instituição.
    Referências Bibliográficas e Conceituais
  • Marx, Karl; Engels, Friedrich. O Manifesto Comunista. (Conceito de luta de classes e a função do Estado burguês).
  • Gramsci, Antonio. Cadernos do Cárcere. (Conceito de hegemonia e a luta por espaços de poder e cultura na sociedade civil e política).
  • Santos, Wanderley Guilherme dos. Décadas de Medo e de Crise. (Análise da instabilidade política brasileira e a formação de coalizões).
  • Souza, Jessé. A Elite do Atraso. (Análise sobre as classes dominantes brasileiras, suas ideologias e o uso da política para manter privilégios).
  • Filgueiras, Fernando; Arantes, Rogério Bastos. A Corrupção no Brasil em Perspectiva Histórica. (Para contextualizar a recorrência dos escândalos de corrupção no Legislativo).

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